Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
TALLINN OU LISBOA?_AGOSTO 09






Fomos para Tallinn de barco a partir de Helsínquia e chegar ao porto de desembargue é uma sensação bizarra e desoladora. É verdade que estávamos no penúltimo dia de viagem pelo que uma certa nostalgia contaminava certamente o nosso espírito. Ao longe, ainda no barco, deparámos com as casas de várias cores alinhadas na horizontal mas a paisagem circundante é no mínimo angustiante devido ao aspecto abandonado a que a costa da cidade está votada. A linha do mar é acompanhada por uma mancha de edifícios degradados e tudo está agora voltado de costas para o mar. O pontão onde chegámos deve ter sido noutros tempos um sumptuoso restaurante, gigantesco, talvez arquitectura russa agora destruída e cheia de
graffitis sem personalidade nenhuma. Um par de namorados pontuava, aqui e ali, um cenário de turistas que se dirigiam em manada para o centro da cidade. Passámos pelo outrora museu de arte contemporânea com as duas
esculturas-cabeças e, com o céu cerrado, o frio e a ideia de final de férias, depois de uma viagem de barco bastante agradável de hora e meia, o panorama geral de Tallinn pareceu-me triste.







O centro da cidade é outra coisa, está mais arranjado e é muito bonito, mas estive sempre com a sensação que tinha voltado a Lisboa nos anos oitenta. Sentámo-nos num bar do centro, onde as pessoas fumavam cachimbo (narguilé) e lembrei-me várias vezes do Bairro Alto dos anos oitenta e início dos noventa, quando tudo ainda era
underground, secreto e se sentia no ar um ambiente de liberdade adolescente. Mas o centro é muito turístico e os preços acompanham a entrada da Estónia para a União Europeia em 2004. Almoçamos pessimamente a preços desconcertantes. A “sociedade secreta” de Tallinn escapou-me completamente e achei o ambiente estranho. Ficou tudo por conhecer mas ainda deambulámos por um centro comercial e pelas redondezas da zona histórica para ver se percebíamos alguma coisa. No futuro Tallinn talvez fique uma cidade maravilhosa, tem tudo para isso, mas por agora a pobreza faz-se sentir demasiado, principalmente para quem vem de Helsínquia. Acho que o que mais me incomodou em Tallinn foi a consciência de que ia regressar a Lisboa e perceber como ia estar tão longe da limpeza das cidades da Finlândia e de São Petersburgo. Tallinn trouxe-me o sentimento da "realidade" e por isso no porto antecipámos o nosso regresso a Helsínquia para duas horas antes. Queríamos viver mais um pouco o paraíso de Helsínquia e Tallinn parecia demasiado real naquele momento, demasiado próximo.








Cheguei a Lisboa no final de Agosto. No início de Setembro li a crónica da Inês Pedrosa na revista
Única do jornal
Expresso sobre os procedimentos do hospital de Santa Maria em relação a uma infeliz rapariga violada. Segundo
aqui se revela, a pobre rapariga esteve onze horas à espera de uma zaragatoa, uma vergonha que me deixou boquiaberta e que mostra bem o funcionamento actual dos serviços públicos. Na minha rua assisti a inúmeras cenas de histeria desenfreada, berros como se toda a gente andasse zangada e quisesse que os outros o sentissem. No supermercado, ali para os lados da Praça do Chile, assisti ao assalto de uma garrafa de água de 33 cl. Num outro dia, passámos, eu e o P., por um dos sem-abrigo residentes aqui no bairro, no centro de Lisboa na zona da Alameda, a mijar a dois passos do restaurante local e a mais dois passos do sítio onde dorme... foi de tal ordem embaraçoso que o rapaz até se sentiu na obrigação de nos pedir desculpa. Com a mesma mão com a qual fumava um cigarro, a cair de bêbado, e a mijar na via pública com a outra mão. A calçada da cidade está tão imunda que cheira mal e o chão encardido cola nos pés quando andamos. As beatas andam por todo lado, atiradas ao piparote pelos fumadores que acham que a rua é equivalente a lixeira pública. Finalmente, anos depois do prometido, o troço de ligação das duas linhas de metro, azul e vermelha, está concluído mas a cidade de Lisboa é uma lixeira cheia de edifícios degradados e não entrou para a comunidade europeia em 2004… Tallinn lembrou-me que ia regressar para umas eleições onde todos são culpados mas ninguém tem a culpa. Tallinn lembrou-me Lisboa. Houve ali um efeito fantasma que não sou capaz de desvendar mas as férias estavam a acabar.



