Acabei de ver a série Pablo Escobar, el Patrón del Mal (Caracol TV Internacional, 2012), uma polémica produção da televisão Colombiana sobre a vida de um dos homens mais perigosos desse país. Com o slogan “El que no conoce su historia está condenado a repetirla” e baseada no livro La Parábola de Pablo de Alonso Salazar esta série faz uma homenagem às vítimas do cartel de Medellín. Nela se relatam as memórias de um país devastado pela guerra contra o narcotráfico durante mais de uma década. Esta produção contou com a colaboração de 1300 actores e foi filmada em vários locais da Colômbia e em Miami.
A saga de setenta e dois episódios, na versão dos dezasseis DVD’s em duas caixas, começa com Pablo Escobar em criança mas logo transita para o início da década de oitenta quando o chefe dos sicários começa a impor as suas regras. A partir daí e até final de mil novecentos e noventa e três, quando Escobar é morto pela polícia, os espectadores vão conhecendo um dos piores momentos da história da Colômbia. Por vezes, não dá para acreditar que uma narrativa destas tenha acontecido na realidade, houve negociações entre Escobar e o governo Colombiano inacreditáveis. As inúmeras tentativas de boicote ao processo de extraditação dos narcotraficantes para os Estados Unidos, que implicaram como retaliação por parte do cartel de Medellín a colocação de bombas num avião comercial, na sede de um jornal e outros eventos de destruição massiva, ou a tramóia com a prisão “dourada” de alto luxo (La Catedral), de 1991, que o barão da droga comprou para vender ao estado por um preço três vezes superior e onde continuava a governar o seu negócio, são apenas alguns exemplos do surrealismo dos eventos à época. A série contou com a colaboração de alguns jornalistas e familiares das vítimas e tem um vasto reportório de imagens de arquivo, principalmente na segunda parte que corresponde à segunda colecção de oito DVD’s.
O cartel de Medellín, encabeçado por Escobar e pelos três irmãos Montoya, na realidade família Ochoa (algumas personagens receberam nomes fictícios no documento televisivo, nomeadamente a mulher de Escobar que na série se chama Patrícia) mandou matar militares, políticos, entre os quais um candidato à Presidência da República Colombiana e um ministro, o director do jornal El Espectador, juízes e tantos outros civis.
Os actores são regra geral muito bons e estão caracterizados de forma bastante curiosa gerindo com complexidade as idiossincrasias das personagens reais e fictícias. Durante o visionamento da série fui fazendo pesquisas on-line e desmontando a relação desta com a realidade. Uma das minhas personagens favoritas, o sicário Chili, reflecte bem a problemática recorrente neste género de narrativas como muito bem assinala a coluna peruana Pico TV (aqui): “Pero me quedo con la boca abierta cuando leo en la red mensajes como “¡¡Murió el Chili, noooo!! ¡¡Chili, eres grande!! ¡¡Chile estamos contigo!! ¿Por qué mataron al Chili?”. Quéeeee. No sé si reír o llorar.
Está bien que el actor Anderson Ballesteros sea un actorazo, pero no hay que olvidar que el “Chili” fue en realidad John Jairo Arias Tascón, “Pinina”, quien llegó a ser el jefe de los sicarios de Escobar y el quinto en jerarquía en la organización. Le decían “Pinina” porque era blancón y tenía una voz delgadita, como la actriz argentina Andrea del Boca en la serie “Pinina”. Pero el colombiano era un asesino por naturaleza. A los 15 años comenzó a matar para la organización y rápidamente llegó a convertirse en reclutador de sicarios. Dicen que tenía “ojo clínico” para captar asesinos entre los adolescentes de los barrios pobres de Medellín. Fue él quien organizó el asesinato del ministro de Justicia, Rodrigo Lara Bonilla. Posteriormente se especializó en llenar de coches bomba la ciudad, desde Bogotá y Medellín, en la época en que Pablo ordenó desatar el terror indiscriminado para obligar a las autoridades a declarar la no extradición a Estados Unidos de los narcos perseguidos. “El Chili” o “Pinina” fue el responsable de la muerte de 262 civiles y 129 policías asesinados en Medellín. “ (Pico TV, Março de 2013)
Concordo com a ressalva expressa nesta coluna mas também tenho a convicção que apesar de tudo nos dias que correm os espectadores de televisão têm uma visão mais complexa da realidade e que a correspondência entre os factos e a ficção não tem repercussões tão preto no branco. O espectador pode chorar com a morte da personagem mas não faz uma correspondência entre esta e o criminoso real. Para isso existem as pesquisas e são até as várias personagens que nos levam a essas informações que desconhecíamos. O trabalho do espectador é activo e, no caso destas séries baseadas em eventos reais, complementar. A morte de Chili no ecrã ou, por exemplo, a decadência dos momentos finais de Escobar são ambivalentes e muito distantes da realidade. Nós sabemos isso. O que estamos a assistir é à morte de personagens que acompanhámos ao longo de vários episódios e a relação destas com a trama global.
As homenagens desta série aos heróis da história são evidentes, colocaram-se pequenos “videoclips” de tributo às vítimas quando estas vão morrendo (um ministro, um director de jornal, um candidato presidencial, uma jornalista, entre outros). No entanto, até esses excertos de homenagem se podem transformar num melodrama repetitivo. Quase telenovela. Sabemos que cirurgicamente estão lá a cumprir um papel eficaz na narrativa e, como espectadores, podemos desmontar a relação entre heróis e vilões. Considero que não fazemos qualquer confusão do ponto de vista racional, sabemos que Escobar foi um grande canalha, que Chili foi um assassínio. Penso, no entanto, que na actualidade o nosso papel ao interpretar a ficção é muito mais complexo. Ficamos num limbo de reflexões ambíguas, contraditórias que nos ajudam a assentar ideias. Como sugere Jesper Juul no seu último livro The Art of Failure: “we can experience several conflicting emotions at the same time, but the philosophical tradition often assumes that emotions are similar to logical statements, all of which operate on the same level and cannot contradict each other. More recent cognitive theories claim that our emotional system is more fragmented than that. Film theorist Torben Grodal argues that we are activating two parallel brain systems when watching cinema, a “global” system that understands what we are seeing as fictional and a “local” system that has more immediate emotional reactions to what is on-screen” (Juul, 2013: e-book The Art of Failure: II-14).
Não estou totalmente certa que “El que no conoce su historia está condenado a repetirla” pois, infelizmente, as histórias tendem a repetir-se mesmo quando as conhecemos mas uma coisa parece-me evidente conhecer algumas narrativas nunca fez mal a ninguém. E esta é uma daquelas histórias que por tão politicamente surrealista vale mesmo a pena conhecer. A série é “berraca, berraca”, o que na gíria colombiana quer dizer “boa” ou que sobressai de alguma forma, valente, corajosa e desmetida seriam outras possibilidades. Os actores passam o tempo a usar esta expressão a qual confundiu outras latitudes da América Latina, nomeadamente os mexicanos, chilenos e outros. Confunde-se com “verraco” que segundo investiguei no México quer dizer “cerdo”, ou seja, porco.
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