Segunda-feira, 11 de Maio de 2009
FESTIVAL OFFF 2009_UMA EXPERIÊNCIA!



Depois de três dias a deambular pelo
festival offf aqui vos deixo as minhas considerações gerais. O evento começou com a interessante comunicação de Neville Brody, “Make Trouble”, onde o designer inglês da
Research Studios mostrou alguns dos seus trabalhos e salientou as suas preocupações em relação ao futuro. Para Neville Brody, a sociedade da vigilância e do medo geram um sentimento de angústia que surge da constatação que nenhuma época viveu uma consciência tão profunda que o futuro será pior que o presente. A mensagem de Neville Brody ecoou pela gigantesca sala “Roots” da Fundição de Oeiras:
“For the first time in history we live in a place where the future looks worse than the past.”
Seguiu-se a apresentação do colectivo
Multitouch Barcelona, um projecto engraçado que junta interacção e jogabilidade na criação de instalações multimédia. Num dos corredores do edifício da fundição estava uma instalação do colectivo à volta do jogo Space Invaders. Nesta instalação diversas pessoas devem colaborar e atirar bolas à parece para matar os monstros que vêm tomar conta do planeta terra. À tarde só consegui ver as apresentações de Karsten Schmidt (
toxi e postspectacular) e
Eva Vermandel que me pareceram boas exposições de trabalho mas pouco eloquentes do ponto de vista da apresentação em si tendo em conta que são comunicações de uma hora que se ficaram um pouco pela mostra do portfólio dos artistas. Infelizmente perdi os U.V.A. e James Paterson + Amit Pitaru que, segundo ouvi, foram duas boas comunicações.
Sexta-feira o dia foi em cheio. De manhã ainda ouvi dois colectivos de designers portugueses no painel dedicado ao design nacional:
Alva e
This is Pacifica. Infelizmente perdi a apresentação dos
R2 Design. Os
Alva apresentaram um polémico vídeo sobre o atelier, um misto de filme/entrevista cómico que gerou algum mal-estar entre os presentes. Eu sinceramente tenho uma opinião neutra, achei alguma piada à estratégia usada, por introduzir algumas críticas a alguns clichés recorrentes na área do design no que respeita à relação com os clientes, mas aquele apelo aos machos alfa também pode ser entendido como algo completamente despropositado ou uma forma cabotina de exposição sem outra intenção que não seja produzir um efeito de riso (aha aha aha, que interessante). Nem sei... vejam o vídeo
aqui. Acho que no final fica mais a sensação de algo tonto. Os
This is Pacifica foram mais discretos e mostraram um interessante trabalho para o 32º Fitei.


A conferência de
Aaroon Koblin foi bastante recheada e quanto a mim das mais interessantes que vi no festival embora o som estivesse péssimo e nessa altura ainda não tivesse descoberto o truque dos auriculares.
Aaroon Koblin mostrou vários dos seus projectos de visualização de informação que lhe permitem, como artista, examinar alguns padrões nas tendências culturais. O autor usa arquitecturas colaborativas,
Ten Thousand Cents é um exemplo, para gerar sistemas que emergem a partir do contributo de inúmeras pessoas e enquadrou muito bem os seus projectos e a sua investigação de mapeamento de dados num cenário mais vasto de experiências. A obra
The Sheep Market, criada por diversos trabalhadores on-line, remete-nos para a frase “desenha-me uma ovelha” do principezinho de Saint-Exupéry. Muito bem estruturada e estimulante a comunicação.
À tarde vi
Champagne Valentine um colectivo holandês com piada com trabalhos muito experimentais e que misturam
media diferentes. Tiram partido de inúmeras
assemblages numa ambiência estranha que mistura vídeo, jogos digitais, animação, cinema, tecnologias móveis, entre outros. Uma experiência rica do ponto de vista visual e musical.


Seguiu-se a excelente apresentação de
Robert L. Peters, uma dissertação muito bem construída sobre os seus interesses e experiências, entrecruzada por citações e imagens de inúmeros autores que nos podem ajudar a perceber o que pode ser fundamental para a construção de um campo de trabalho sustentável e inclusivo. O poster “bombing for peace is like fucking for virginity” e a mensagem de activismo que sugere fizeram-me pensar no impacto que
Bruce Mau deve ter tido com o seu "
An Incomplete Manifesto for Growth" no
Doors of Perception há mais de dez anos... No ecrã de
Robert L. Peters as imagens sucediam-se: o panda Mickey Mouse elaborado por um artista chinês; as diferentes formas de interpretar as obras de design a partir de culturas distintas, as viagens; as frases de Marshall McLuhan e tantos outros autores. Um momento de paz presenciado pelos quase 4 milhares de espectadores que se levantaram pela primeira vez para aplaudir.
Robert L. Peters não mostrou só os seus trabalhos, como tantos outros que passaram pelo offf, misturou-os com outros autores, para assim sugerir alguns pontos de ligação do trabalho criativo e salientar o que vale a pena salientar num mundo que pode estar a cair.
This isn’t falling… Não, não estávamos em queda. Através das palavras de
Robert L. Peters voámos bem alto e metaforicamente fomos acompanhá-lo numa das suas escaladas pelas montanhas. Foi o momento, quanto a mim, mais elevado de todo o festival. Um privilégio. A única apresentação ainda em
powerpoint acabou por ser a mais recheada de todas. Como o autor começou por anunciar, uma apresentação de alguém que nasceu muito antes da maioria das pessoas da assistência, quando a imagem da terra vista do espaço era ainda uma miragem. A seguir os
Onesize pareciam ainda umas formiguinhas e fui até lá fora dar um passeio.


