Sexta-feira, 31 de Julho de 2009
SÉRAPHINE, RUDE E ENIGMÁTICA
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Séraphine (Martin Provovost, 2008) é um filme sobre a história de Séraphine Louis ou Séraphine de Senlis (1864-1942), uma empregada doméstica que se tornou pintora e que foi acidentalmente descoberta pelo coleccionador alemão Wilhelm Uhde, neste filme representado por Ulrich Tukur. Wilhelm Uhde foi, segundo dita a história de arte, o primeiro comprador de Picasso, teve uma influência significativa na vida de Henri Rousseau, esteve casado dois anos com Sonia Delaunay e organizou a primeira exposição de Arte Naïf ou arte primitiva moderna.

Séraphine é um drama histórico, um filme trágico muito bem interpretado por Yolande Moreau, que revela a vida de uma pintora esquecida que acabou num manicómio. Confesso que há um tipo de narrativa sobre os primitivos modernos que me enerva um bocado, a ideia de retorno a um estado puro e imaculado, inerente ao discurso do mito do Bom Selvagem. Porém, neste filme, tudo isso se desvanece porque este universo surge misturado com um outro mito, também recorrente na interpretação e na teoria sobre a arte, a loucura do artista e as suas experiências com substâncias químicas como aliadas do génio. Ora, esta ideia da queda evidente do génio nas profundezas da sua mente alterada misturada com a humilde situação de uma pura campónia condimenta profundamente este filme inquietante. Séraphine não se drogava mas bebia o vinho que fabricava com as mesmas mãos que humildemente lavavam no rio a roupa dos outros, as mãos que esfregavam o chão das casas onde trabalhava, entre as quais a casa de repouso em Senlis do seu futuro coleccionador e mecenas que precisava de descansar das agruras da vida na cidade (Paris). Depois, devia delirar com paraísos florais, tão puros quanto artificiais, enche o espaço das telas destes motivos num ritual xamânico que me fez tanto pensar em Paul Cézanne, pela brutalidade, como em Henri Michaux pela subtileza, quanto em Jean-Michel Basquiat pela gestualidade. E a verdade é que não sei porquê, se pelas drogas, pelo delírio ou por alguma força corporal.

Com uma cenografia e fotografia maravilhosas este filme é imperdível porque nos leva até ao passado, com um olhar contemplativo, mas também nos projecta “para fora do tempo” numa amálgama de referências. Imagens que surgem como telas vivas, tão clássicas e inquietantes, porque há tão poucos filmes assim. Já se falou, a propósito de Séraphine, do filme Van Gogh de Maurice Pialat (1991) e então Camille Claudel de Bruno Nuytten (1988)? E porque não O Sol do Marmeleiro de Victor Erice?


5 comentários:
De rafgouv a 12 de Agosto de 2009 às 10:01
A referência ao xamanismo parece-me um pouco rebuscada e anacrónica, não por ser totalmente injustificada mas porque Séraphine se aparenta mais uma feiticeira ou bruxa, próxima dos nossos horizontes. Por outro lado, penso que vale a pena insistir mais sobre o trabalho quimico realizado pela pintora/feiticeira com os pigmentos, cores e texturas do que sobre a produção caseira de vinho...

O que mais me interessou neste filme foi a relação que se establece entre o mecenas e a sua pupila e o estatuto particularmente ambíguo do mesmo mecenas. Por um lado, o inegável faro artistico e a curiosidade genuina de Tukur e, por outro ,as cruéis exigências comerciais e financeiras (o filme presta uma atenção rara aos constrangimentos económicos, aos preços e à sua relatividade), as modas e os ciclos contra os quais o mecenas se revela impotente e que conduzem Séraphine ao asilo.


De mouseland a 13 de Agosto de 2009 às 02:48
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: hum... o coleccionador é muito estranho, será que se confirma que fez um casamento de fachada com Sonia Delaunay para ocultar a sua homossexualidade? O aspecto mais enigmático é a descoberta de Picasso e relacionar isso com um comissário de exposições primitivas modernas, Arte Naïf, confesso que é coisa que não aprecio grandemente… de resto, só os puristas é que ainda acreditam que a arte não esteve sempre associada ao negócio.

Quanto a Séraphine de facto parece ir parar ao asilo depois de uma total incapacidade para conter a bolsa, sempre habituada a viver com o pouco que tinha não aguenta, parece, o impacto da boa fortuna. xxx mouse


De rafgouv a 13 de Agosto de 2009 às 07:55
hmmm a historia do casamento de fachada ou não não me interessa de todo e não faz parte do filme...

hmmm, a "incapacidade para conter a bolsa"? Que interpretação tão pouco sensivel e tão moralista! Penso que é mais a incapacidade do mecenas para honrar as suas promessas, fossem elas explicitas ou implicitas, não?


De mouseland a 30 de Agosto de 2009 às 18:16
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: hummmm... promessas implícitas têm muito que se lhe diga. xxx mouse


De rafgouv a 1 de Setembro de 2009 às 09:22
O mecenas promete (explicitamente) a realização de eventos que não honra, e a melhoria transitoria da situação financeira representa para Séraphine a promessa (implicita) de uma notoriedade e de um conforto que não serão realizados.

Uma das acepções da palavra "promessa" é, segundo o dicionario da ACL, "esperança fundada em aparências"...

Nesse sentido, dizemos que tal ou tal artista (ou bloguista) é "uma promessa" (implicita no seu trabalho, no seu empenho...) apesar de não formalizada por uma declaração ou por um contrato.
Imagino que era precisamente isto que sugerias ao afirmar que tais promessas "têm muito que se lhe digam".


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