Depois de ter estado dois meses e meio na Colômbia constatei que viver em Bogotá não é difícil. A cidade é agradável, cheia de espaços verdes e possibilidades de caminhadas a pé, de bicicleta, patins e outros meios alternativos que se queiram adoptar. Não é de todo necessário ter um carro pessoal pois os autocarros param em qualquer lado que se solicite, o que atrapalha bastante o trânsito, e são muito baratos. Os táxis é mais seguro chamar em lugares de confiança se não arriscamos um “passeio milionário”, isto é, o motorista obriga o cliente a levantar dinheiro com os seus cartões em algumas caixas ATM. O mesmo que acontece no Brasil. Um sequestro improvisado para “sacar” dinheiro ao indivíduo mais desprevenido ou crédulo. É evidente que muito do que aqui vou relatar nos remete para a zona norte da cidade, a mais privilegiada, e, como tal, este relato é apenas um testemunho parcial da vida na cidade de Bogotá. Bogotá centro e sul levar-nos-ia a uma outra narrativa que pode nada ter a ver com a vivência a norte mas isso penso que é apanágio de todas as grandes cidades.
Uma das coisas mais complicadas para mim na Colômbia relaciona-se com o facto de amanhecer o ano inteiro às seis da manhã e anoitecer às seis da tarde. Religiosamente à mesma hora o sol levanta-se e deita-se. Agora que já estou instalada na Cidade do México, cheia de sol e oscilações diárias no comprimento dos dias, é fácil, à distância, avaliar mas a rotina de tal evento levar-me-ia à loucura se por ali ficasse muitos anos. Complicado para alguém que tem alguma dificuldade com as rotinas persistentes. Além disso adoro aqueles seis meses do ano em que podemos perceber que os dias vão crescendo da mesma forma que lamento quando o contrário acontece. O equilíbrio monótono entre o amanhecer e o anoitecer não me interessa nada. Arght!
Outra questão que me iria enervar com o tempo é a falta de qualidade dos produtos de supermercado e os preços bastante exagerados de algumas mercadorias. Os restaurantes são bons mas os produtos na generalidade dos estabelecimentos comerciais não são grande coisa e qualquer artigo ligeiramente próximo do gourmet paga-se muito mais caro. O imobiliário para arrendar também atinge preços estapafúrdios. Os medicamentos são um verdadeiro “assalto à mão armada”. Mais uma vez agora que comparo com o México é de se ficar boquiaberto. Aqui os restaurantes e as casas para arrendar são mais barato(a)s!
Os colombianos são de uma educação e simpatia muito assinaláveis. Discretos, dizem sempre quando se agradece qualquer coisa: “com mucho gusto!” ou, melhor ainda, “com muchísssimo gusto!” Empenham-se no que fazem, são muito trabalhadores. Um colombiano de uma empresa petrolífera disse-me que era normal ao fim de uma jornada de trabalho os trabalhadores irem para casa estudar. Eu apanhei o porteiro do nosso prédio a ler um calhamaço de umas seiscentas páginas mas isso foi só um sinal entre muitos. Basta conversar com eles para se perceber que gostam de fazer as coisas bem feitas dentro dos limites que conhecem, o que é relativo pois regra geral o nível de educação é fraco. A taxa de desemprego na Colômbia é de mais de dez por cento da população, sendo que a taxa média da América Latina ronda os 6,5%. A classe mais privilegiada gaba-se com frequência de estudos nos EUA e o Presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, é mestre com um diploma fruto de uma parceria entre a London School of Economics e Harvard.
O legado de dois autarcas é muito apreciado em Bogotá, Antanas Mockus e Enrique Peñalosa. O presidente da câmara actual não é muito popular. Os dois autarcas aplicaram métodos menos ortodoxos para mudar a vida na cidade. Usaram estratégias artísticas para gerar participação cívica. Antanas Mockus fez uma campanha publicitária onde aparecia a tomar duche e ia fechando a água enquanto se ensaboava para induzir as pessoas a pouparem. O método foi eficaz e reduziu o consumo de água da cidade de forma expressiva. Como se pode ler (cf. aqui) na introdução do vídeo dinamarquês de 2009. Na cidade colombiana “aplicaram-se vacinas contra o crime e dessa forma se transformou em menos de dez anos uma das cidades mais perigosas e corruptas do planeta numa cidade modelo sustentável que se exporta.” As ideias performativas de Antanas Mockus forma inúmeras e bastante eficazes e a população da cidade respeita-o.
O canal de TV por satélite que tínhamos em casa, a Direct TV, intrigou-me pela sua qualidade até ter descoberto que é uma empresa americana que criou um pacote para toda a América Latina. Tinha que haver uma explicação para uma programação tão sofisticada. Abrange tantos países e um volume de clientes tão grande que é possível fazer algo desta qualidade. Felizmente também há Direct TV aqui no México mas ainda estamos na fase preliminar, à procura de casa, a viver num hotel.
Além de Bogotá conheci Cartagena das Índias e Medellín. De Cartagena das Índias já aqui deixei algumas notas. O objectivo deste texto é apresentar Medellín. Há mais de dez anos vi o filme "La Virgem de los Sicarios" no King e fiquei sem vontade nenhuma de conhecer a cidade. Acho que à época devo ter prometido a mim mesma nunca lá pôr os pés. A transição da cultura de violência à "sensibilidade verde", em apenas dez anos, é, no mínimo, surpreendente. Recentemente foi considerada a cidade mais inovadora do mundo. Esta nova faceta de Medellín deixava-me intrigada.
