Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
ISLÂNDIA INDEPENDENTE, TANTA TERRA PARA TÃO POUCA GENTE













No dia 16 de Abril parti com o P. para a Islândia via Heathrow, Londres, viajamos com a Tap e depois com a Icelandair. O dia em Lisboa estava quente, umas das mais elevadas temperaturas do ano, saímos de casa cedo com os casacos de inverno na mão. A Islândia é um país que há muito queríamos conhecer e esta parecia a oportunidade ideal uma vez que Portugal acabava de pedir o resgate ao FMI, ao Banco Central Europeu e à Comunidade Europeia. A crise da Islândia intrigava-nos desde 2008. Os islandeses recusaram-se a pagar as dívidas que os seus bancos privados contraíram junto aos contribuintes holandeses e ingleses depois de um referendo promovido pelo Presidente da República.

Quando chegámos a Reykjavik estava um frio imenso e começou a nevar. Depois de instalados no Hotel Björk fomos dar uma volta pela cidade. O frio rapidamente se revelou insuportável. As minhas roupas de inverno estavam muito aquém do necessário, enrolava o cachecol à volta da cabeça e mesmo assim de meia em meia hora tínhamos que entrar em qualquer sítio quente. A meio da tarde fomos comer uma sopa ao já célebre Café Locki (aqui). Um caldo típico e delicioso de vegetais e carne. Nessa noite fomos seduzidos pela notícia de um jornal local, escrito em inglês, que dizia maravilhas da nova ementa do Banthai e acabámos por descobrir este surpreendente restaurante tailandês (aqui). A entrada era bastante suspeita, algo desleixada, mas a comida e o ambiente interior uma maravilha. Provámos a nossa primeira cerveja islandesa, uma Viking, ainda sem saber que a cerveja esteve proibida no país, entre 1915 e 1989, o que despoletou um dia comemorativo a esta bebida, o dia 1 de Março.













Reykjavik é uma cidade bastante pequena, alberga quase dois terços da população islandesa que é constituída por cerca de 320 000 habitantes. O território islandês é maior que o português. Tanta terra para tão pouca gente. No dia seguinte explorámos a cidade de lés a lés, não é difícil mas o frio não ajudava. Na aliciante loja de design islandesa 66º North (aqui) comprei uma camisola de peluche com capuz branca, aconselhável para a neve, como devolviam os impostos, por vezes, logo no acto de aquisição, acabei a comprar também um casaco em saldos. Marketing que funciona. Os islandeses andam todos com camisolas locais, típicas, com umas decorações tribais. Os casacos das inúmeras lojas 66º North vêem-se por todo o lado e são tão giros que não dá para resistir. A loja de crianças é deliciosa e, por sorte, embora os islandeses não sejam particularmente altos eu visto tamanho de criança logo os preços baixam substancialmente nos mesmos modelos de adultos, ab fab! À noite fomos a um simpático restaurante do centro e provámos o bacalhau fresco e a truta salmonada, duas especialidades da gastronomia local, que não é nada variada.

Dois dias depois fomos buscar o carro alugado e começámos a nossa jornada pela Islândia sem nada marcado. O guia aconselha o turista a fazer-se acompanhar de um estojo completo de primeiros socorros e vários mantimentos alimentares. No início estas instruções parecem demasiado cautelosas mas depois de alguns quilómetros na estrada percebe-se perfeitamente a razão de ser de tal advertência. A possibilidade de um nevão, de uma avaria, numa terra tão selvagem e preservada, é uma eventualidade. Andam-se distâncias infindáveis sem nada à nossa frente a não ser a estrada, a Ring Road, que contorna quase a ilha toda. Não existem praticamente nenhuns cafés, mercearias, supermercados... nada para abastecer a não ser mesmo bombas de gasolina e, por vezes, o único restaurante é mesmo o da bomba de gasolina. Em poucos dias fizemos aproximadamente mil e setecentos quilómetros e, se tivéssemos em época alta, muitas áreas que estavam, nesta altura, fechadas, estariam abertas e muito mais haveria a explorar.














