Terça-feira, 22 de Maio de 2012
VIAGEM À POLÓNIA _ AUSCHWITZ, CRACÓVIA E VARSÓVIA _ ABRIL DE 2012



















Entre dia 3 e 10 de Abril estive na Polónia de férias com o P.. Chegámos a Varsóvia via Frankfurt e, depois de uma noite bem dormida e de uma visita nocturna pela cidade, partimos para Cracóvia de comboio na manhã seguinte. Na tarde da nossa chegada, Cracóvia foi inundada de sol e estava até quente. Comemos um gelado delicioso enquanto visitávamos o centro histórico, com o imponente castelo com vista sobre a cidade, as inúmeras igrejas e ruas pitorescas. Jantámos num restaurante Georgiano razoável depois de levarmos uma nega no sítio onde queríamos ter degustado, um típico restaurante polaco onde iríamos dois dias mais tarde. No hotel agendámos a visita a Auschwitz-Birkenau para o dia seguinte.

















Partimos para Auschwitz-Birkenau às nove da manhã. Como reportei na altura na minha página do facebook o museu de Auschwitz é um cemitério a céu aberto. Vale a pena a visita pela experiência, pela hipótese de perceber in loco os horrores ali passados, reviver a memória de tantos filmes que recriam a atmosfera dos dormitórios, dos laboratórios, das prisões e do exterior árido, mas o museu não faz justiça à memória das vitimas. Este facto deve estar associado a algum conservadorismo ou medo de transformar a visita em espectáculo. Coisa estranha, algo ortodoxa, ainda para mais quando o museu tem associados inúmeros especialistas que poderiam garantir alguma imparcialidade. Podem-se visitar os espaços e saber alguns dados históricos através dos guias da visita mas sabe a pouco. No nosso caso, tivemos um interessante guia polaco com um excelente sotaque de Oxford, uma conversa muito dramática, encenada e rigorosa. Os inúmeros despojos em vitrinas, as fotografias/fotocópias e a maqueta do crematório são quase patéticos. No autocarro, à ida para lá, vimos um filme de sessenta minutos com o relato da experiência do fotógrafo do dia da libertação do campo, muito interessante. Mais tocante do que muitos dos artefactos da exposição. Uma boa preparação emocional. Depois, visionámos no DVD do hotel outro documentário sobre outro fotógrafo de Auschwitz, Wilhelma Brasse. Encontrámos este filme por acaso numa livraria do bairro judeu, chama-se O Portrecista e foi realizado por Irek Dobrowolski em 2005. Esteve muitos anos à espera para encontrar financiamento.

















No museu não há qualquer apresentação multimédia, filmes, relatos de prisioneiros, reconstituições históricas, depoimentos de especialistas ou outros… pouca ou nenhuma informação adicional que não seja para comprar nas livrarias, dois espaços minúsculos. A ausência de informação complementar em Auschwitz-Birkenau é ainda mais estranha quando se visita o recente museu da cidade de Cracóvia inaugurado em 2010. Um espaço inteligente, cheio de pequenos filmes históricos e experiências multimédia para todos os gostos e idades. A visita a Auschwitz vale a pena porque se pensa o horror de alguns aspectos pragmáticos, o frio que devia fazer e os prisioneiros debaixo de umas fardas miseráveis a dormir em “palhotas” horríveis sem água corrente, o não se ter liberdade para ir à casa de banho com tranquilidade porque os guardas controlavam os tempos dos prisioneiros ao mais pequeno pormenor, as experiências do Dr. Menguele… mas é lamentável que não tenha mais informação. Muito longe dos museus/memoriais de Hiroshima e Nagasaki que visitei no início da década passada. No entanto, a visita não deixa de ser um pontapé no estômago por razões evidentes associadas às inúmeras emoções que vivemos ali ao visitar os diversos espaços, ao ouvir alguns relatos e ao sentir o frio gélido. Manter a memória viva daquelas atrocidades devia ser uma preocupação de todos os países europeus.

