Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
DEZEMBRO NO CINEMA_2009
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Decidi nos últimos dias do mês fazer alguns posts sobre o mês de Dezembro uma vez que me foi impossível manter este blogue actualizado. Depois de um período sem qualquer hipótese de ir ao cinema e ainda em fase de redacção de algum trabalho, finalmente, tive algum tempo para ver séries e filmes em DVD e na “tela” de cinema. Assim, aqui estou a sugerir algumas coisas para os meses de frio de Inverno onde sabe tão bem ficar em casa, quente e com uma chávena de chá. Ficam aqui, para já, algumas sugestões cinematográficas.

Fui ver Tetro de Francis F. Coppola, 2009. O filme tem um impacto bastante estranho e sinceramente acho que gostei mais dele quando sai da sala de cinema do que gosto neste momento. Um “texto” visual complexo e um espectáculo de narração sensorial por vezes com demasiado bom gosto. Talvez por isso mesmo tenha pensado que o queria ver outra vez logo, no final, quando acabei de visualizar a ficha técnica. A narrativa é sedutora e, como qualquer drama familiar, entranha-se facilmente e de maneira visceral no imaginário de cada um, numa mistura trágica mas também cómica. As cenas mais convincentes da desgraça dos dois irmãos surgem associadas a uma comédia que se vai desenrolando através de personagens tipo que se cruzam com os protagonistas: “o argentino de bigode com pretensões a italiano”; “a namorada e vizinha ciumenta e histérica (emocionalmente italiana? é conhecido o fascínio que os argentinos têm pelos seus antepassados europeus); a crítica de arte pretensiosa; o pai famoso, cruel e meio pedófilo; o artista gay vaidoso e também pretensioso; Enfim, um rol de figurantes que dão às personagens principais espaço para se tornarem também eles estereótipos: o génio sem sucesso, o irmão mais novo carente e a namorada/mãe. Tetro trata bastante mal Buenos Aires que surge como um lugar decrépito, o bairro a Boca é retratado como um beco sujo de artistas sem “arte”, frustrados e decadentes performers de cabaré. A luz do filme é magistral assim como as cenas da Patagónia, as coreografias e a cor… com detalhes de direcção de arte de arrepiar a epiderme como, por exemplo, as bolas da camisa de Bennie (Alden Ehrenreich) em contraste com as manchas rugosas e os graffitis da cidade, para citar apenas um pormenor que apreciei bastante. Tetro (Vincent Gallo) é, por vezes, um bocado irritante, tem um estilo maldito que roça o pedantismo e a idiotia. Por tudo isto gostei do filme e tenho mesmo a impressão de que aquilo que não gostei não podia ser de outra maneira. O olhar americano, algo superior, demasiado New York, demasiado cheio de bom gosto, mas também igualmente condescendente é acompanhado por uma magia sensual que interpela o espectador. Uma experiência estética demasiado recheada do ponto de vista visual.

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Outro filme que me encantou foi o japonês Andando (Hirokazu Koreeda, 2008), uma história muito simples de uma tristeza assinalável que retrata, de forma universal, aquilo que acontece em muitas famílias. Dois filhos, uma mulher e um homem, visitam com as suas respectivas famílias actuais os pais que estão bastante envelhecidos. Em conjunto acabam por se confrontar uma vez mais com a perda, há quinze anos, de um terceiro irmão, facto que ao mesmo tempo vai desenrolando mágoas e pequenos rancores. A memória do falecido ofusca as acções dos filhos vivos mesmo que essas tenham sido efectuadas no passado. Tudo o que é bom pertence ao morto, filho varão. Tudo o que é mau está entre os vivos. A aceitação no seio da família da nora, divorciada e mãe de um rapaz, mulher do filho mais novo, surge carregada de uma enorme crueldade e é absolutamente fascinante como, mesmo num filme imerso na cultura japonesa e nas suas tradições, conseguimos mergulhar para qualquer drama familiar ocidental. Grande parte da acção do filme passa-se na cozinha, do sushi à tempura, directamente para o paladar, passando pelo cheiro. A cidade de Yokohama surge como um cantinho do Japão, verdejante e azul, com borboletas e espíritos malévolos. Que saudades da terra nipónica onde tudo é simultaneamente delicado e amargo.

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Depois vi também o último filme de Spike Lee, Miracle at St. Anna, 2008, sobre a Segunda Grande Guerra e os seus efeitos. Um filme interessante mas que está longe da perícia habitual de Spike Lee, nomeadamente do fabuloso Inside Man de 2006 ou Summer of Sam de 1999, para citar apenas alguns filmes do mestre. A relação entre o soldado americano e o miúdo italiano são talvez das mais tocantes cenas do filme. O gigante de chocolate e as suas tropelias para resgatar a criança italiana leva-nos até ao massacre na igreja de St. Anna e aos horrores da guerra. Vale a pena ver mas não é um filme totalmente conseguido.

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Vi ainda Moon (Duncan Jones, 2009), uma surpresa que não estava nada à espera. Sam Bell, Sam Rockwell, num papel extraordinário uma vez que este é essencialmente um filme de actor, trabalha na Lua, na base Sarang (que quer dizer amor em Coreano), das Indústrias Lunar. Sam dedica-se a acompanhar a maquinaria que faz a extracção de hélio-3 a partir do solo lunar para enviar energia (clean) para a Terra. A sua comissão é de três anos mas a personagem acaba enredada num conjunto de peripécias que convém não desvendar. O seu assistente robótico é GERTY que tem a voz cheia de charme de Kevin Spacey. Uma narrativa de ficção científica, criada pelo filho de David Bowie, Zowie Bowie, que me surpreendeu e que vou certamente voltar a ver em DVD pois gostava de me certificar de alguns detalhes que são difíceis de apreender em apenas uma visualização. Recomenda-se!

