Depois de seis meses de silêncio decidi actualizar este blogue com algumas peripécias. Há aproximadamente seis meses fui atingida pelo síndrome de Bartleby, uma sensação bizarra tão explicitamente desmontada por Enrique Vila-Matas no livro Bartleby e companhia (2000), deixei de ter qualquer vontade de continuar a reportar neste blogue alguns momentos. Depois de mais de cinco anos de escrita assídua neste espaço o silêncio pareceu-me a única forma de dizer alguma coisa de relevante.
Tudo começou com o impacto da ida à Califórnia em Outubro/Novembro do ano passado com o P.. Socorrendo-me das minhas notas da altura no facebook vou fazer um relatório detalhado dessa viagem para tentar desbloquear a irónica cruzada de uma escritora do Não durante seis meses.
Ora, tudo começou com uma ida muito atribulada. Reportei no dia 31 de Outubro que tinha tido um US Airways Nightmare pois logo no início da viagem, mal levantávamos voo, disseram-nos que íamos aterrar em Boston para encher o depósito do avião devido ao mau tempo em Filadélfia, local da nossa escala já nos EUA. O avião parecia sofrível para uma viagem transatlântica e rapidamente percebemos que o nosso companheiro de viagem não ia deixar o p. descansar um só minuto. Estava empenhado em conversar, ou “monologar”, sem parar, e era de uma espécie de indivíduos raros, empreendedores natos, teóricos moralistas sem grande obra mas que advogam uma pragmática cuja génese são os melhores avaliadores. Já a sobrevoar a cidade americana onde se assinou a declaração de Independência em 1776 apanhámos uma turbulência indescritível e aterrámos com duas horas de atraso devido à paragem de Boston.
No aeroporto de Filadélfia, à chegada, numa mesa improvisada, novos bilhetes para Los Angeles apareceram emitidos em nosso nome. O primeiro voo estava perdido e, percebemos poucos minutos depois, o segundo também. Passámos uma hora e meia para carimbar o passaporte e todos os empregados do aeroporto pareciam indiferentes ao facto de podermos perder voos de correspondência. Muita gente se queixava que ia perder o avião e o pessoal de terra era de uma antipatia de assinalar, falavam connosco como zombies, teclavam dados no computador sem sequer olhar para nós. Welcome América! No aeroporto, passámos o tempo todo a correr de balcão em balcão e, finalmente, entrámos no avião cujo bilhete tínhamos desde o início e que estava com mais de três horas de atraso. Aqui, passámos uma hora a andar de um lado para o outro em terra à espera do tapete de gelo. O piloto ia fazendo o ponto da situação de forma confusa pela rádio, já estávamos cientes que se tratava de um temporal, nevou fora de época, e as condições eram bastante anormais mas só tivemos a real percepção do que se passara no dia seguinte.
Quando finalmente levantámos voo estávamos com cinco horas de atraso. No avião pedimos comida, de acordo com uma ementa que circulava, e ficámos a saber, de forma muito pouco simpática, que devíamos ter comprado alguma coisa no aeroporto pois estava tudo esgotado. Só snacks. Nesta altura estava bastante desesperada para tomar alguns medicamentos, anti-inflamatório e afins, e o mal-estar da alergia infectada que trazia há mais de quatro dias apoderou-se totalmente do meu feitio. Comemos snacks, tomei os medicamentos, e chegámos a LA.
Nós os dois chegámos a Los Angeles mas as nossas malas não, ficaram em Filadélfia… Uma vez mais, sem qualquer simpatia, atiram-nos os kits de higiene da companhia aérea e dizem-nos para consultarmos o website deles, área de bagagem extraviada. Não tenho mais medicamentos nem produto para limpar a lente de contacto suficiente… o meu estado é nervoso com uma pitada de desespero, tenho que estar fresca dentro de dois dias para a apresentação na Chapman University e corro o risco de piorar. Vamos para o hotel na zona de Hollywood de táxi a sentirmo-nos miseráveis. O sítio revelou-se um lugar acolhedor e suspirámos de alívio por isso mesmo.
