Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013
QUE SORTE PODER VOLTAR A SENTIR O CHEIRO DE SAMPAS (SP)







No final de Agosto, entre dia 27 e 30, estive em São Paulo a participar no IX Seminário Internacional Imagens da Cultura Cultura das Imagens na Universidade de São Paulo, um convite de Arlete dos Santos Petry da USP. Antes de partir para o Brasil fiquei três dias em Lisboa a recuperar da viagem anterior, a partida da Cidade do México, fui um dia à praia, o que me ajudou a vencer as maleitas do jet lag que me dá poucas tréguas, a luz matinal é o melhor remédio para quem viaja da América para a Europa, segundo o painel informativo que tive o prazer de consultar no aeroporto da Cidade do México, um curioso roteiro para ajudar a vencer este problema dos viajantes.

A ideia de voltar a São Paulo, cidade onde vivi em simultâneo com Lisboa durante quatro anos, depois de uma ausência de sete, suava-me estranha. Mal senti o cheiro da cidade, é curioso como sendo um lugar tão esmagador do ponto de vista urbano, com uma densidade de veículos superior à Cidade do México, consegue ter um bom cheiro, um misto de plantas, árvores e qualquer coisa de tropical, algo como um sabonete de leite de coco misturado com bronzeador de praia. Não consigo explicar bem mas algumas vezes ao longo deste anos senti este aroma e logo o associei ao Brasil. Também o senti em outras cidades e praias brasileiras. É único e lá estava para me receber de volta, mesmo na cidade. Confirmei que não se consegue descrever mas está lá e contrasta com o cheiro de esgoto, fétido de algumas ruas da cidade do México. E eu agora muito gosto de DF como ficou aqui e aqui explicado.

No aeroporto fui recebida pelo Eneus Trindade que me encaminhou para um táxi para poder ficar à espera de um Prof. Espanhol que chegava duas horas depois. Conheci-o no dia seguinte, Pedro Hellín Ortuño da Universidade de Múrcia. Na primeira noite fiquei no quarto pois estava estoirada da viagem, num simpático hotel onde me instalaram na Avenida Brigadeiro Faria Lima. Pedi uma canja de galinha à moda do Brasil, com cenoura, arroz e frango desfiado, para recordar os tempos de hotel no bairro de Itaim em 2003. Hidratação garantida e preparação para a noite. No dia seguinte Eneus Trindade vinha buscar-nos ao hotel às 8h30 da manhã.







Logo pela manhã, ainda no hotel, conheci o António Vargas da Universidade de Santa Catarina. Juntos, na companhia de Pedro Ortuño e de Eneus Trindade, fomos de carro a caminho da USP. Um dia em cheio de comunicações e debates. Tive finalmente o prazer de conhecer a Arlete dos Santos Petry, a minha anfitriã no encontro, e o seu marido, o Luis Carlos Petry.

Ao almoço conheci pessoalmente a Lúcia Leão, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), cujo trabalho descobri por via do seu livro de cartografia e mapeamento dinâmico que encontrei, por acaso, numa livraria da cidade quando, na década passada, investiguei o tema. À tarde ouvi as sessões do primeiro grupo de trabalho em Cultura Digital, Comunidades Virtuais e Jogos Digitais. Entretanto chegou a Lynn Alves, que foi um prazer rever, e que conheci também pessoalmente depois de ter explorado o seu livro sobre jogos e violência. À noite jantámos todos numa agradável pizzaria da Vila Madalena. Viajamos pelos lugares que conhecíamos no Brasil, Portugal e Espanha e a conversa fluiu numa rede de referências sobre a cultura latina.

No dia seguinte fiz a minha comunicação com o título “Experiência Transmedia e a Indústria de jogos independentes (indie): o “renascimento” de expressões artísticas e visuais do tipo “old school”. Algumas pessoas da assistência disseram-me que tinham gostado e parte do trabalho estava cumprido. O António Vargas, a Arlete Petry e o José da Silva Ribeiro, da Universidade Aberta do Porto, que conheci nesse dia ao almoço, disseram-me que tinham gostado da comunicação e o interesse foi recompensador. À tarde coordenei a sessão do primeiro grupo de trabalho em Cultura Digital, Comunidades Virtuais e Jogos Digitais onde se apresentaram comunicações interessantes das quais saliento o trabalho de investigação à volta do conceito de círculo mágico de Arlete Petry, a apresentação sobre o controlo da visibilidade do espaço escolar no caso “Diário de Classe”, de uma criança de nove anos que a partir do facebook denunciou os graves problemas da sua escola, de Ivan Paganotti, ambas da USP e, finalmente, uma proposta de um jogo metafísico “A Ilha dos Mortos” do colectivo Hieronnymus Friedrich Von Worms da PUC.

Ao final da tarde, na companhia de Pedro Ortuño e Eneus Trindade, fomos comer casquinhas de siri e bolinhos de bacalhau e beber chopps à esquina carioca, Pirajá, na Brigadeiro Faria Lima, perto do hotel onde estava instalada. O estado de espírito era animado pelo feedback positivo e pela boa disposição geral. Nessa noite o deficit de sono acentuou-se e sem pregar olho estava mal preparada para embarcar numa viagem em direcção ao velho continente.







No dia seguinte deambulei pelas ruas da Avenida Brigadeiro Faria Lima durante duas horas, estava um sol radioso e pude rever os espaços comerciais daquela área da cidade. À tarde tinha encontro marcado com o Senhor Jaime que me levaria ao aeroporto com umas seis horas de antecedência, uma vez que era sexta-feira e o trânsito de São Paulo é ainda mais alucinante neste dia. O Senhor Jaime, um indivíduo de ascendência japonesa agendado pela Arlete Petry, apareceu pontualmente ou mesmo antes da hora marcada e durante mais de uma hora e meia contou-me as suas tropelias de assaltos em São Paulo. Tinha trabalhado para uma empresa de cigarros e fora assaltado cinco vezes. No seu táxi somavam-se mais duas. As estratégias que tinha aprendido ao serviço da tabaqueira tinham servido para apaziguar a maior violência dentro do táxi e com um acentuado sangue frio tinha sobrevivido sem grandes “arranhões”. Disse-me que São Paulo estava pior pois os assaltantes agora matavam sem escrúpulos o que antes não era tão frequente. Perdi o sono com as narrativas empolgadas do Senhor Jaime, muito simpático, e cheguei ao aeroporto quase “fresca” mas a ideia de esperar até ao voo das dez e meia da noite, quando eram apenas sete horas da tarde, deixou-me K.O. Andei pelo aeroporto como um zombie a tentar não me encostar a nenhum lado, com medo de adormecer profundamente. Acumulava um ping pong de continentes, América-Europa-America-Europa, tudo no espaço de uma semana. Tinha sono, frio e uma vontade enorme de chegar a casa. Estava longe de casa há seis meses e agora o regresso parecia estranho. Intuía que o país continuava sequestrado pela angústia e pela falta de perspectivas futuras. Restava-me a praia e o sol do término do Verão para me curar os males de sono e outros.

Obrigada Arlete Petry e Eneus Trindade pelo convite, acolhimento e simpatia mas também por me fazerem voltar a ver São Paulo. Até breve. Que sorte foi poder voltar a sentir o cheiro de Sampas.




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