O Golden Circle é uma experiência única, as cascatas de gullfoss, os geysir e o local mágico que é pingvellir, aqui descrito pelo blogue O Factor Humano de forma irrepreensível: “(…) embora não se vejam claramente os fragmentos de dezenas de antigos abrigos temporários dos clãs, construídos com pedra e turfa, estes locais estão relativamente bem documentados ao longo de vários painéis informativos. O famoso livro do século XII, Book of Icelenders, Islendlingabók na língua nativa, que descreve os primeiros passos da história da Islândia, dedica uma parte da sua escrita à intensa procura por um espaço conveniente para albergar uma assembleia comunitária, que teria de se localizar numa zona facilmente acessível para todos. E de facto encontraram um lugar muito especial para o efeito.” E o autor continua: “Aconselho vivamente, para quem tenha tempo, a passar lá um dia inteiro a deambular pela planície ao longo do rio Öxará. Na direcção do edifício de madeira da igreja, de 1859, pode ver-se a profunda fissura Flosagjá e, no seu extremo, a piscina de águas límpidas Peningagjá. Com ainda mais tempo o visitante pode optar, no verão, por pescar no lago Pingvallatan, mergulhar nas águas geladas do rifte Silfra, onde certamente se deslumbrará com a enorme visibilidade e com as impressionantes paredes verticais das duas placas tectónicas, ou optar por outras actividades ao ar livre.” (O Factor Humano, 2011).













Chegámos a Vik por volta das seis da tarde e, por pouco, não ficámos sem jantar. Sem qualquer problema para arranjar quarto no Country Hotel Hofdabrekka as nossas opções de jantar resumiam-se ao hotel ou à bomba de gasolina, ou oito ou oitenta... Optámos por ir até à bomba na esperança de uma saborosa sopa de carne à moda islandesa, desiludidos com a ementa do hotel, mas acabámos a comer um
hambúrguer e a beber uma cerveja Gull. Caímos na cama estoirados pois tínhamos andado bastante durante o dia, a pé e de carro.
 




















A paisagem da Islândia nesta altura já se tinha revelado de uma magia que não dá para descrever em palavras, o apelo da terra é imenso, tudo muda a toda a hora, a turfa, a cor do céu, a neve, o laranja das pedras e da lama… a Ring Road modifica-nos. Algures num centro informativo li a lenda do duende que alimentava o pássaro para que este lhe cantasse enquanto trabalhava. Em troca da música o pássaro recebia comida. Uma moral tão diferente da história da cigarra e da formiga… Os islandeses têm bastante orgulho na música, tradicional, erudita, pop, electrónica, entre tantas formas. Num vídeo que se pode ver durante o voo para
Reykjavik conta-se a história da proliferação da música electrónica nos anos noventa na capital islandesa. Dois ou três “empresários” criaram uma ligação intensa entre Londres e a cidade nórdica e assim fizeram dela um pólo bastante apetecível para músicos que aí se vêem compensados pela sua criatividade através da disponibilização de boas condições para ensaiar, tocar, etc. A Islândia não é só a Björk, os Sigur Rós ou os GusGus mas estes artistas ajudaram, certamente, a colocar a música islandesa no circuito internacional.

 












Seguimos caminho, sempre pela Ring Road, até Breiðdalsvík, ficámos instalados no pacato Hotel Blafell onde comemos umas deliciosas costeletas de borrego, a única escolha da lista que não incluía
hambúrgueres. A senhora que nos recebeu na recepção do hotel, com uns sessenta e muitos anos, era a mesma que cozinhava, servia as mesas e o bar. Na altura, estavam lá poucos hóspedes, mais um casal de turistas para além de nós, o resto eram adolescentes das redondezas que ali vinham buscar ou comer hambúrgueres e ver televisão. Um indivíduo dos seus vinte e poucos anos insistia em arrotar alto para toda a sala, o ambiente geral era campestre. Perto dali não havia mais nenhum sítio para passar o tempo, almoçar ou jantar. Como em todos os povoados da ilha Breiðdalsvík tinha um imponente Post-in (correios).












