Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
RIO DE JANEIRO_OUTUBRO_09
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Este blog tem andado com falta de novidades e, por isso, vou fazer um condensado de reflexões, considerações, divagações… Tenho andado literalmente “entalada” em matéria de trabalho. O semestre a começar em força e a viagem ao Rio de Janeiro deixou-me bastante debilitada fisicamente por diversas razões. Este último fim-de-semana consegui, finalmente, fazer boas refeições e dormir profundamente horas suficientes para manter os níveis de adrenalina elevados. Passei a noite da véspera da viagem para o Rio de Janeiro a preparar a sinopse da minha próxima apresentação em Madrid. Nada melhor para ajudar a passar a noite, que já tinha que ser em branco, uma vez que a partida era de madrugada. Assim, no próximo dia 20 de Novembro vou apresentar a comunicação Beyond Art: Digital Aesthetics and Gameplay, advogando que: Gameplay is a core concept in digital aesthetics and can be helpful for us to understand how digital games are beyond art and is the best cultural artefact to speak about digital aesthetics. Taking into account Brian Sutton-Smith statement: “where once art was at the center of moral existence, it now seems possible that play, given all its variable meanings, given the imaginary, will have that central role” (Sutton-Smith, 1997: 144), this presentation will focus on art games, retro games and machinima but also games from the industry to express some perspectives about gameplay and aesthetics. Tenho uma hora para defender esta tese. Mais informações aqui e aqui. Agradeço, desde já, o convite que me foi endereçado por Flavio Escribano do Ars Games, redefining arts & videogames, para participar neste evento: Game Art & Game Studies International Festival.

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No avião para o Rio conheci uma suíça que se sentou ao meu lado devido ao frio gelado do ar condicionado. Bastante simpática mas algo preocupada com as férias que tinha escolhido no Brasil, tudo por causa da segurança. Trocámos algumas ideias e penso que terá ficado mais descansada. Suspeito que existe alguma relação entre o arrefecimento dos aviões e a gripe A pois na semana anterior o P. voou para São Paulo e queixou-se do mesmo problema. Mas nada que possa provar, portanto, mais vale abandonar o assunto. A viagem foi pacífica mas no avião presenciei duas quedas em “poços” de ar daquelas coisas que deixam qualquer pessoa nervosa. Fiquei muda e hirta a olhar para a Monique que teve a mesma reacção que eu. O modelo do avião da Ibéria, onde viajei, não tinha ecrãs de vídeo e jogos individuais pelo que qualquer hipótese de ver filmes ficou logo gorada. Como não estava capacitada para ler acabei a dormitar de forma intermitente.

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Cheguei ao Rio de Janeiro era noite cerrada e a procura de um táxi foi no mínimo hilariante. Cinco senhoras gritam aos turistas, dos quatro ou cinco guichés disponíveis no aeroporto, a oferecer os serviços de táxi. Depois, é só pagar e procurar o táxi que nos calhou na rifa. No meu caso, um rapaz veio ter comigo mas claro que, bem desconfiada, não lhe passei a mala para a mão sem confirmar a cor do veículo que tinha ao meu dispor. O código era: frota azul, vermelha, preta ou prata. A frase queria dizer pouco e o sistema é totalmente falível mas o rapaz ainda teve que me apresentar o logótipo na camisa. Lá “embarquei”, com um senhor de idade, bastante simpático, e passei por uma fila de trânsito assinalável até chegar ao Rio. As favelas vão desfilando e à noite o cenário é mesmo fantasmagórico.

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Chegar ao hotel em Copacabana foi um conforto imenso e adormeci depois de devorar o resto de uma sandes que trazia comigo desde madrugada. Na manhã seguinte, debaixo de chuva, lá fui até à PUC, de táxi, tentar regularizar a minha inscrição, e a de um colega, no simpósio, uma vez que em Lisboa tinha sido impossível a Universidade fazê-lo pois a organização não aceitava transferências bancárias. Iniciei a minha escalada pelo surrealismo… O evento também não aceitava pagamentos Visa e nenhum dos bancos, Santander, Itaú, Banco do Brasil, entre outros, no interior da universidade, permitia o levantamento com cartões Visa. Depois de "implorar" aos “capangas” da segurança dos bancos inúmeras vezes para entrar nas suas dependências no sentido de verificar outras possibilidades, lá percebi que tinha que ir chorar a minha entrada naquele dia e voltar lá no dia seguinte com a quantia da inscrição em dinheiro. Ora, andar com dinheiro “vivo” no Brasil é quase tão mau quanto andar com um Visa Electron mas o P. chegava no dia seguinte e seria a minha salvação porque, para mim, ir procurar um banco em Copacabana e andar por ali a testar levantamentos era impensável. Aprendi, nos meses de estada em São Paulo durante três anos, que há coisas no Brasil que só se fazem quando têm mesmo que ser feitas e a organização tinha que resolver a minha situação senão ficavam sem “palestrante” por vinte minutos. Assim aconteceu. Fui ao balcão de atendimento do Sbgames 09 e convenci a senhora a dar-me acesso nesse dia que voltava lá no dia seguinte para fazer o pagamento. Nesta fase já tinha lutado comigo própria, e com os meus nervos, muitas vezes, e permanecer, a apanhar chuva, entre cá e lá, nos edifícios da PUC, a resolver coisas insensatas, foi suficiente para ter vontade de abortar a missão mas, finalmente, lá me aguentei.

