Terça-feira, 11 de Outubro de 2011
E-LITERATURE E NEW MEDIA ART _ LJUBLJANA






Cheguei a Ljubjana a meio da tarde. No aeroporto de Paris apanhei um avião regional no terminal G e o ambiente do aeroporto, à chegada a Ljubjana, recordou-me algumas “imagens” escritas no livro The Corrections de Jonathan Frazen, que li recentemente, nomeadamente a tentativa de uma das personagens de sair da Lituânia. O seu bloqueio no aeroporto. O edifício aqui era tão pequenino que sair dali em caso de urgência não devia ser fácil. Estava apenas a fazer uma ficção enquanto esperava pela partida do shuttle e via os insectos no ar.


Estive na capital da Eslovénia nos anos noventa do século passado e dessa vez fui de carro. Agora, no aeroporto, e depois de apanhar o mini bus para o City Hotel deliciei-me a actualizar a memória pelas ruas da cidade. Como da primeira vez, com muito sol e calor, Ljubjana pareceu-me encantadora. Nessa altura dormi numa residência de estudantes agora, passados tantos anos, estava bem instalada num hotel. Andei pelas redondezas, comi qualquer coisa e preparei-me para o dia seguinte no qual ia fazer a minha comunicação, Why digital games and networks can help us to change reality and generate concrete changes in social environments?” às 16h. Durante a minha caminhada pela cidade quase esborrachei um rato que se atravessou à frente dos meus pés. Por coincidência, tinha-me esquecido do meu “rato” em casa e tentei comprar um no aeroporto mas não tive tempo suficiente entre aviões. O minúsculo animal escapuliu-se pelos esgotos e eu senti que era um bom presságio para o dia seguinte.

De manhã, depois do pequeno-almoço, revi Janez Strehovec, que conheci o ano passado numa conferência em que ambos participámos em Maribor, também na Eslóvenia. Janez é filósofo e professor associado na Universidade de Ljubjana. Neste encontro, era o investigador principal do projecto e anfitrião do seminário de E-Literature e New Media Art. Antes de ir para a Eslovénia descobri, nos meus arquivos, um texto do autor, de 1997, para a revista digital C-theory. Mais uma coincidência interessante. Percebi que tinha vindo no mesmo avião e mini bus que Philippe Bootz de França e aos poucos fui compreendendo quem era quem no meio de um ambiente que parecia bastante familiar para a maioria dos outros participantes.









A manhã começou com uma apresentação geral de Janez Strehovec e Scott Rettberg da Universidade de Bergen na Noruega. Depois seguiram-se as comunicações de Alexandra Saemmer de França, Roberto Simanowski dos Estados Unidos e Saskia Korsten da Holanda. Da semiótica aplicada à literatura digital a alguns exemplos de “remediação” invertida. A seguir ao café, uma apresentação interessante de Giovanna di Rosario, uma italiana a viver na Finlândia, que mostrou alguns exemplos práticos a pontuar os conceitos, nomeadamente um trabalho do português Rui Torres e outro artefacto jogável. Dubraka Duric, da Sérvia, fez uma exposição de alguns trabalhos gráficos de artistas sérvios e fomos almoçar.

O almoço, servido no hotel, foi um sofrimento para mim que antes de qualquer comunicação, seja numa aula ou numa conferência, tenho que gerir muito bem o que devo ou não comer… uma verdadeira degustação de saladas e carne suculenta que teve que ficar no prato.

A contribuição seguinte foi da artista espanhola Maria Mencia, a viver há muitos anos em Londres, e que apresentou o seu trabalho e fez algumas considerações sobre o tema da literatura electrónica. Seguiu-se a sempre estimulante perspectiva de Janez Strehovec, uma análise aliciante que muito se inspira em algumas ideias dos game studies e/ou da e-literature associada aos estudos sobre narrativa, ficção interactiva e gaming. Uma forma discursiva mais original e transdisciplinar, o que me agrada bastante, e que é desconcertante e sempre bem preparada. A apresentação seguinte, do suíço Beat Suter, abordou questões associadas à vigilância e aos locative media e veio reforçar o meu bem-estar pois não só foi das mais interessantes como serviu de prólogo, em matéria de estratégia gráfica mas também na temática, à minha intervenção.