O P. recebeu esta semana a série The World at War, The Ultimate Restored Edition, e estamos os dois a seguir os contornos alucinantes da Segunda Guerra Mundial. Nos três primeiros episódios podemos perceber o início da tragédia Europeia, as "maquinações" do exército alemão, inglês e francês e a pobre sorte dos Polacos, divididos e ocupados entre alemães e soviéticos, à espera, a sofrer com a lentidão dos ingleses e a inércia dos franceses. O Palácio da Cultura e da Ciência, em Varsóvia, é um exemplo de uma oferta de Stalin ao povo polaco. Antes chamava-se o Palácio da Cultura e da Ciência de Joseph Stalin. O monumento mais alto da cidade. Lembro-me de ver com o meu pai a série sobre a Segunda Grande Guerra na RTP2 quando era pequena e achar uma seca monumental. Era criança e não tinha qualquer interesse para mim perceber os contornos destes trágicos acontecimentos. O meu pai adorava ver e por isso não havia como ignorar a série. Hoje, no entanto, ao rever a mesma esta parece-me fundamental e até é provável que a minha disponibilidade esteja relacionada com essa experiência passada. Talvez daí venha o meu fascínio pela Polónia. Há bastante tempo que queria conhecer o país e não fiquei nada desiludida.

No dia seguinte, à ida a Auschwitz-Birkenau, partimos para uma visita às minas do sal. Não aconselho mesmo nada. É dos lugares turísticos mais fake e desinteressantes onde alguma vez estive. Uma atmosfera plástica e de parque temático que nada contribui para a nossa felicidade, pelo menos para a minha, claro está. Pindérico e desinteressante.

Quando regressámos dessa triste visita, felizmente curta, ainda tivemos oportunidade para ir visitar o Museu da cidade de Cracóvia, Rynek Undreground, o qual se revelou uma óptima surpresa. Jantámos, nessa noite, num óptimo restaurante húngaro, perto do hotel, era sexta-feira santa e a cidade estava animada.

















Sábado chegou, andámos pelas ruas a ver os Polacos passear de cesto de Páscoa na mão, uns intrigantes contentores de palha e guardanapos de renda, com ovos, flores, fruta e outras iguarias. O sol voltou e a última tarde em Cracóvia foi bestial, andámos pelo bairro judeu e visitámos novamente os arredores do Castelo. À noite jantámos num restaurante horrível, um festim de chouriçada. Pratos gigantes de carne de porco frita e chouriços variados, tudo cheio de gordura, até os legumes. Certamente, uma das minhas piores refeições da vida.

No domingo de Páscoa partimos para Varsóvia de comboio. Em Cracóvia tinha nevado de manhã e, quando chegámos a Varsóvia, estava um frio de rachar. Da estação até ao hotel foi uma caminhada penosa. Estava quase tudo fechado e acabámos a jantar no hotel depois de uma prospecção pelo centro histórico. Varsóvia, ao contrário de Cracóvia, não é uma cidade bonita mas o centro é interessante e vê-se que nos próximos tempos vai melhorar. As fotografias antigas, antes da guerra, que vimos numa exposição ao ar livre, mostram que os edifícios não tinham o alinhamento controlado de hoje, a reconstrução terá introduzido algumas melhorias no traçado geral. O centro da cidade tem um movimento constante de pessoas, tanto de dia como à noite, o que a torna atraente. É mais interessante do que esperava.

















Nos últimos dias da nossa estada na Polónia fomos visitar o Centro Copérnico, inundado de crianças, estava tanta gente que ficámos pelos jardins a contemplar os arredores e seguimos, a pé, para o centro. Fomos também ao Museu de Arte Moderna ver a exposição “Angry Birds” que apresentava trabalhos de uma nova geração de artistas importantes na “cena” arti de Moscovo. Fiquei fascinada com duas obras de vídeo. Uma delas, de Anastasia Potemkina, nascida em Moscovo em 1984, chamava-se Duck Traffic e consistia na introdução de uma personagem (a artista) que alimentava com pão um conjunto de patos para que estes interrompessem o tráfego numa estrada ao pé de um parque. Os condutores revelavam-se imprevisíveis, dos mais pacientes, que esperavam calmamente a passagem dos patos, aos que buzinavam furiosos contra a ocorrência de tão sui generis acontecimento. Hilariante. De acordo com o catálogo da mostra: “The video documents the artist’s ironic invasion of a European city space: by throwing breadcrumbs, the artist has lured a flock of ducks into the street, thus stopping traffic for a while and creating a traffic jam. As the artist herself describes her project: “This work demonstrates a crossing of two types of traffic – animal and technology. The unexpected invasion of the animal world into the technological one creates a moment of complete confusion, when in a clash with its fragile living ancestor, motor traffic becomes absolutely helpless, and all its technical power is redundant.”