No dia seguinte, depois do pequeno-almoço num café acoplado ao hotel bastante giro, sem muda de roupa e com a lente de contacto a dar sinais de oleosidade tornando-me a visão embaciada, o P. elabora mentalmente os piores cenários possíveis para as nossas malas e eu, provocada pelo desespero digo-lhe, “há dez anos, na cidade do México, fiz-te uma fita terrível porque me estragaram a mala na viagem e ela chegou partida, hoje para mim isto parece uma aventura.” As malas vão chegar sem problema nenhum, pensei, e deixei o pessimismo para entretenimento do P.. E quem estava doente e em trabalho era eu.
Fomos à Gap, comprar uma muda de roupa, e à farmácia do supermercado comprar soro e medicamentos. Em Lisboa, dois meses depois, recebemos, por parte da companhia aérea, o reembolso de todo o dinheiro que gastámos. De seguida, ainda andámos pelo passeio da fama e bebemos um sumo vitaminado numa loja de sumos naturais de origem hispânica. O congestionamento nasal, que apresentara sinais preocupantes depois de tanto ar condicionado, nesse dia melhorou ligeiramente no seguimento de uma consulta improvisada na mesma farmácia do supermercado onde tínhamos estado de manhã. Ao final da tarde as malas chegaram.
No dia 1 de Novembro, andavam todos vestidos para o dia das bruxas, voltei a ter as vias respiratórias quase em forma, andei pelo MOCA, Mulholland Drive, Hollywood, Little Tokio, Walt Disney Concert Hall e tantos outros lugares. Los Angeles revelou-se muito mais interessante do que imaginara. Foi um dia excelente, com sol e calor. Jantámos, como na véspera, num restaurante tailandês, muito bom, recomendado pelo trip advisor e perto do nosso hotel. Uma velhota dos seus setenta anos servia à mesa e a comida era deliciosa. Não havia como não repetir a experiência aliciados pela memória irresistível do dia anterior.
No dia seguinte partimos de comboio, “uma coisa muito europeia”, como ironizou um amigo americano mais tarde, para Orange County. A zona é muito bizarra, um enorme parque de estacionamento a céu aberto com alguns edifícios megalómanos, como a catedral de vidro, a primeira Disneyland, agora decadente, e muitos outlets. Felizmente o hotel era bastante confortável e só lá íamos ficar dois dias. Nessa noite, fomos jantar a um restaurante mexicano recomendado, acompanhados pelo Stephen do Rochester Institute of Technology (RIT), que nos levou de carro alugado pelas profundezas da região. Voltámos ao hotel para uma última Corona e, no dia seguinte, fiquei de ir ter com o Stephen para irmos juntos para a conferência IGIC 2011. Reencontrar o Stephen foi muito bom. Em Orange County, tal como em LA, tudo é longe e o carro é imprescindível.
Dia 2 de Novembro estive o dia todo na Chapman University. Logo no hotel do Stephen conheci um grupo de canadianos, também dos jogos, e fomos todos juntos para a conferência. O P. foi visitar as redondezas e fotografar as bizarras construções locais. As apresentações da manhã foram bastante estimulantes, principalmente as comunicações de Trip Hawkins, uma personagem histórica dos jogos digitais, e de Susan Bond, da 42 Entertainment. Conheci, finalmente, o Jeff Watson da University of Southern California (USC), depois de tantos e-mails trocados durante meses, e revi algumas pessoas que tinha conhecido no ano anterior em Hong Kong. Ali, até à hora de almoço se apresentavam comunicações e o ritmo foi alucinante. Nas paredes da Universidade podiam ver-se pinturas originais de Robert Rauschenberg. Às sete horas da tarde, depois da recepção, onde se comia e bebia e se ouviam as últimas comunicações, apanhei um autocarro improvisado para o hotel, conduzido por um dos chairs da conferência que não tinha conseguido encontrar o motorista. Uma cena hilariante.
