Quatro filmes recentes que vale a pena ver: Promised Land (Gus Van Sant, 2012), No (Pablo Larraín, 2012), Searching for Sugar Man (Malik Bendjelloul, 2012) e Heli (Amat Escalant, 2013).
Já vi duas vezes o último filme de Gus Van Sant, Promised Land, e penso bastante nele. Quando li o livro de Dave Eggers, A Heartbreaking Work of Staggering Genius, em 2000 (note-se que só o ano passado é que este titulo foi traduzido em Portugal o que é, para mim, lamentável), fiquei bastante impressionada pela escrita impiedosa do escritor americano, simultaneamente cómica e dramática, uma mescla de emoções e racionalismo cínico. Na época adorei o livro. Tolstoy começa Anna Karenina com a seguinte frase: “As famílias felizes são todas iguais enquanto que cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” (Anthropy, 2012: (e-book) 107) [Estou a citar a partir do livro de Anna Anthopy, Rise of the Videogame Zinesters: How Freaks, Normals, Amateurs, Dreamers, Drop-outs, Queers, Housewifes and People Like You Are Taking Back an Art Form, que li recentemente]. Ora, a autobiografia de Eggers é profundamente trágica e Eggers escreveu o argumento de Promised Land.
Como sugere John Paterson, no The Guardian (aqui), Gus Van Sant é talvez o último rei do underground. Aprecio o realizador desde sempre essencialmente pela sua capacidade de saltitar entre o circuito independente e o comercial. Para mim uma enorme virtude. Aprecio o experimentalismo de alguns filmes (Restless, Gerry, Elefant, Drugstore Cowboy, My Own Private Idaho) mas também os seus títulos repletos de activismo mainstream como Milk ou Promised Land.
O encontro de Dave Eggers e Gus Van Sant não me podia deixar indiferente. A história do filme é bastante simples, dois empregados de uma empresa de gás vão até uma pequena cidade persuadir os seus habitantes a instalar nesta poços de extracção desse recurso natural. As consequências dessa extracção são imprevisíveis mas ninguém sabe até que ponto. Este thriller, que reflecte sobre as perniciosas e encapotadas práticas das grandes empresas, pareceu-me profundamente humilde e trágico. Humilde porque todos sabemos que a mensagem ambiental pode estar cheia de demagogia cínica. Trágico porque todos também vivemos de alguma forma na actualidade situações em que as desleais práticas corporativistas nos afectam directamente. O dilema de Steve Butler (Matt Damon), pactuar ou não com a deslealdade da empresa para a qual trabalha, é afinal o drama de tantos nós. Nada de novo e, no entanto, tanto a dizer sobre a forma como a mensagem do filme se vai tornando clara. Não vale a pena, como sujeitos manietados, apontar o dedo a ninguém e cada qual saberá afinal de que ponto de vista quer ver a realidade e enfiar a carapuça que melhor lhe serve. “É apenas um emprego”, como tantas vezes refere Sue (Francês McDormand). Como se os empregos fossem apenas empregos. O problema não são só os possíveis malefícios da instalação dos depósitos de gás naquela cidade mas até que ponto é que a corporação é capaz de ir para os instalar por lá.
Seria dispensável colocar a personagem feminina (a professora) tão ao “vento” da moral politicamente correcta do momento. Esse é talvez o lado mais falhado da narrativa. No final, Promised Land é um filme simples, simultaneamente humilde e trágico. Como Dave Eggers e Gus Van Sant.