Continuámos até Akureyri, a segunda maior cidade da Islândia. Um lugar pitoresco mas sem grande interesse ou particularidade. Ficámos hospedados no Hotel Kea, jantámos entre franceses e espanhóis que ali estavam possivelmente pela oferta de desportos de inverno. À noite demos uma volta pela igreja, museu de arte e centro cultural. No dia seguinte decidimos continuar viagem, era sexta-feira santa e nem nos apercebemos que possivelmente seria complicado encontrar lugar para dormir no campo ou mesmo nas cidades mais pequenas. A nossa deambulação pelo norte acabou com uma passagem pela Lagoa Azul e com a decisão de voltar para
Reykjavik antes do previsto. Desta vez tínhamos um apartamento à nossa espera, um sítio simpático, com vista sobre os telhados da cidade, felizmente não houve problema por termos chegado antes do previsto, numa sexta-feira santa...












A Lagoa Azul revelou-se um verdadeiro centro turístico, artificial, e sem grande encanto. Um monte de turistas, mesmo a chover, chegam ali de carro e/ou camioneta, compram entradas para uma piscina de água sulfurosa e banham-se em manada numa experiência que, no entanto, não quisemos deixar de experimentar. Existem diferentes tarifas para o bilhete o que pode ou não incluir toalha, roupão, duas bebidas no bar da piscina… O centro é um health club enorme com gente a mais, temos direito a pulseira no braço como nos festivais e tudo! Aguenta-se lá dentro uma hora e se, por acaso, se tem o azar de entrar pelas traseiras do aparatoso sistema de banhos os tubos da engrenagem são uma imagem que fica muito longe do paraíso. O dia estava cinzento o que também não ajudou mas sinceramente e, segundo nos disseram mais tarde, há outros sítios desta natureza mais intimistas e agradáveis.
 
Em Reykjavik passámos mais uns quatro dias óptimos. Visitámos o fabuloso The National Museum of Iceland, um dos museus mais bem estruturados do ponto de vista da comunicação que visitei. Cada sala tem uma animação multimédia em touch screen, muito bem feita, que conta a história da Islândia a partir de vários temas como, por exemplo, Origin of the Icelanders, Book of the Settlements, The Commonwealth, Heathen Graves, Transition from Paganism to Christianity, From Turf to Stone, entre outros. Depois, numa sala com vários computadores podem consultar-se estas pequenas narrativas de forma linear e perceber imensa coisa sobre o país. Os Islandeses são descendentes de vikings noruegueses que passavam em Inglaterra para ir buscar mulheres e rumavam então para a ilha para aí se instalarem. Há, ainda hoje, imensos contadores de histórias por aquelas terras. Sendo um dos povos menos misturados do mundo está a decorrer há já vários anos, neste museu, um estudo sobre o ADN dos islandeses. Aqui, se percebe também como a Islândia era, até ao início do século XX, um país muito pobre, uma terra de nómadas. Vale mesmo a pena conhecer este museu (saber mais aqui). A pobreza pode ainda perceber-se pela humildade das casas revestidas a chapa mas acima de tudo e, à semelhança de outros países da crise, i. e., Irlanda e Portugal os carros de luxo proliferam.

