Quarta-feira, 15 de Abril de 2009
“GOMORRA”, UM MURRO NO VENTRE DE UMA “QUASE FAVELA” NA EUROPA?


Vi
Gomorra (
Matteo Garrone, 2008) em DVD este fim-de-semana e se sabia que o filme era impressionante e que valia a pena ver porque li algumas críticas e ouvi opiniões de pessoas em quem confio, mesmo assim fiquei surpreendida com a força e com alguns factos que esta obra revela sobre a Máfia Napolitana. Depois de ter escrito o livro que esteve na base deste filme,
Roberto Saviano, encontra-se num programa de protecção e é escoltado pela polícia diariamente.
Gomorra é um diário da vida num bairro infernal com cinco narrativas distintas: os adolescentes tarados que não sabem o que fazer à vida a não ser consumir drogas, dar tiros com armas roubadas e jogar em salões de máquinas; o miúdo que distribui mercearias pelas redondezas mas que deseja pertencer ao grupo de traficantes pois não tem outra saída; o carteiro que entrega o dinheiro sujo que é coagido a trair uns e outros; o costureiro de alta-costura napolitana que se vende aos chineses e, finalmente, o empresário dos aterros ilegais e dos esquemas de resíduos tóxicos. Um conjunto de histórias cruzadas que nos vão desvendando o medo e a agressividade constante no seio daquele quotidiano malfadado pelos senhores do tráfego de armas e droga.
Custa a acreditar que estamos na Europa mas as cenas do filme são tão realistas que rapidamente nos apercebemos do que ali se esconde, uma pobreza tal que ninguém consegue escapar a ela, as crianças são precocemente requisitadas pelos seus serviços como vigilantes às investidas da polícia, como traidores e caça vinganças. Os mais velhos obrigados a vestir coletes antibala e a deambular entre bandidos sem rei nem roque... Um horror permanente onde ninguém consegue deixar de participar no esquema bem montado e as guerras entre gangs servem para controlar todos os habitantes do bairro num mundo sujo que se vai mostrando a pouco e pouco. O crime organizado gera guerra e funciona como uma empresa que controla não só o
underground, a droga e o tráfego de armas,
como também gera algumas empreitadas de branqueamento de capital, nomeadamente negócios associados ao turismo, à distribuição, à moda, entre outros.
Gomorra tem cenas muito bem filmadas e as personagens como que deambulam como fantasmas entre ruínas de vida, chamas que se vão apagando e que esperam pela “terra que esses olhos há-de comer”. A morte ali pode ser um alívio e o filme não sem dúvida um murro numa “quase favela” europeia? Pelo menos dá que pensar na hipocrisia.