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Depois, quando olhei para o mapa, com os vários sítios dos eventos, que finalmente me forneceram juntamente com o crachá mas sem os restantes materiais, percebi que encontrar o lugar onde teria que estar ia ser mais uma aventura. Perguntei, perguntei, ninguém sabia de nada… até que, finalmente, depois de muita subida e descida de escadas lá cheguei. Tinha imenso tempo mas decidi não arredar pé pois começava a sentir os efeitos do jet lag. No espaço das apresentações estava a decorrer outro evento qualquer e a sala estava ainda cheia. Fui logo avisada que aquilo ia atrasar bastante mas, nesta altura, já estava pacificada à espera da hora de cumprir a missão e de me "pisgar" para o hotel. O resto da tarde decorreu dentro da normalidade num evento destes. Encontrei a Lynn Alves e conheci dois portugueses da Universidade de Coimbra que, muito simpáticos, me vieram avisar que estava tudo atrasado. Falei, recebi felicitações, ouvi as outras intervenções e, por volta das 19h, decidi regressar ao hotel pois já não aguentava estar mais tempo sentada depois do voo da véspera. Decidi abandonar a sala cedo demais segundo percebi mais tarde. Perante uma noite cerrada e muita chuva, pedi ao porteiro da universidade para me arranjar um táxi. Enviou-me para uma fila de pessoas enorme e, claro, momentos depois pude constatar que só arranjava táxis às pessoas que conhecia enquanto nós, na bicha, os víamos passar à nossa frente. Apanhei uma molha, esperei uma hora e, o pior, estava bastante frio e eu não estava assim muito agasalhada.

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Quando cheguei ao hotel dei 4 reais de gorjeta ao taxista que me levou com bastante rapidez e empenho da Gávea a Copacabana, uns 40 minutos, estava tudo parado... Fui num carro a cair de podre mas com uma excelente banda sonora. O senhor sorriu nitidamente perante o exagero da minha gorjeta e disse-me que o problema daquele dia é que as ruas estavam todas entupidas devido à chuva que não parava. Cheguei ao hotel e pedi uma deliciosa canja, como só os brasileiros fazem e que é quase tão boa quanto a nossa, hehehe, e uma "pasta". Tudo no quarto. Não tinha energia para sair e adormeci a ouvir as notícias.

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Sexta-feira, dia 9 de Outubro, o P. chegou de São Paulo logo às dez da manhã e foi regularizar as coisas comigo à PUC. Fui mostrar-lhe as instalações e o refeitório da Universidade e tentei falar com algumas pessoas da organização, em vão, ninguém sabia onde estavam ou quem eram. O mesmo "número" da véspera. Continuava a chover copiosamente e por isso comprámos umas pastas para proteger os materiais da inscrição. Falámos com dois “rapazes” da Trinigy (GmbH e Brasil) e circulámos por lá. O regresso ao hotel foi mais fácil porque ainda era dia e à noite fomos jantar a um restaurante tradicional japonês, Azumi, nas redondezas do hotel. Uma experiência gastronómica que recomendo vivamente para quem foi ou vai ao Rio de Janeiro. Ainda nos sentámos no bar do rés-do-chão do nosso hotel antes de deitar mas o ambiente não era muito recomendável. Pelo que me dizem, acho que é assim em Copacabana por todo o lado, e logo nos lembrámos porque é que da outra vez tínhamos ficado em Ipanema, com a favela muito mais presente, mas sem esta aura decadente de droga e prostituição. O hotel era de um “padrão” elevado, como dizem os brasileiros, escolhido “a dedo” e nada barato e mesmo assim… Nesta fase, e depois de várias viagens pelo Brasil, já interiorizei bem o verdadeiro significado da expressão “gato-por-lebre”. Em poucos minutos conseguimos ver um ataque de prostitutas aos turistas do nosso hotel, a tentativa do porteiro bloquear a entrada das referidas senhoras no lobby deste, uma passagem de droga… Nunca tinha visto nada tão descarado na vida. Um rapaz foi embaraçosamente assaltado por uma senhora que lhe começou a disparar beijos na cara e na boca e o mesmo, estupefacto, teve que a enxotar, sem dó nem piedade. Deprimente q. b..

