Quinta-feira, 8 de Abril de 2010
“ALICE IN WONDERLAND”_ SOB O SIGNO DA FANTASIA E DA EXPERIÊNCIA “GEEK”
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Alice in Wonderland de Tim Burton (2010) não é, quanto a mim, um dos melhores filmes do realizador mas é um filme curioso. Alice in Wonderland não é, na minha humilde opinião, apenas Tim Burton vergado aos estúdios Disney, como se tem amplamente apregoado, pois transpira, por todos os poros da película, o imaginário estilístico de Tim Burton. Das sombras chinesas recortadas nos ambientes orgânicos animados de O Estranho Mundo de Jack (1993) e A Noiva Cadáver (2005), à parafernália colorida de A Fábrica de Chocolate (2005), ao gótico requintado de Sweeney Todd (2007) e Eduardo Mãos de Tesoura (1990). É certo que Alice in Wonderland não tira grande partido dos jogos de linguagem presentes no livro de Lewis Carrol mas oferece-nos antes um espectáculo virtuoso de ambientes e acções que nos tocam do ponto de vista visual e sensorial. O filme propõe um ambiente de veludo, por vezes viscoso, onde as personagens parecem escorregar de forma fluida (os maravilhosos Tweedledee / Tweedledee e o gato risonho) e onde o espectáculo toma conta da narrativa e se sobrepõe ao enredo. Parece que esta Alice in Wonderland se desenvencilha do “texto” que carrega há tanto tempo para viver novas aventuras num mundo negro de fantasias geek. Dos monstros dos jogos digitais, género World of Warcraft (Blizzard, 2004), directamente para o universo do senhor Burton, pássaros bizarros e animais tenebrosos difíceis de aniquilar (boss battles nos jogos). Aventuras onde a plasticidade cénica impera e se sobrepõe ao “texto”, onde a narrativa visual serve as sensações mais do que a reflexão.

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As personagens são engraçadas e bem delineadas, um misto entre a estética negra de Sweeney Todd e a realidade delico-doce de A Fábrica de Chocolate. A rainha de copas é cómica, disforme e por isso mesmo causa simpatia. A rainha branca é linda, asséptica e por isso mesmo causa alguma suspeição. O chapeleiro é muito mais contido do que o habitual. A apologia da loucura e da rebeldia, presente no texto de Carrol, dá lugar a uma frase/memória do pai falecido ou ao território do sonho. O dilema feminista entre o casamento e a profissão fazem da história um conto de fadas contemporâneo politicamente correcto. Perdem-se, pelo caminho, alguns jogos de linguagem subtis mas ganha-se em clareza e acessibilidade. Quantas crianças depois deste filme vão ter vontade de ler o livro e aí podem viver novas aventuras? A subversão literária dá lugar a um registo menos experimental, é certo, e mais acessível. Registo este, que transforma e subverte a fruição em entretenimento. É preciso algum puritanismo para não ver que a experiência que se quer estimular em Alice in Wonderland é uma experiência de prazer e não tanto de fruição. Mas que mal há nisso?
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16 comentários:
De mouseland a 17 de Abril de 2010 às 16:48
:twisted::twisted::twisted: Não falavas de muito mais, nas entrelinhas, com malícia até. xxx mouse


De rafgouv a 18 de Abril de 2010 às 11:45
:oops:
do que é que falava nas entrelinhas??? começo a ficar enevoado com esses subentendidos... :roll: :roll:


De rafgouv a 18 de Abril de 2010 às 12:17
OK, se calhar ja percebi o que queres dizer... Trata-se de um malentendido.
E certo que Barthes (e o estruturalismo) é uma das minhas referências em termos de análise. Não quer isto dizer que seja a única aceitável. Mesmo se habitualmente sou muito avesso a críticas "ideológicas", respeito-as (como posso respeitar a wikipedia e as tuas palavras)... e o facto desse tipo de críticas não me interessarem (como à partida, e possivelmente por preconceito ou ignorância, os Eskelinen & Tronstad também não me interessam) não significa que as não respeito.

Não posso aceitar é a falta de rigor, e/ou a incoerência das citações e conceitos (que, se percebi a última citação, assimilaste em 2003 graças aos Eskelinen & Tronstad mas olvidaste em 2010 por culpa do Burton e sob influência de Ted Talks, é isso???) do Barthes porque é um tema que conheço quase tão bem como a palma da minha mão...

Quanto àquilo que citavas há pouco (e que nada tem que ver com o que escreveste a propósito da Alice), se exceptuar a formulação algo patusca ("Barthes orientou o seu estudo para o âmbito do prazer" : wow, esse lado "peripatético" do Barthes inspira-me, no doubt :lol: ) parece-me perfeitamente aceitável!


De mouseland a 18 de Abril de 2010 às 17:59
:roll::roll::roll: só dois pontos rectificados que eu não partilho o gosto pelas discussões tipo “salada de frutas”. Não percebo essa da wikipedia... e nem sei o que diz a wikipedia sobre este assunto porque já nem sei bem que assunto é este... o tipo de fontes que eu consulto menos do que tu pelos vistos... e depois outra coisa que deixo também clara se há pessoa com falta de capacidade para ter atitudes paternalistas essa pessoa sou eu, nem maternalistas quanto mais paternalistas, eu que nem quero ter filhos... estou longíssimo de tratar as crianças com paternalismos. Talvez estes dois pontos sejam suficientemente elucidativos da confusão deste “batido de frutas” linguístico. xxx mouse


De rafgouv a 22 de Abril de 2010 às 08:49
:mrgreen::mrgreen::mrgreen:
desculpa mas não me recordo, refereste às "saladas" e "batidos" de frutas do Rimski-Formanov (2006), de Prosto Feliz (1985) ou de Maria de Lourdes Modesto (1967)?


De mouseland a 22 de Abril de 2010 às 20:02
:cool::cool::cool: Lourdes Modesto (1967). :razz: xxx mouse em Guimarães


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