Sábado, 12 de Agosto de 2006
MEDIA HOT E COLD + CULTURA DA CONVERGÊNCIA
sumo.jpg

No seguimento de um combate empenhado no post “A arte mora ao lado, territórios e convergências“. De um pedido do dr Bakali: “será possível abrir uma nova thread com a questão dos media hot e cool [parece que sempre é cold, hehehe]?” para estimular o debate entre fronteiras e oceanos: “ocorrem-me em revista debates, países: Lisboa, Paris, S. Paulo, o mundo! (Cesário Verde, lol)”. Em resposta às espirituosas intervenções do Raf e às suas intuições: “Nesse sentido, a intuição de Neil Gaiman (in American Gods) parece-me luminosa: jogamos para perder e nunca para ganhar;” ou a “violência do jogo está bem patente nos comportamentos compulsivos.” E porque hoje entrou mais um jogador em campo sugerindo novos estímulos: “Ia apenas deixar-vos uma nota relativamente ao livro do Jenkins, o “Convergence Culture - Where Old and New Media Collide”, que saiu este mês, julgo que na senda da discussão da Remediation e McLuhan, este livro poderá trazer mais algumas achas”. Aqui fica mais um lugar para ampliar a discussão que se tem vindo a desenrolar à volta destes assuntos. Esperemos que o “combate” de titãs se faça também no feminino, hehehe.


De nzagalo a 24 de Agosto de 2006 às 02:45
Sei que a discussão, já atravessou vários planos, desde que por aqui passei a última vez. Mas como tinha isto aqui guardado no e-mail, e estou com acesso net limitado à lobby do hotel, cá vai.

@ Rafgouv
Se a tua definição de “clássico” se prende com a narrativização, então não lhe chames “clássico”, chama-lhe simplesmente “cinema narrativo”. O cinema “clássico” pode representar uma miríade de diferentes épocas, grupos de realizadores, estilos de interpretação, formas, tecnologias, etc. Por isso tive o cuidado de colocar o Hollywood, para verificar a que tipo de classicismo te referias. Este é apenas mais um dos grandes problemas da teoria fílmica, a falta de consonância ao nível da categorização porque esta se prende com as referências que se usam. Para além das várias correntes que tentaram introduzir-se na teoria fílmica, existe um grande clash entre quem vê o cinema de um prisma teórico francês ou para quem o vê de um prisma anglo-saxónico.

Chaplin e Tarkovsky?! Não vejo a relação. A base de Chaplin era linguagem visual do corpo, já Tarkovsky socorre-se muito mais da “sugestão”, do que não é mostrado. Chaplin é completamente narrativo, Tarkovsky muito mais experimentalista.

A grande diferença entre o Barney e Welles, é que um usa o Cinema como Arte e logo o seu modo de representação narrativo pré-convencionado, usando para isso todos os meios fílmicos à disposição: historia, narrativa, forma e estilo. O outro usa o Cinema como Medium de transmissão das suas ideias subjectivas não se submetendo a qualquer modo pré-convencionado. Nesse sentido, e olhando para o Cinema como uma arte e não um canal de transmissão, Welles foi um cineasta, Barney não. A obra de Barney não precisa do Cinema para existir, já o Welles só pode existir num contexto de contrato fílmico entre a audiência e o autor. Welles usou o cinema, para o subverter de forma a poder inovar, assim como Godard.

Quanto à profundidade de campo, aconselho um revisitar a Citizen Kane. As objectivas utilizadas neste filme não existiam antes, foram criadas para este filme especificamente. De modo que a profundidade de campo aqui em questão tem pouco a ver com a do expressionismo alemão. Citizen Kane é o mais puro objecto de cinema narrativo, dito clássico, no sentido em que foi capaz de colocar tudo, inclusive a tecnologia, ao serviço da Representação (narrativa + forma + estilo). Não é por acaso que é à décadas considerado o filme mais importante da curta historia do cinema.

As experiências sensoriais de que falas, são extremamente importantes. Contudo elas são um efeito da construção “Poética” (segundo Aristóteles) de imagens e sons. Isto não é ser redutor. È necessário distinguir dois planos: o autor e a audiência. Ou seja não podemos analisar as respostas da audiência com os mesmos modelos de análise do trabalho do autor. O autor modela, sempre, a resposta do receptor por via da imagem e som. Para perceber o trabalho do autor, tenho de perceber os elementos que este trabalha e com que fins. Ou seja, usa a imagem e o som para um fim, uma determinada resposta sensorial. E para isso, pode usar qualquer efeito de montagem ou plano-sequência, a sua força não se mede pela impressão visual, mas pela sua capacidade de representação da ideia, ou seja pela sua capacidade de estimular na audiência a resposta emocional e cognitiva necessárias.
>>>“A poética clássica de que falo exclui a manipulação sensorial.”
De onde vêm esta Poética? Não é Aristóteles o percursor da Catarse, definida claramente em a “Poética”?

