Sexta-feira, 28 de Maio de 2010
“EL SEGRETO DE SUS OJOS” _ UM DRAMA QUE POR VEZES SE TORNA CÓMICO



Fui ver o filme argentino
El segreto de sus ojos (
O segredo dos teus olhos, Juan José Campanella, 2009) que ganhou o Óscar para o melhor filme estrangeiro. Se
El hijo de la novia (
O filho da noiva, Juan José Campanella, 2001) me encantou este “texto” não é menos interessante mas, no final, parece perder alguma consistência. Os diálogos, típicos de uma certa função pública, recordam a série
Yes Minister (
Sim, Sr. Ministro, 1980), a qual tive o prazer de rever recentemente, são tão hilariantes que revelam um aguçado sentido crítico num trabalho de actores de assinalar. O amigo bêbado, com os óculos de massa e a gravata aprumada, é das personagens mais engraçadas que vi nos últimos tempos, mas é nos meandros da relação amorosa, nunca assumida, entre a “chefe” e o subalterno, Irene Hastings e Benjamin Esposito, que encontramos das mais bem construídas cenas do filme. O momento em que Irene, com a cumplicidade de Benjamin, arranca a confissão ao criminoso. Com uma violência psicológica digna de
Dexter a doutora consegue arrancar ao empregado da construção civil a reacção animal que tão ardilosamente soube extrair.
A brutalidade do crime que vincou, nos anos setenta, para sempre a vida de algumas pessoas é motivo para uma viagem aos meandros da justiça argentina. Uma viagem recheada de amor, amizade e muita desorientação. O final está lá a mais e prende para sempre o passado num momento de sublimação do qual as personagens nunca se soltam. Com o racionalismo da última personagem de
Ian McEwan no livro
Solar, Michael Beard, o físico galardoado com um Nobel, finalizo estas notas com a ideia que talvez o final deste filme esteja demasiado formatado pelo desejo e pela paixão e que se isentou de todo e qualquer racionalismo. Aquele final, com tom de reescrita de um romance, o livro que Benjamin Esposito quer escrever para celebrar o passado e a memória, parece furtar-se à realidade dos factos sublimando a paixão romântica e esquecendo aquilo que Irene afirmou logo no início, a vontade que tinha de viver o presente e a sua impossibilidade de mergulhar e resgatar o passado. Aquele momento final, um género de
loop emocional, que me recordou as personagens dentro do jogo feito realidade de
eXistenZ de
David Cronenberg (1999) parece então contrariar todo o impulso para o presente tão sensatamente sugerido por Irene. Talvez apenas no acto de deixar finalmente as flores no caixão do amigo de Benjamin se tenha concretizado o impulso para a frente. De resto, os encalhados continuaram encalhados e o passado continuou a formatar o presente com impulsos mórbidos. Com o racionalismo da personagem de Ian McEwan apetece-me dizer que é muita psicologia lamecha (no final) para tanta brutalidade (no decorrer da história). A não perder!
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Concordo mas também achei que aquela primeira versão de um possível final em que Benjamin parece "voltar" de casa do viúvo com a ideia de que este ultrapassou os 25 anos passados depois do crime com uma rotina pacata e ele, Benjamin, continua a matutar no passado, sendo ele o encalhado, uma forma de resolver a questão seguinte, ou seja, a impossibilidade de resgatar uma paixão nunca consumada com ela. Esta reviravolta na situação de Benjamin e Irene é que me parece algo estranha. No meu entendimento aquilo que tinha ficado subentendido num certo discurso, talvez nas entrelinhas é certo, que a instituição pública e o trabalho de ambos tinha devorado qualquer possibilidade de relação entre Benjamin e Irene esvai-se totalmente. Penso que esse final seria bem mais desconfortável. A diferença de classes, a hierarquia e a idade seriam barreiras que ambos tinham evitado transpor em novos e agora, depois de vinte cinco anos passados, ele reformado e ela com filhos, surgem dispostos a finalmente atear a chama que os tinha consumido tantos anos antes. Não deixa de ser interessante mas dá uma reviravolta na leitura final que, quanto a mim, lhe retira alguma densidade. xxx mouse
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