O avião demora meia hora de Bogotá a Medellín. Quando se chega a paisagem muito verdinha e a temperatura quente, por contraste com a amena Bogotá, fazem-se notar. Nos três dias que lá estivemos choveu bastante e, dado que a paisagem é tão verdinha, deve chover com frequência por aquelas bandas, embora o taxista que nos transportou do aeroporto ao hotel nos tenha dito que aquela semana tinha chovido mais do que o normal. No dia em que chegámos andámos pela zona do parque Lleras, uma área de restaurantes e bares, perto do nosso hotel em Medellín, que vale a pena explorar, muito parecida com a área do parque 93 em Bogotá.
No dia seguinte aventurámo-nos logo cedo em direcção ao Parque Biblioteca de España no bairro de Santo Domingo. A produção do arquitecto colombiano Giancarlo Mazzanti tinha que ser explorada. Em Lisboa, há uns meses, vi um programa americano sobre Medellín que salientava o trabalho feito neste bairro. Aí mostrava-se como as novas infra-estruturas de metro/teleférico e a biblioteca tinham permitido que as pessoas, que até então viviam fechadas nas suas casas devido ao narcotráfico, começassem a frequentar a rua e a organizar eventos de dança e performance. Idealizei uma imagem do sítio. A realidade era, no entanto, distinta. Percorremos umas dez paragens de metro de superfície, das quais seis são a visualizar favelas e mais favelas. Apanhámos o teleférico que está integrado na rede do metro e, numa cápsula aérea, vimos quilómetros de favelas do topo. Lá em baixo o caos era completo. O som na cabine era estranho, abafado, parecia que se estava num complexo desportivo. Lá em baixo viam-se e ouviam-se crianças fardadas aos berros a brincar, devia ser a pausa da manhã na escola. Os edifícios da biblioteca estão integrados na favela e através da rede de transportes públicos as pessoas melhoraram significativamente a sua qualidade de vida. Em vez de subirem o “morro” a pé podem usar o teleférico.
O projecto de aplicação da arquitectura espectáculo para integração social é interessante mas o meu estado de espírito naquele dia foi bizarro. Tive uma sensação bastante estranha. Tinha construído uma imagem idealizada através do documentário onde se viam pessoas a dançar nas ruas perto da biblioteca mas a realidade era outra. Uma colombiana tinha-nos dito para não nos aventurarmos muito para lá das ruas entre o metro e a biblioteca e a verdade é que a sensação que tinha era que me queria ir imediatamente embora. A imagem da roupa estendida pelos telhados de tijolo, chapa e acessórios desordenados deixou-me bastante angustiada. Uma realidade muito difícil de engolir. Nunca me apeteceu visitar uma favela e Medellín parecia um favelão enorme. Depois a vista de cima revelava todas as entranhas da vida ali. Uns amigos tinham estado em Medellín uns dias antes. Ficaram encantados com a cidade. Nunca passaram a linha que separa o centro do resto. No rio lamacento e sujo que passámos de metro as crianças brincavam nas margens. O cenário era muito triste. A rede de metro é imaculada. A sensação de se entrar naquele “outro” mundo com a protecção da “cápsula” é demasiado estranha.
Já no "corredor turístico la milla de oro", que percorremos no dia seguinte, os passeios não estão todos cheios de buracos e sujos de lama. Os edifícios são de boa qualidade, os jardins estão todos arranjados e o ambiente contrasta bastante com a favela e até com o centro histórico. Medellín, para mim, é menos interessante que Bogotá. Os contrastes, típicos destes países, são demasiado evidentes. Gostei bastante de visitar a praça Botero, o Jardim Botânico, o orquidário e o Museu de Antioquia mas o centro da cidade é tão sujo e feio…
Com alguma pena por deixar a Colômbia mas satisfeita pelo novo projecto na Cidade do México, no dia 20 de Maio, tive que dizer Hasta la vista Bogotá! ¡hola Cidade do México! O P. teve direito a festa de despedida em Bogotá, com música ao vivo, dança, chapéus, bebidas e um vídeo de recordação do evento criado pelos seus colegas. Vou ter saudades dos colombianos.
. EM SÃO PAULO, ENTRE OS RU...
. "THE LAST OF US", AMOR, L...
. QUE SORTE PODER VOLTAR A ...
. MEXICO DF UMA CIDADE ONDE...
. A MINHA SAGA COM O CANDY ...
. QUATRO FILMES A NÃO PERDE...
. PABLO ESCOBAR, O PATRÃO D...
. A MINHA FRUSTRAÇÃO COM O ...
. "THE WALKING DEAD" (GAME)...
. NUMA JANGADA DE POVOS IBÉ...
. apostas
. cinema
. enigmas
. festas
. game art
. gamers
. myspace
. script
. segredos
. teatro
. textos
. viagens
. acm multimedia
. artech 2008
. Nas Fronteiras do Imaginário
. artech 2010
. “Envisioning Digital Spaces”
. arsgames
. presentation mouse + citilab
. arte e comunicação
. bang festival
. blogue obvious
. blogue machina speculatrix
. citilab_mobile cells
. fotos flicker (jordi carrasco)
. cv_movlab
. mousepat
. cv_degois
. mousepat
. design pregaia
. interact
. encontro inova (FCSH)
. 2º e 3 ciclo (investigadores)
. glosário Côa
. design
. ieee games innovation conf
. jovens criadores
. livro novos trilhos culturais
. medialabprado
. museu da ciência
. mouse art
. sbgames 2009
. symposium _ slovenia
. Re-play: cinema and video games
. the upgrade! Lisbon