Segunda-feira, 28 de Junho de 2010
“MARADONA BY KUSTURICA” _ A TERNURA E ALTIVEZ DO ARGENTINO PELO AMIGO DE SARAJEVO
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Já andava para escrever sobre o documentário de Emir Kusturica, Maradona by Kusturica (2008), que conta a história da complexa vida do jogador argentino Diego Maradona, há algum tempo, mas hoje decididamente estou inspirada pelo jogo de ontem, Argentina/México. A Argentina é a minha equipa favorita deste mundial, a seguir a Portugal, claro, e ontem torci compulsivamente pela vitória da gestão de Diego Maradona à frente deste team. Infelizmente não foi um jogo bonito e, em certo sentido, até foi desapontante. No entanto, o fascínio que Diego Maradona exerce sobre mim é tudo menos evidente. A personagem de Maradona tem tudo para me irritar mas, desde 2002, quando o Festival Sónar, Festival Internacional de Música Avanzada e Arte Multimedia de Barcelona, usou a imagem do futebolista para o seu grafismo, que comecei a respeitar e a apreciar o estilo deste argentino irreverente. A endeusá-lo, como faz aliás Kusturica no seu documentário. A vida tem destas coisas bizarras.

Maradona é encantador, tão altivo quando ternurento, por vezes chunga, e ontem saltou as grades do local onde estava a dar uma conferência de imprensa para cumprimentar um ex-colega jogador, agora jornalista desportivo. Kusturica filma Maradona com o ímpeto de misturar culturas, artes e até tradições religiosas. Assim, estamos perante uma mesclagem de cultura popular e erudita, futebol e cinema, música (dos Manu Chao aos Sex Pistols) e religião. Note-se a referência constante à enigmática igreja maradoniana que ninguém sabe muito bem o que é e que mais parece uma ficção lúdica de Diego Maradona. Entre confissões sobre a família, problemas com a droga, gestos irreflectidos (a bola na mão no golo contra a Inglaterra) e actos políticos (contra o imperialismo anglo-saxónico, por exemplo) o filme mistura estilos visuais (animação e recortes reais de cenas de arquivo).

Ora, na altura que o documentário de Kusturica estreou nos cinemas, para pena minha, não o consegui ir ver mas um destes dias tive oportunidade de o apreciar na televisão. Um relato, muito ao estilo anos oitenta, cheio de ternura, sobre a conturbada vida de Maradona. Uma viagem aos pensamentos e inquietações do argentino, às suas fraquezas e idiossincrasias, filmado por um amigo, Kusturica. A homenagem de Kusturica tem duplo sentido: o "deus" do futebol é acompanhado pelo "deus" do cinema independente e a admiração que o realizador nutre por Maradora desde pequeno transforma-se numa viagem à sua própria intimidade. As sinergias artísticas são evidentes e, neste sentido, o filme faz com Maradona o mesmo que Douglas Gordon e Philippe Parreno fazem em Zidane, um retrato do século XXI (2006) já aqui referenciado. No entanto, do ponto de vista técnico a estratégia de ambos os artefactos cinematográficos é muito diferente. Se no filme sobre Zidane tudo é coreografado e encenado pela montagem, no filme de Kusturica sobre Maradona tudo tem a aparência de confissão, excertos de tempo real e emoções frescas. No final, uma coisa é certa, estamos algumas horas entre deuses, a namorar estrelas, pela mão de artistas plásticos e cineastas numa sinergia (mescla) cultural evidente.

Maradona é uma personagem muito curiosa, espalha beijos por todo o lado (um beijo a cada jogador da selecção antes destes entrarem em campo) e raramente se deixa vergar à sua situação, seja ela a pobreza, a droga ou o oportunismo. Só um ser humano que aprecia de forma exacerbada a vida pode ser assim tão delicado e simultaneamente tão arrogante. No documentário de Kusturica, Maradona é um actor na sua própria história e oferece-nos uma encenação que muito pouco tem de genuíno e que por isso mesmo manipula de forma admirável o espectador. No filme de Kusturica não há nada de real tudo é encenado e, no entanto, tudo parece tão natural. Maradona tem força suficiente para levar a Argentina à final deste mundial? A ver vamos…

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