A apresentação de
Pes foi muito engraçada e os filmes
stop motion que o artista constrói usam materiais e criam ambientes que vale mesmo a pena conhecer.
Pes tem a particularidade de trabalhar apenas cinco meses por ano em filmes comerciais para agências de publicidade e dedicar o resto do seu tempo aos seus projectos pessoais. Assim, consegue o distanciamento que lhe permite uma análise crítica da sua produção. Muito engraçada a forma como explicou o processo de trabalho de utilização de um homem como boneco na construção do filme
Human Skateboard. E assim surgiu a tão esperada conferência de
Paula Scher, uma mistura do que a designer americana já fez em outras conferências (“Helvetica” e “Great Design is Serious”) com algumas particularidades curiosas, nomeadamente a referência aos galeristas com quem tem que lidar quando se dedica a expor os seus mapas subjectivos. Segundo
Paula Scher, estes galeristas e curadores deixam os economistas e gestores do Citi Bank no charco em matéria de estratégias de negócio. Para quem trabalha nos dois meios, corporativo e cultural, é óbvio perceber como os esquemas pouco transparentes da cultura são, por vezes, muito mais perversos na forma como tratam os artistas. Num caso conhecemos as regras, no outro, estas mudam ao sabor das vontades do momento. Uma boa comunicação mas muito centrada no seu próprio trabalho e, nesse sentido, pouco generosa.

E depois chegou
Joshua Davis. Com um trabalho interessante mas uma presença e uma performance em palco que se tornam insuportáveis na sua recorrente chamada de atenção, arrogância e vaidade. Um registo infantil que talvez por isso mesmo agrada imenso aos mais novos que adoram e riem das dezenas de
fuck funny, fuck that, fuck there… riem das piadinhas do rapaz tatuado que desenha bastante bem e se dedica à construção de padrões a partir de meia dúzia de objectos e regras algorítmicas. A instalação presente num dos corredores da fundição de Oeiras é, para mim, bastante estranha e o trabalho está a começar a resvalar também para o piroso mas enfim… sai antes dele acabar pois já não aguentava aquele rol de tontices e sinceramente nunca pensei que fosse tão patético. Fico-me pelo trabalho e aceito que tem algumas dimensões a explorar mas fiquei nitidamente com a sensação que é um construtor de padrões visuais repetitivos que um dia vai sair de moda, como uma tendência entre estações, será que
Joshua Davis sabe sair da sua redoma espacial? O tema da apresentação era o espaço.


Sábado assisti à apresentação de
Si Scott Studio que, diga-se com alguma honestidade, mostrou trabalho curioso na área do desenho aplicado ao design mas que na generalidade fez uma comunicação cansativa e entediante. Vi ainda o painel
Nerdferences, dos mais curiosos, onde foram apresentados um conjunto de projectos de design do tipo DIY (“do it yourself”) e a comunicação de
Peter Kirn, artista
media muito ligado à música e criador e editor do site
Create Digital Music, entre outros. Um momento bastante inspirador. Seguiram-se os
Digital Kitchen que mostraram alguns dos seus trabalhos, um conjunto de projectos elaborados no contexto de uma empresa criativa de produção cinematográfica, design experiencial,
motion graphics e identidade corporativa para entretenimento. Com agências espalhadas por Nova Iorque, Chicago, Seattle e Los Angeles, os
Digital Kitchen, criaram campanhas para a Microsoft, AT&T, Budweiser, Mercedes, genéricos de séries para televisão como "
Dexter" e "
Six Feet Under", entre muitas outras coisas.


Finalmente, apareceu o guru do festival,
Stefan Sagmeister, e assim entendi que vivia numa época em que os designers se transformam lentamente em padres. Com uma performance bem construída, um vestido de alças em cima de umas calças de ganga e uns gestos bastante femininos, o designer austríaco anunciou, com uma imensa delicadeza, o tema da sua apresentação – a felicidade – e mostrou os seus trabalhos dos últimos anos. Longe da
body art e da tipografia orgânica dos primeiros tempos,
Stefan Sagmeister, parece agora preocupado com temas mais "optimistas". A conferência pareceu-me bastante egoísta nos dias que correm e muito pouco preocupada com temas que deveriam preocupar a agenda de todos nós mas enfim… Sai do festival com a sensação que a escolha de "tracks" inicial da apresentação do austríaco era um “shake” de temas bem misturados no intuito de provocar um efeito no público, uma cortina de fumo: gémeas que crescem em ambientes separados e têm filhos na mesma idade; aplicação de ambos os hemisférios cerebrais; diferenças entre géneros; e depois a felicidade e a ausência de dela…