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No dia seguinte, ainda debaixo de chuva, fomos visitar o MAM, Museu de Arte Moderna, e vimos umas exposições interessantes. Jantámos no restaurante do hotel, com uma vista maravilhosa da praia deserta, devido ao mau tempo, de Copacabana. Na manhã seguinte tomámos o pequeno-almoço com um casal de amigos de São Paulo e partimos para o aeroporto. O taxista que nos levou disse-nos que não tinha memória de ver tanta chuva seguida no Rio de Janeiro. Só na manhã da partida é que fez sol. A minha segunda ida a esta cidade fez-me pensar em algumas coisas relativamente a São Paulo: no Rio de Janeiro os “sucos” de fruta são mais frequentes e melhores; o Rio fica muito mais bonito sem gente por todo o lado e a praia parece mágica vazia mas, a cidade sendo muito mais charmosa que São Paulo, continua, para mim, sem a mesma magia, talvez devido aos negócios… Em São Paulo parece haver uma cultura de maior exigência; o Rio de Janeiro é mais cosmopolita, afirma-se como a capital cultural do Brasil, será que é? O turismo dá-lhe vida, sem dúvida, mas parece em muitas coisas uma cidade provinciana. Ok, confesso. Para mim nunca será uma metrópole maravilhosa e estava à espera de ver muito mais entusiasmo em relação aos Jogos Olímpicos de 2016. Acho que as pessoas percebem bem os inúmeros problemas que têm pela frente e devem ainda estar aterradas com a perspectiva. O aeroporto é um evidente espelho da cidade e a cena dos balcões de táxis, com as diversas senhoras aos berros à cata do cliente, é tão surreal que parece que chegámos ao fim do mundo. Não sei se é porque não tenho muita sorte com as minhas viagens ao Rio de Janeiro, se a cidade é apenas algo superficial para mim ou, se tudo me escapa sempre porque São Paulo é, de facto, mais interessante na sua estrutura caótica. A viagem ao Rio teve o efeito de me levar de volta a São Paulo. As fotografias do Rio de Janeiro foram todas tiradas em 2003, com sol. As fotografias em baixo são de São Paulo, uma cidade onde vivi uns tempos e onde um dia vou voltar.

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Em Madrid fiquei cinco horas à espera do próximo voo para Lisboa e chegar a casa foi um alívio. No dia seguinte tinha aulas para dar. Os meus agradecimentos à Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (projecto infomedia) por ter financiado o meu bilhete de avião para o Brasil.

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9 comentários:
De Enolough a 2 de Novembro de 2009 às 12:38
Não era texto humorístico mas acabou por ter piada este post cheio de aventuras e desventuras descritas a um ritmo alucinante...
:smile:


De mouseland a 2 de Novembro de 2009 às 21:41
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Bem-vindo! Obrigado. Era para fazer sorrir, hehehe. xxx mouse


De tipografia a 3 de Novembro de 2009 às 19:27
:shock::shock::shock:
...MOUSE, tem um apurado sentido de humor (qualquer inglês ficaria com inveja, com tal TALENTO) :lol::lol::lol:

ttttt


De mouseland a 3 de Novembro de 2009 às 23:53
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Obrigado Tipografia :oops:. Tenho que te ligar para combinarmos alguma coisa. xxx mouse


De migalha a 17 de Novembro de 2009 às 19:31
Com sol o Rio é, como diz a canção, a "cidade maravilhosa". Não me farto de lá ir, como turista claro pois trabalhar lá não é fácil! A natureza bafejou de encanto a cidade que as favelas enegrecem... De qualquer forma prefiro a praia e o calçadão cheios de gente pois isso é a alma do Rio. :smile:


De mouseland a 18 de Novembro de 2009 às 13:41
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Migalha, com sol o Rio fica uma verdadeira salganhada de pessoas, fico com claustrofobia, hehehe. Acho que, no meu caso, gosto mais do rio sem "alma". xxx mouse


De Pavor a 25 de Novembro de 2009 às 13:20
Deus me livre de no avião me sentar ao lado cicerone como o senhor quando for visitar cidade desconhecida. Este texto mostra bem o complexo de algum português perdido na belissima baia carioca. Pobre turista suiça, ela tem desculpa de não falar brasileiro mas você que até deve falar umas coisinhas, ainda assim teve tanta dificuldade burocratica?!! Recomenda-se que arranje com urgência uma assistente que tire os caroços das cerejas e as grainhas das uvas, com tanto problema sua vida académica deve ser dificilérrima.


De Pavor a 25 de Novembro de 2009 às 13:26
Estava esquecendo: como uma pessoa de cidadezinha como Lisboa pode achar o Rio, São Paulo ou qualquer outra capital de estado brasileiro "provinciana"? Faz lembrar uma priminha que tenho em Marco de Canaveses e que detesta ir à megalopolis de Guimarães.


De mouseland a 30 de Novembro de 2009 às 03:09
:twisted::twisted::twisted: Caro Pavor, penso que o seu texto denota bem algum problema de interpretação do portugês pelo que não vale sequer a pena tentar refutar as suas afirmações. xxx mouseland


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