Quinta-feira, 8 de Abril de 2010
“VISTO DO CÉU”_UM INQUIETANTE MOMENTO ENTRE O FANTÁSTICO E O REAL
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Visto do Céu (
Lovely Bones, Peter Jackson, 2009) é talvez dos filmes mais enigmáticos, complexos e estranhos que vi nos últimos tempos. O mestre da saga O Senhor dos Anéis (2001-03) e de King Kong (2005), para citar apenas algumas das mais reconhecidas obras do realizador, conseguiu criar e produzir uma tragédia edipiana que oscila entre o realismo e o fantástico com uma velocidade agreste. As nossas emoções ondulam em conjunto com o movimento inquietante do filme, entre o pêndulo maravilhoso e cómico (as cenas da avó, as danças no céu) e o mais decrépito nojo (as arestas dos óculos sob o olhar alucinado do criminoso, os cacos dos barcos do pai coleccionador). A reconstrução do crime é burilada com todos os pormenores através de espelhos, reflexos e enquadramentos em mosaico mas, tal como Édipo, aquela família tem que fazer o seu caminho até conseguir ver a “verdade”. Com o pai, mas também com a irmã mais nova, somos levados a fazer o percurso que é preciso efectuar para assim conseguir ver finalmente que o vizinho “da porta ao lado” é também o assassino da adolescente, filha e irmã. Uma adolescente que ao salvar a vida do irmão mais novo deveria ter recebido como prémio a vida eterna. Uma adolescente que aguardava ainda o primeiro beijo. O romance de Alice Sebold ganha, pela espessura contraditória das imagens em movimento pendular, uma dimensão psicanalítica e a reconstrução da história implica que, juntamente com as personagens no ecrã, nós, espectadores, também nos vamos progressivamente preparando para ver e ouvir o relato do infortúnio de Susie Salmon e de tantas outras miúdas e adolescentes.

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Visto do Céu funciona como um exercício sobre como evocar sentimentos contraditórios, como gerir o impasse até que seja possível perceber a realidade. As fotografias por revelar de Susie vão mediando as expectativas e ajudando o pai a suportar o sofrimento, numa preparação para chegar à revelação final, mês após mês, rolo a rolo. A morte de Susie é um puzzle interrompido por cenas que se repetem, um exercício de pensamento experimental que também fazemos na vida real, para encaixar a dureza e a incompreensão, o acidente e aquilo que não tem explicação. O filme funciona como uma repetição mental de projecções bizarras, de momentos sublimes e de personagens atípicas: o namorado que parece saído de um catálogo pimba, a rapariga gótica que presente e encarna os mortos, a asiática com estilo, as calças amarelas e o gorro de malha. Os actores parecem escolhidos a dedo: estranhos, arrepiantes, incómodos. Já via o filme outra vez para poder divagar outra vez e outra vez. Tão sublime quanto piroso, numa dialéctica que ultrapassa o discurso e que se sente intensamente. De Susie Salmon para Susie Salmon. Um inquietante momento entre o fantástico e o real.

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