Nessa noite fui jantar com o P. a um restaurante de barbecue muito apreciado pela fauna local e bebemos um bom vinho da Califórnia. Missão cumprida! O dia, depois de todos os problemas na organização de um painel "fantasma" para esta conferência que me deu imenso trabalho e que acabou reduzido à minha comunicação e à do Jeff por motivos económicos, correu bastante bem. A Narisa, chair da IGIC 2011, excedeu-se em simpatia, queria que ficássemos instalados em sua casa, tentou agendar-nos uma visita aos estúdios de Hollywood e não descansou enquanto não garantiu que eu iria visitar a USC em companhia do Jeff. Os dias começavam a voar e havia tanta coisa para fazer ainda.
Voltámos para LA de comboio na manhã subsequente. Desta vez ficámos hospedados num hotel em Beverly Hills. A tarde foi passada no Getty Museum, uma soberba vista da cidade e uns jardins muito interessantes. Vimos a exposição sobre a obra de Lyonel Feininger (1871–1956), um dos primeiros professores da Bauhaus. Mais informações aqui. Descemos a Sunset Boulevard e jantámos num restaurante japonês das redondezas.
No dia 4 de Novembro fomos de manhã ao Farmers Market, um divertido centro comercial a céu aberto com uma área de restaurantes de várias nacionalidades. À tarde chovia bastante, coisa rara em LA, segundo o Jeff nos assegurou mais tarde, e, debaixo de chuva, partimos para uma visita à mítica University of Southern Califórnia (USC), escola de alguns dos mais conhecidos realizadores de cinema, Robert Zemeckis, George Lucas, Steven Spielberg, entre tantos outros. Fomos visitar a School of Cinematic Arts e o Game Center com o Jeff e o Stephen. O Jeff fez-nos uma simpática visita guiada e a experiência foi, claro, muito boa. Visitar o gabinete onde o projecto Reality Ends Here teve início e perceber que o humilde Brincar com a Poesia era compreendido com respeito e interesse. A sintonia das conversas e dos momentos. Dois dias antes recebi da Susan Bond um cartão metálico com os seus contactos, uma empresa que durante tantos anos venerei à distância. A vida tem destas coisas.
Alguns meses depois, uns quatro, ao consultar os rankings de Princeton na área dos jogos, soube que tinha ido visitar a escola com aquele que é considerado, há já alguns anos, o melhor curso de jogos digitais dos Estados Unidos, e, quem sabe, se não do mundo. E isto em companhia de um professor do Rochester Institute of Technology, número dois na América. Foi uma dose muito forte. Percebem o sentimento de Bartleby agora? Depois disto porque não o silêncio?
Nas mãos, este ano, tive a responsabilidade de construir de raiz o primeiro ano do curso de jogos digitais numa Universidade Portuguesa. Existem, até ao momento, mais dois em politécnicos. Como afirmava há dias na televisão o cientista português Manuel Sobrinho Simões, há aqueles que festejam as coisas que acontecem, os projectos que caem, e outros, como o próprio, e onde também me incluo, que se apavoram com a responsabilidade que chega. Este ano lectivo foi um ano de silêncio. Que havia a dizer quando se está tão expectante sobre a realidade que nos aconteceu. Não sou optimista e não tenho jeito para grandes exercícios de celebração antes de tempo. Não comemorei nada e há um ano quando soube da notícia foi com todo o pânico que a recebi. LA foi demasiado forte. O silêncio incomoda-me mais do que os resultados e, um ano depois, vou perdendo o receio, e agora, o silêncio vai-se também. Há muito que sei que em Portugal tudo se consegue com demasiada dificuldade, tenho pouca paciência para tanta morosidade e falta de visão, estou por um fio com este país.
O programa da conferência com alguns vídeos das comunicações está disponível aqui.
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