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Finalmente, fui ontem ver o tão esperado Avatar (James Cameron, 2009). Infelizmente não pude usufruir da experiência 3D uma vez que sou quase cega do olho direito mas, mesmo na versão 2D, recomendo o filme. Uma viagem interminável aos confins de Pandora com uma estética geek, muito inspirada nos jogos digitais, com detalhes visuais, por vezes, quase pirosos, mas muito bem feitos. Uma ficção narrativa que assenta no espectáculo sensorial e na acção para nos deliciar com um universo fantástico onde o “agente” infiltrado de raça humana, Jake Sully (Sam Worthington), um paraplégico veterano na Venezuela, começa progressivamente a ficar mais baço na vida real e cada vez mais luminoso na realidade alternativa, e. g., como avatar analógico/digital incorporado. Uma história onde os nativos ganham cada vez mais luz e os humanos vão obscurecendo pelas suas falácias tecnológicas. A mensagem ecologista new age é clara: a sociedade ocidental nada tem para oferecer aos nativos de Pandora. No planeta e na selva do clã Na’vi a vida está estruturada de forma holística sendo que o meio ambiente e os seres vivos estão em sintonia enquanto nós cortámos há muito o cordão umbilical com a nossa fonte de vida, o planeta, a terra. Uma mensagem que assenta na carne como fonte de ligação à natureza, onde o corpo humano está em sintonia com o ambiente no qual está inserido e que por isso mesmo supera dualidades forçadas. Narrativa biológica onde as belas espécies jurássicas e medonhas são convocadas para discorrer sobre a selecção natural. Neste contexto, são os mitos de superação do corpo humano que vêm derrubar as crenças holísticas e o estado de harmonia com a natureza no qual os elementos do clã Na’vi vivem. Jake Sully é aquele que incarna um corpo alternativo num abandono artificial do seu corpo real, deficiente e ineficaz. O simulador que lhe permite aceder a Pandora é tão mais real quanto mais miserável for a sua vida humana, sem pernas não pode correr, sentir as coisas nos pés, magoar a pele e verter sangue e outros fluidos.

A verdade é que o paradigma da realidade alternativa também se vai ajustando ao sabor do tempo e, neste caso, dá relevo à substituição de um corpo por outro através da simulação. Longe estão as ficções mais empolgadas de descarte da carne pelo espírito típicas da década passada. Longe está a ideologia de uma realidade sem agenciamento, sem narração, e novos conceitos vão desfilando em Avatar. Surpreendente é também a forma como se entranha a relação complexa entre colonizador (os americanos) e colonizado (a população da tribo) e, no final, do filme os “transformers” robóticos do ingénuo e bruto comandante parecem de facto tão ridículos que engolimos com estranheza a simplicidade da história. Tudo em Avatar é claro e directo, são as nossas ficções de superioridade que nos fazem cair nas armadilhas mais óbvias.

As cenas dos rituais tribais para salvar a cientista Grace Augustine (Sigourney Weaver) e Jake Sully são talvez excessivas e recordam tanto o filme Invasion of the Body Snatchers (Philip Kaufman, 1978) que, por coincidência, vi recentemente na televisão, como o terceiro Matrix. Estas cenas têm um toque visual e performativo excessivo que é, quanto a mim, desnecessário mas que deve fazer parte das coreografias orquestradas para audiências de massas. O mesmo se pode dizer da banda sonora do filme, uma lamechice que tem o seu apogeu no final e que recorda as baladas de Titanic. Longe do Terminator 2. Sou grande fã de James Cameron e estava com algum receio que desta vez o mestre tivesse caído na ratoeira da "tecnologia pela tecnologia" uma vez que o mito do 3D serve muitas vezes de pretexto para vender mais bilhetes mas fiquei totalmente convencida que James Cameron, à semelhança de Stanley Kubrick, filma pouco mas quando o faz… recomendo vivamente.
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3 comentários:
De Zowie a 4 de Janeiro de 2010 às 17:11
please!!! not all bowies belong to david...
Moon's director is Duncan Jones (ok, his second name is Zowie). Neither Zowie nor Bowie or Howie...
Anyway, don't hesitate to come and see my show if ever you come to Vegas!
Zowie Bowie


De rafgouv a 8 de Janeiro de 2010 às 10:02
Diz o provérbio anglo-saxonico: beauty is in the eye of the beholder... e os preconceitos também!!!
Essa de Carlo Tetrocini ser "meio pedofilo" lembra aqueles congressistas algo repulsive que durante o famoso "caso Clinton" passavam a tarde a acusar o presidente de pedofilia por ter engatado de Monica e a noite a f*** e ser f*** por escort boys and girls de todas as cores...
Para evitar essas conotações , o realizador de Tetro acrescentou a cena da ménage à 3, também ela - imagino - pedofila e incestuosa a teus olhos...? Essa cena de uma sexualidade livre e franca apesar de eventualmente escandalosa mostra bem que o que o realizador aponta é a hipocrisia, o secretismo, a prepotência e não tal ou tal pratica sexual com tal ou tal pessoa de tal ou tal idade...

Por outro lado, se olhares para Espanha (o mais "precoce" dos paises da União Europeia), talvez repares que la a maioridade sexual atinge-se aos 13 anos!!!!


De mouseland a 8 de Janeiro de 2010 às 14:06
Zowie, :roll::roll::roll:

Não entendi nada.

Rafgouv, :roll::roll::roll:

Faço minhas as tuas palavras: "beauty is in the eye of the beholder… " e os moralsmos também. Queres afirmação mais moralista e preconceituosa do que a tua? Bastante enguiçada pelo que tenho dificuldade em comentar pressupostos tão "fora do texto". xxx mouse


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