Domingo, 31 de Janeiro de 2010
NUMA ESTRADA PARA LADO NENHUM…



Para fechar o cinzento mês de Janeiro nada como uma pequena ronda pelas estreias cinematográficas. A semana passada fui ver o tão esperado filme
The Road (
John Hillcoat, 2009) e a experiência valeu a pena embora seja imprescindível ler o livro de
Cormac McCarthy primeiro. O filme funciona quase como uma ilustração “viva” da narrativa do livro e o cenário apocalíptico completa, de forma expressiva, as sensações duras do enredo que nos atira para um dia-a-dia de sobrevivência no qual um pai tenta, por todos os meios, prolongar a vida do filho. Uma caminhada sem fim para chegar ao sul sem sequer saber o que por lá se pode encontrar. A tonalidade acastanhada e sépia da imagem cinematográfica, misturada com um grão cinzento constante, levam-nos a sentir uma angústia permanente. As cinzas sufocam o espectador e o desconforto é total. No cenário actual, que nos remete para a tragédia do Haiti, este drama ainda é mais complicado de engolir. Qualquer analepse, onde vemos a bela
Charlize Theron, no papel da mãe do rapaz, feliz num ambiente confortável e “normal”, pré catástrofe, com
Viggo Mortensen, pai do miúdo, nos deixa absolutamente desconfortáveis, com um nó na garganta. Aquela realidade é demasiado cruel e o espectador não pode deixar de sentir uma propensão para optar por seguir os sensatos passos da figura feminina. No final, acho que só se consegue suspirar de tristeza. O filme, tal como antes o livro, leva-nos ao inferno. Curiosa é a cena na cascata onde o rapaz não pode acompanhar a nudez do pai, talvez devido à moral vigente, o que ainda causa maior perplexidade pois são os calções (cuecas) cozidos, para não lhe caírem pelas pernas, que nos recordam que estamos no inferno. A descoberta do abrigo, o banho com shampoo e a primeira coca-cola são momentos emocionalmente difíceis. Uma semana depois de ter visto o filme ainda sinto que reviver a história do livro, através das imagens, deixa qualquer um num estado no qual temos que respirar fundo para suportar o incómodo de pensar naquela situação.


De migalha a 1 de Fevereiro de 2010 às 12:54
Penso que se pode ver primeiro o filme pois este apresenta-nos uma versão fiel, mas light, do livro do grande escritor norte-americano. É uma inquietante peça de teatro que não pode deixar ninguém indiferente. O horror é omnipresente e dá-nos um panorama do ser humano em “regressão” para uma fase de quase selvagem, JJ Rousseau que me perdoe! Mais uma grande actuação de Viggo Mortensen.
De
mouseland a 1 de Fevereiro de 2010 às 18:33
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Obrigado Migalha! É verdade que eu tenho a sensação, absolutamente subjectiva, claro, que depois de ver um filme terei dificuldade em ler o livro mas há pessoas bem diferentes e pode ser que seja possível. Acho o contrário mais fácil e até adoro ver filmes de livros que li. O que foi o caso e, felizmente, não fiquei nada desiludida. xxx mouse
De migalha a 6 de Fevereiro de 2010 às 12:05
Não pode ser regra pré-concebida que após se ver um filme seja difícil ler o livro no qual aquele se baseou, principalmente quando o/a cineasta deseja seguir o "espírito" da obra impressa. Lembro-me, por exemplo, que após ver o filme The Age of Innocence, Martin Scorsese, decidi ler o livro, de 1920, de Edith Wharton, essa referência da escrita norte americana do início do século passado, nem que seja pelo facto de ter sido a primeira mulher a ganhar um Pulitzer. E por isso só tenho a agradecer ao cineasta por me ter despertado para uma escritora que conhecia de nome mas que nunca tinha tido a curiosidade de ler. Em boa hora o fiz... Para apreciar melhor a subtileza da sua escrita, o seu fino sentido satírico dos usos e costumes da old New York City aconselho vivamente o The House of Mirth.
De
mouseland a 8 de Fevereiro de 2010 às 00:06
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Olá Migalha, eu disse que não é regra pré-concebida, hein? Então se os livros não tiverem nada a ver com os filmes e estes forem adaptações grosseiras como às vezes acontece o melhor é não perder o livro. Mas o caso que referes é outro bom exemplo de adaptação ao cinema. Obrigado. Fica a sugestão para uma leitura futura. xxx mouse
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