No, do chileno Pablo Larraín, transporta-nos para o ano de 1988 quando Augusto Pinochet decide fazer um referendo para decidir a sua permanência no poder. A oposição convida um publicitário para fazer a campanha (René Saavedra numa excelente interpretação do mexicano Gael Garcia Bernal) e esta é constantemente escrutinada pelo partido. René vê várias vezes as suas ideias serem enxovalhadas nas reuniões com dirigentes políticos da oposição de Pinochet, no entanto, a sua campanha tem sucesso. O que me pareceu muito curioso neste filme é a dualidade de sentimentos em que acabamos por nos enredar. Por um lado, estamos a assistir à aplicação de estratégias publicitárias populistas puras e duras. Por outro, não podemos deixar de nos sentir satisfeitos por esse populismo ser usado em prol de uma causa que todos desejamos, ou seja, derrubar um ditador. Nesta ambivalência vamos seguindo, com humor, as ideias criativas de René. No leva-nos numa viagem que sabemos tem muitas pontas cheias de gumes mas que queremos que tenha sucesso naquele contexto concreto. Com uma simplicidade enorme, no final, caminhamos por entre a multidão, com René, com a sensação de dever cumprido. Não ao ditador! Yupie. Mas a vida contínua e amanhã as mesmas estratégias publicitárias podem ser usadas em prol de outras causas. Essas menos lícitas. É assim a vida.
Searching for Sugar Man, do realizador sueco Malik Bendjelloul, um documentário que relata algumas tentativas para localizar o músico americano de origem mexicana Sixto Rodriguez. A mitologia pop da época considerava-o morto ou desaparecido. Para alguns tinha-se emulado em palco depois de se regar com gasolina. Para outros tinha-se suicidado. A obra de Rodriguez foi um insucesso de vendas nos EUA, nos anos setenta, mas um enorme êxito na África do Sul. Não desvendo muito mais da história real que tem contornos absolutamente surpreendentes pelo seu lado enigmático. Com momentos hilariantes e ao mesmo tempo de uma nostalgia assinalável o documentário relata de forma muito sóbria as várias tentativas para localizar o artista.
O mistério envolto em duas capas de dois álbuns que pouco venderam na América mas que ao “viajarem” para o continente Africano ganharam vida própria é contado com todos os detalhes possíveis para assim nos confrontarmos com várias perguntas: Como é que isto aconteceu? Como é que um músico com reconhecido talento nos meios musicais se vê privado do seu reconhecimento público? Como é que alguém se pode dedicar a restaurar casas, a trabalhar nas obras, quando tem tanto talento? As perguntas fazem mais sentido do que as possíveis respostas e o próprio Rodriguez se furta a responder a qualquer uma delas. Na sua timidez parece querer dizer-nos que o sucesso lhe teria corroído a vida. É que o mito romântico é muito mais eficiente do que a oca fogueira das vaidades. O músico era tão tímido que não conseguia encarar o público. A idade pacificou-o e os outros? Os outros ficaram-lhe com o dinheiro. Sixto inspirou gerações de pessoas. Poucos o conseguem. Isso sim é só para alguns, com talento. Já aqueles com jeito para ficarem com o dinheiro dos outros proliferam que nem cogumelos (e se fosse só com o dinheiro…). Sixto foi um ícone na luta anti-apartheid.
Heli do mexicano Amat Escalant, que ganhou este ano em Cannes o prémio de melhor realizador, deixa-nos uma sensação de profunda tristeza. O filme transporta-nos directamente para o México profundo. Não se sabe onde, a paisagem é tão incaracterística quanto universal, pode ser em qualquer lado seco e lamacento. Espiamos a vida de uma pobre família do México contemporâneo. A pobreza é endógena. Sabemos que o ciclo é vicioso, as crianças deixam a escola por que têm que trabalhar. No entanto, há sempre como conseguir que o cenário piore. Um episódio que envolve droga pode transformar a luta pela sobrevivência num drama ainda mais pesado. Aí sabemos que estamos no México. Só podia ser no México, onde a corrupção e os compadrios entre militares, polícia e escumalha do narcotráfico retiram às pessoas a sua dignidade. Retiram às crianças a sua infância. Imagens e enquadramentos maravilhosos, uma vaca num charco é “regada” pelo pó da cocaína. Uma senhora faz chá numa sala de tortura onde putos jogam com o sistema Move da Playstation e torturam outros putos. As cortinas que voam por trás de duas crianças adormecidas. O corpo pendurado na ponte. A bota que pressiona a cabeça cheia de sangue. A carrinha negra que confronta Heli com a sua insignificante silhueta de tronco nu. Heli é impotente perante a corrupção, perante a pobreza. É assim o México para aqueles que não têm a sorte de nascer num berço dourado. Um ciclo vicioso.
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