Domingo, 31 de Janeiro de 2010
UMA HISTÓRIA DE AMOR ROMÂNTICO FEITA DE LETRAS E BORDADOS
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O último filme de Jane Campion, Bright Star (2009), sobre três anos da vida do poeta John Keats, é algo desapontante embora se veja bastante bem. Fora o guarda-roupa que é soberbo, ou não fosse o próprio filme uma ode às rendas e aos bordados e ao papel que estes tinham na educação estética feminina da época, o desenrolar da história de amor entre Keats e Fanny Brawne (Abbie Cornish) é de um romantismo que roça a lamechice. Jane Campion sublinha, como sempre, a dificuldade da mulher afirmar o seu interesse estético, sempre depreciado e ridicularizado pelo universo masculino. Os bordados e a moda surgem como actividades fúteis e só o exercício de interpretação poética pode levar Fanny a conquistar e desafiar os senhores que a rodeiam, neste caso, Keats e Brown, que passam o dia à procura de inspiração. A forma como se acentua a importância de Fanny na obra de Keats é talvez o lado mais interessante deste filme pois sugere uma reflexão sobre a forma como os homens sempre minimizaram aspectos do universo feminino que não compreendem. O talento de Fanny desafia Brown e depois Keats.

Há, na obra de Campion, situações deliciosas, nomeadamente o passeio em que os dois amantes se divertem a fazer mímica para ocultar, à irmã mais nova de Fanny, os beijos e as carícias que trocam. Há momentos de uma doçura assinalável que a própria caracterização, que acentua, sem dúvida, a contemporaneidade dos cortes de cabelo, penteados e vestidos, realça. Os jantares familiares, as cenas de brincadeira no campo, um conjunto de encontros e desencontros fazem deste filme um documentário biográfico sobre os infortúnios de Keats: a necessidade de viver da caridade alheia, a falta de dinheiro para casar com a amada, a doença e morte do irmão e, finalmente, a sua própria doença e morte. Um enredo dramático que nos conta a história do poeta do século XIX, que morreu com apenas 25 anos de idade, de uma perspectiva intimista. A presença do benfeitor de Keats, Charles Armitage Brown, representado por Paul Schneider, é tão irritante que não dá para acreditar como é que é possível representar-se tão mal. Uma obra para ver em DVD.

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