Depois dos meus vinte minutos de fama fizeram-me algumas perguntas, respondi o que consegui pois, por vezes, as perguntas encerravam já em si as respostas e eram todas dirigidas à minha inspiração no trabalho de Jane McGonigal e não no meu próprio projecto pessoal, ou seja, eram algo direccionadas para outra pessoa. Ora, tive que optar por uma certa brusquidão, em alguns casos, o que levou Markkus Eskelinen, da Finlândia, a pedir-me posteriormente desculpa pois de facto estava a ler o livro de Jane McGonigal e as dúvidas que tinha apresentado eram em relação ao optimismo dela e não à minha apresentação. Eu respondi-lhe com o conceito de acidente em Paul Virilio e confesso que me deu gozo responder a um nórdico com um autor tão controverso. Foi estranho mas quando sai cá para fora, para o Coffee Break, recebi imensos cumprimentos, uma honra. Um australiano e um americano elogiaram-me a temática e o interesse da apresentação, a Giovanna di Rosario disse-me que tinha sido muito profissional e pediu-me algumas ligações, o poeta inglês, John Cayley, a viver nos Estados Unidos, disse-me que tinha gostado. No dia seguinte mais algumas pessoas da Eslovénia, e não só, disseram-me que também tinham apreciado. Confesso que a coisa me deixou satisfeita principalmente porque muito se resume ao trabalho que tenho em preparar aqueles minutos um a um e não ir para um evento destes ler o que escrevi.









Como me pediram em tempos, quando fui a Vancouver em 2008, faço sempre uma comunicação que funciona como complementar ao artigo que redigi e não me resumo a ler o trabalho em público. Muitos dos participantes deste evento resumiram a sua apresentação a uma leitura acelerada do que escreveram previamente e isso é tão frustrante para quem está a ver e a ouvir. Nem umas imagens com excertos do texto ou uma âncora visual para os autores citados. Isto ainda é mais grave quando os autores nem têm um inglês muito compreensível. A ideia deveria ser criar interesse pelo trabalho escrito. Enfim, a última sessão da tarde consistiu em três apresentações provenientes da Eslovénia, Aleš Vaupotič, Narvika Bovcon e Teo Spiller, autores provenientes das artes visuais e do design. Nas suas apresentações reflectiram sobre trabalhos artísticos fazendo pequenas montras de obras de artistas eslovenos e enquadrando, do ponto de vista teórico, essas mesmas obras.


Nessa noite fomos jantar ao restaurante Šestica. Um banquete composto por entrada, sopa do tipo guisado, a qual infelizmente repeti duas vezes a pensar que era o prato principal, prato principal “gigantesco” de carne, acompanhado por vegetais, puré e salada e, finalmente, uma sobremesa. Mais uma vez tive que pedir desculpa pelo meu apetite comedido. Quando saímos as ruas estavam em festa, muita gente dedicava-se às danças de salão num aglomerado informal. A temperatura estava óptima.


O dia seguinte teve início com a comunicação de John Calley, algo enrolada e, como o próprio à noite confessou, pouco preparada. Foi interessante mas deixou-me demasiadas dúvidas sobre aquilo que se queria realmente defender, argumentar. Um misto entre linguagem, materialidade do medium, tipografia, design transparente e Marshall McLuhan. Nada de novo, de facto. Revisões de textos e jogos de palavras. Philippe Bootz de França girou à volta de autores conhecidos e mais uma vez tive a sensação que um monólogo estava em curso, ou um texto repetido, lido vezes sem conta a partir de tantos autores possíveis. Markku Eskelinen era dos intervenientes mais esperados por mim, cito-o com frequência nos meus textos, tenho seguido o seu trabalho e confesso que fiquei estupefacta com a impenetrabilidade da comunicação. Leitura em voz baixa do texto, os olhos pegados à folha de papel, a mostrar uma timidez evidente mas, até eu que estou bastante familiarizada com os temas, game studies e afins, não consegui seguir aquele formato, nem sequer o conseguia ouvir bem. Depois do café, uma sessão de dois autores eslovenos. Uma das intervenções mais interessantes do encontro, proveniente de Maja Murnik, com um powerpoint onde dava para ir seguindo o texto e os autores, sobre as extensões do corpo na Arte New Media. Por fim, Bojan Anđelković apresentou um vídeo e teceu algumas considerações à volta de (Techno)dispositifes in Contemporary Art Practice: Fifty-year Theater Performance Noordung 1995-2045:: by Dragan Živadinov. Ambos os autores eslovenos estão, neste momento, a preparar as suas teses de doutoramento.