Na outra obra, de Laura Kuusk, nascida em 1982 na Estónia, chamada Almost a movie I, II, III, IV, ensaiavam-se entrevistas com futuros realizadores de obras por fazer, ou seja, os filmes eram o relato das intenções de um conjunto de realizadores de diferentes nacionalidades a relatar as suas futuras produções cinematográficas. Bastante hilariante também. Como se afirma no catálogo da exposição: “The work “Almost film,” presented at the exhibition, is a series of videos about people who make films. In each of four videos there is a person talking about their film, what it is going to be devoted to, what its main message will be, and important details related to the movie; we also see the planned shooting locations. We can already imagine the movie, run it in our heads, even though it does not yet exist. We don’t even know what it is: a make-believe, video portraits of directors, or a documentary on non-existent ideas.”

















Os polacos não são simpáticos. Os serviços bastante lentos ou com muita gente para fazer pouco, o que os torna mais lentos. Neste aspecto lembra mais o sul do que o norte da Europa. No entanto, ficámos em Cracóvia num dos hotéis mais interessantes em termos de qualidade, preço, pessoal, design, serviços, localização e pequeno-almoço onde alguma vez estive. O hotel faz parte de uma cadeia com vários outros (Áustria, França, etc.) o que afasta o seu ADN da Polónia e o aproxima de outras latitudes. Segundo nos disseram por lá, os polacos gostam de se manter isolados, distantes e prescindem com dificuldade da sua privacidade. Nunca nos perguntaram de onde éramos nem fazem em geral perguntas.

Em Varsóvia há vários bancos Millennium e apenas vimos um Biedronka (o supermercado da joaninha, Jerónimo Martins), perto do centro Copérnico, embora se vejam alguns anúncios pelas cidades e arredores. A vodka local mais afamada chama-se Chopin, Frédéric Chopin nasceu nos arredores de Varsóvia. Esta vodka é deliciosa e existe em duas variadas, uma de arroz e outra de batata. Podem-se beber inúmeras marcas de vodka mas esta é, de acordo com o que lemos e nos disseram, a melhor. Há várias outras chancelas, com e sem sabores adicionados mas nada como a Chopin. A Polónia é também um dos países que mais produz cerveja, as marcas são inúmeras. Chopin também dá nome a vários tipos de chá local, tisanas e chocolates. De resto, para além da passagem de Copérnico pela Universidade de Cracóvia, da “fuga” (emigração) de Chaja Rubinstein, i. e., Helena Rubinstein, de Cracóvia para a Austrália, e de Marie Curie, de Varsóvia para França, há poucos artistas e cientistas representados no universo turístico das duas cidades polacas. A guerra levou e destruiu tudo. No entanto, Cracóvia foi um grande centro académico e é com grande orgulho que se apresenta o protagonismo desta universidade no museu da cidade.

A viagem à Polónia valeu a pena. Cracóvia tem encanto, uma bonita cidade pintalgada pelas lendas do dragão e por Dzok, o cão que esperou durante um ano ser alimentado pelo dono que falecera.  Segundo lápide da escultura em sua memória no passeio perto do Castelo: "The most faithful canine friend ever, epitomising a dog's boundless devotion to his master. Throughout the entire year /1990-1991/ Dzok was seen waiting in vain at the rondo granwaldzkie roundabout to be fetched back by his master who had passed away at the very site." Pobre cão. Pobre Polónia no passado.




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