O
festival offf para mim correu muito bem e só faltou mesmo uma comunicação da curadora do MoMA,
Paola Antonelli, para relativizar tendências e aumentar a massa crítica. O ambiente foi calmo e organizado e apenas uma ida à casa de banho fazia descer os níveis da adrenalina pois embora sem fila o contentor era imundo. De resto, o festival é uma experiência que recomendo vivamente, uma montra muito significativa da criação digital contemporânea na sua vertente mais mixada: animação, música, vídeo, arte, design, cinema, televisão, criatividade, comunicação. Para o ano lá estaremos de novo. Já está confirmado que é em Lisboa?
De fosquinhas a 12 de Maio de 2009 às 14:21
Realmente, entre as constatações apocalipticas (e a-históricas) de uns (Brody), as pretensões new age de outros (Sagmeister) e as observações moralistas sobre o egoismo "nos dias que correm" (Mouseland), estamos nitidamente num contexto seminarista.
De
mouse a 12 de Maio de 2009 às 20:30
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Fosquinhas, ainda bem que reparaste na tonalidade seminarista. Estou a ver que és um espectador atento. xxx mouse
De margarida a 13 de Maio de 2009 às 22:27
olá mouse, fiz uns tweets no domingo a seguir ao OFFF que expressavam igual admiração pela fantástica apresentação do Robert L. Peters. Uma visão madura do design, uma sábia experiência do mundo, sentido estético e veia humana e activista. Fiquei totalmente fã :razz: No sábado, fui de comboio para Cascais participar no Seminário dos Capuchos e pareceu-me vê-lo quando passei em Oeiras a caminhar junto da Paula Scher. Se eram eles, acho que é uma imagem que vou reter do festival porque foram dos conferêncistas que mais gostei. Já sabes que ando a trabalhar sobre mapas por isso não podia ter sido mais oportuna a conferência da Paula Scher. Quanto à apresentação de PES confesso que adoro as animações com bonecos mas tenho muitas reservas ao tratamento de indíviduos como bonecos. Devo dizer que skate humano não me fascinou embora esteja muito bem feito. Mas acho o conceito demasiado alienado para meu gosto:shock: Finalmente mais duas das minhas conferências favoritas infelizmente não viste: as do U.V.A. com projectos belíssimos entre as quais a instalação Array no Chuya Museum, Yamaguchi, e o projecto "Natural History Museum Darwin's Canopy exhibition"; e a apresentação generosa e criativa do duo James Paterson + Amit Pitaru com excelentes animações bastante experimentais e a concepção da programação e animação da coreografia "I am a chain reaction". Podes vê-la aqui: http://www.vimeo.com/3826197 Fiquei foi desolada por não ir no sábado:sad: xx
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Olá Margarida, Penso que deves ter visto o Robert L. Peters a passear com a mulher que tem uma figura que se assemelha talvez à da Paula Scher, se fores ao blog dele conheces a EV mas eu vi-os juntos, marido e mulher, no festival daí tirar estas conclusões a partir do que relatas, a cor e o corte de cabelo, a postura... Enfim, foi mesmo um momento e penso consultá-lo via blog para estabelecer contacto. Tive muita pena de não ver os U.V.A (gosto de chamar-lhes fruto mas eu estou sempre a recriar nomes e siglas, hehehe, desde pequena). Vou ver o vídeo que deixaste.
Entretanto, acho que pelo menos te podes consular por teres assistido ao dia mais cheio! Quanto ao Pes eu gostei desse sadismo esforçado que nos pode alertar para o seguinte: até que ponto estamos dispostos a passar por bonecos. É evidente que é muito cruel o processo mas o puto deve ter adorado, estranho q. b., e o próprio Pes parecia perceber o que ali se passava uma vez que o trabalho foi feito para um cliente e ele não concebeu a ideia apenas a produziu. xxx mouse
De José Neves a 15 de Maio de 2009 às 11:13
Este ano não fui por questões várias e porque o ano passado fiquei desiludido com a falta de pedagogia e novidade das apresentações (uma excepção foi o Trochut). Na grande generalidade das situações o que vi podia ter sido visto na WWW. Este ano parece não ter sido assim e este texto dá-me uma simpática panorâmica geral. Obrigado.
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Olá José, Realmente não te vi lá mas a S. disse-me que tinhas ido no ano anterior e que devias andar também pelo Offf este ano.
O ano passado ouvi essa crítica que fazes várias vezes e penso que este ano os organizadores devem ter tido em consideração o que aprenderam com o ano passado... infelizmente em 2008 eu é que não fui e agora até fico com pena pois acho que é uma experiência. Este ano só os nomes bem conhecidos do design eram suficientes para me fazer ir à Fundição de Oeiras, pelo menos uma vez na vida ia vê-los todos em "modo condensado". Um privilégio. Ainda bem que o texto é útil. :mrgreen::mrgreen::mrgreen: pelo menos para partilhar o que por lá se passou pois, como diz o(a) fosquinhas, ando em "modo seminarista". Deve ser isso xxx mouse
:grin:
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