 








Visitámos o Reykjavik Art Museum, o que se revelou um estranho acontecimento. O edifício do museu é interessante mas no andar de baixo estava uma exposição indescritível, mais ainda porque muito pouca coisa estava em inglês e não se percebia nada em matéria de intenções. Se numa das salas a exposição era verdadeiramente pop, uma mistura de design de objectos, música, arquitectura, obras de simulação de empresas biológicas e afins. Numa outra, oscilava-se entre o freak, camionetas de portas escancaradas com mobília dentro, um conjunto composto por uma baliza e relva artificial, uma sala de chat/performance com uma artista em videoconferência e, finalmente, um conjunto alargado de roupa pendurada que parecia compor o reportório de uma peça de teatro. Num andar superior, ainda uma fiada de obras desta natureza experimental, encontrámos um ou dois altares de estilo Kitsch, fotografias bastante corriqueiras e esculturas que confesso já não me recordo muito bem de que eram compostas. Só mais tarde percebi que se tratava da exposição de finalistas da Iceland Academy of the Arts, uma mostra de estudantes do departamento de Artes Plásticas, Design e Arquitectura. De resto, quando cheguei ao segundo andar fiquei deliciada com a exposição de Erró, nascido em Reykjavik, um artista que eu sempre adorei, desde os meus tempos de Paris, no final dos anos oitenta, início dos noventa. Já na altura paguei uma fortuna por um livro da sua obra que ainda hoje guardo. Foi um privilégio poder ver um conjunto de 130 colagens doadas pelo artista em 1989 a este museu. Em 1989 estava a viver em Paris, o muro de Berlim caiu, e eu, aprendia a adorar a ironia de Erró. De repente, viajei completamente no tempo. Foi mágico. Erró fazia parte daquele puzzle. Poucos autores visuais me entusiasmam tanto pela sua erudição, pela sua ironia, pela representação gráfica que denota uma requintada capacidade de composição. Mágico. Depois da tralha um toque de magia.
 
Numa das noites em Reykjavik fomos ter com um casal de amigos ao Café Babalú, um português e uma francesa que, como estavam em casa de um islandês, que por sua vez namorava com outra francesa, ouviram histórias curiosas. Contaram-nos que lhes tinham dito que quando passassem em cima de pontes de carro deviam apitar para deixar que os duendes tivessem tempo de largar as mãos se eventualmente lá estivessem pendurados. Contaram-nos que tinham andado na rota dos estudantes de Erasmus pois os islandeses estavam-se nas tintas para quem não fala a língua deles. Contaram-nos que tinham ido a um concerto no campo onde toda a gente tinha aparecido com as camisolas rústicas da Islândia. Contaram-nos que só havia um chinês e um negro na ilha e que ambos andavam sempre juntos. Não são histórias só possíveis num país onde a terra é muita para tão pouca gente? Uma coisa é certa os islandeses são mesmo um país independente (aqui).



.mais sobre mim
.pesquisar
 
.Março 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

31


.posts recentes

. EM SÃO PAULO, ENTRE OS RU...

. "THE LAST OF US", AMOR, L...

. QUE SORTE PODER VOLTAR A ...

. MEXICO DF UMA CIDADE ONDE...

. A MINHA SAGA COM O CANDY ...

. QUATRO FILMES A NÃO PERDE...

. PABLO ESCOBAR, O PATRÃO D...

. A MINHA FRUSTRAÇÃO COM O ...

. "THE WALKING DEAD" (GAME)...

. NUMA JANGADA DE POVOS IBÉ...

.arquivos

. Março 2014

. Dezembro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Maio 2012

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

.tags

. apostas

. arte e design

. artes e design

. cibercultura

. ciberfeminismo

. cibermemórias

. cinema

. colaborações

. divulgação

. enigmas

. entrevista

. exposições

. festas

. game art

. game art exposições

. gamers

. iconografias

. indústria de jogos

. interfaces

. jogos e violência

. livros sobre jogos

. mouse conf.

. mouse no obvious

. mouseland

. myspace

. pop_playlist_game

. portfólios

. script

. segredos

. séries tv

. teatro

. textos

. viagens

. viagens cinema

. todas as tags

.links
.participar

. participe neste blog

.MOUSELAND _ PATRÍCIA GOUVEIA
ARTES E JOGOS _ DIGITAIS E ANALÓGICOS
blogs SAPO
.subscrever feeds