Depois do almoço, fomos dar um passeio até ao Castelo, uma vista maravilhosa sobre a cidade que conheci há anos e que agora tem muito mais turistas. Na altura, o Castelo estava deserto agora estava repleto de gente a tirar fotografias, a apanhar sol, a namorar, ou outra coisa qualquer. No caminho conheci Simon Biggs, australiano a viver em Edimburgo, e com quem passei algum tempo. Trocámos experiências artísticas, académicas e falámos bastante. As performances da tarde contaram com a colaboração de conhecidos intervenientes, John Cayley, Scott Rettberg, Philippe Bootz, Alexandra Saemmer, Simon Biggs, Talan Memmott e Jaka Železnikar. A sala do seminário encheu-se de garrafas de vinho e o ambiente era muito descontraído. Foi bastante divertido e algo retro. Jantámos no hotel e , de seguida, fomos até um bar perto no centro. Era o último dia do encontro.









No dia seguinte fui visitar, com o Simon Biggs, dois dos quatro pólos da 29th Biennal of Graphic Arts de Ljubljana, criada em meados dos anos cinquenta do século XX. A bienal propõe uma reflexão sobre “o evento” artístico e subdivide-se em quatro temas, i. e., generosidade, violência, ritual e vazio. A temática deste ano pretende fazer uma reflexão sobre "o evento artístico" como um meio de expressão e inquirir o papel de inúmeras acções, performances, gestos, happenings, projectos interactivos, entre outros, no ambiente de museus e galerias. A questão que se coloca interpela o visitante no sentido deste se questionar porque é que vemos tantos eventos nas práticas das artes contemporâneas que, por tradição, se relacionam com a preservação e apresentação de obras estáticas? Como é que em particular “o evento” se transforma num veículo aceitável para tão grande variedade de conteúdos que apontam para preocupações artísticas e estéticas? Beti Žerovc, comissária da bienal, questiona a significação de tanta produção num contexto onde, em décadas recentes, as instituições artísticas não só alojaram e exibiram arte contemporânea como também encomendaram e produziram eventos performativos de vários géneros, transformando-se, assim, em comissários de arte contemporânea com um tipo de objectivos que antes apenas a igreja e os aristocratas se podiam dar ao luxo de promover. Como sugere a obra de Gregor Kregar no “evento” artístico nada é de graça e o gesto ou acção do artista sempre traz alguma coisa para este e, portanto, não existe sem motivo. Mesmo quando Manuel Hartmann oferece cabazes de compras a pessoas desconhecidas faz isto para poder filmar um vídeo que é posteriormente apresentado no contexto do museu ou da galeria (catálogo da exposição pp. 23-33).










Na casa/mansão Tivoli apreciámos o tema da generosidade e, mal entrámos, fomos recebidos com um abraço pelo casal de artistas americanos Brainard & Delia Carey (colectivo de artistas Praxis). Na noite anterior, dia da inauguração da bienal, tinha havido sangria para os visitantes. Numa das divisões seguintes roubámos um dos livros de Dora Garcia, Steal this book (capa) ou Volez ce livre (contracapa) das edições Paraguay Press. Visitámos a pastelaria improvisada numa das salas e mais algumas obras e seguimos para o Museu de Arte Moderna onde se explorava o tema da violência. Muitas das peças aqui expostas são antigas e já circularam bastante. Salienta-se, no contexto desta mostra, o tema da violência através de alguns vídeos que exploram uma queima de livros (Karmelo Bermejo, Espanha, 1979, recebeu 3000 euros do estado para comprar livros e para os queimar numa performance pública), de carros (Ant Farm, São Francisco, 1975, e Dalibor Martinis, Zagreb, 1979), uma performance onde se quebram inúmeros tigres de porcelana (Marcello Maloberti, Itália, 1966) e uma montagem cinematográfica feita a partir de um happening, quanto a mim das obras mais interessantes em exposição, de cenas de violência entre a audiência de uma bancada em Times Square. Esta acção foi inspirada por cenas de filmes clássicos como Vertigo de Alfred Hitchcock (1958), O Coraçado Potemkin (Sergei Eisenstein (1925), entre outros. As cenas de violência dos vários filmes foram rearranjadas e interpretadas por seis actores diferentes.


Depois das visitas culturais deglutimos um sumo vitaminado numa esplanada do centro, fomos ao hotel ter com Philippe Bootz e partimos os três para o aeroporto de táxi. Em Paris cada um seguiu o seu destino. A minha terceira vez na Eslovénia e já tenho vontade de voltar.




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