>>>“Quando falo de “pureza” do cinema clássico é sobretudo em relação à questão da manipulação que acabo de referir. O cinema “maneirista” por seu lado é manipulador no sentido em que submete a narração/poética à forma, ao virtuosismo…”

De que forma é que um filme “maneirista” é mais manipulador que um “clássico”, seguindo as tuas definições? O que é então, a arte de contar uma historia, se não a arte de manipular experiências emocionais.

>>> O termo “maneirista” provém aliás da pintura romântica do século XIX e diz respeito à actualização virtuosa de um universo pictural “clássico”.

O cinema, é de todas as artes aquela que mais depende de tecnologia e desse modo dos avanços que esta lhe proporciona, Assim, é impossível negar o seu peso tanto na forma como no próprio conteúdo (basta ver a evolução do cinema mudo para o cinema sonoro).
Relativamente ao formalismo russo (fílmico) a sua base era a montagem, e é clara a sua influencia, mas o cinema (dito maneirista) não é só montagem: temos a narrativa que é assumida como máxima. E a máxima aqui vale pela velha deixa de Mamet sobre o Cinema (narrativo), em que a literatura é a arte de “dizer” (tell) ao passo que o cinema é a arte de mostrar (Show). Aqui acrescento que os videjogos vão mais longe ao levarem a narrativa até à arte do fazer (do) e por isso a sua “possível” grande importância na área pedagógica. Mas para além disso, temos a interpretação dos actores e sua direcção, a mise-en-scene, a iluminação, a fotografia, os cenários, o guarda-roupa, os efeitos visuais e sonoros, a música, etc. Cada um destes elementos contribuirá significativamente para a criação da experiência emocional final desejada pelo autor, se o receptor o permitir.

O factor “to show”, responde ao que denominas de ver um filme de “olhos arregalados”. Grande parte do engenho de um cineasta e muitas vezes até mais do argumentista, passa pela capacidade de transformar ideias em imagens. Não basta ter-se grandes ideias e dissertar sobre elas. Fazer cinema, passa pela capacidade de expressar essas ideias de modo visual e sonoro. È muito mais fácil pegar num actor e colocá-lo a debitar deixas de texto profundamente filosófico para a câmara do que transformar esse pensamento em imagem. (Oliveira – Wachowski)

>>>Os cineastas “maneiristas” distinguem-se pela pesquisa estilística… A título de exemplo: os néo-realistas ou o “cinema-vérité” utilizavam a câmara ao ombro para se aproximarem daquilo que filmavam, enquanto em muito cinema contemporâneo (e inclusivamente no cinema-espectáculo de Hollywood), a câmara ao ombro é uma figura de estilo destinada a causar um efeito realista…

Na tua comparação, não vejo qualquer antítese, ambas usam a câmara ao ombro para aumentar a sensação de realismo no espectador. Correcto? E depois alegar uma necessidade como estado de pureza, face a um pensar sobre a forma e perceber o modo de a inovar ao serviço de uma representação mais eficaz, parece-me algo bastante forçado e aqui sim altamente redutor. O cinema neo-realista, pretendia quebrar muitos tabus do cinema dito clássico no entanto, para os quebrar foi obrigado a criar outros. À semelhança desse movimento, temos o Dogma, que acabou por ter o mesmo destino. No fundo dizer, que um filme neo-realista ou dogma é mais realista do que um filme de Hollywood contemporâneo é pura falácia.

Comparar autores consagrados da história cinematográfica a blocos de filmes actuais é de certa forma injusto. Nem todos, foram ou podem ser Godard, Ford, Rosselini, Visconti, Fellini, etc., no tempo de cada um existiram centenas de outros que nada de relevante fizeram. Mas estes estarão sempre ligados pela linha de evolução artística da arte cinematográfica a tantos outros contemporâneos como Scorcese, Coppola, Allen, Spielberg, Jarmusch ou Fincher. Ao passo que a arte de Barney está numa outra linha em paralelo que se aproxima mais da Vídeo Art de Bill Viola e Nam June Paik.

O que quis dizer, relativamente à comparação Barney – Scorcese, foi que eles eram incomparáveis. Usam apenas o mesmo médium, não partilhando qualquer outra afinidade. Daí, criticar a altivez do curador (classe de críticos de arte) ao pretender compará-los. Para mim é o mesmo que tentar criar um modelo de análise que consiga decifrar todo o género de videojogos, desde o Tetris, Flight Simulator, Gran Turismo, PES, Sims, Doom ou Dreamfall. Objectos que podem ser colocados debaixo do mesmo guarda-chuva mas que são tão diferentes entre si que as comparações se tornam impossíveis.

>>>“inovação videográfica que é a “pausa” (cf. utilização de ralentis ou de acelerações…).”
Isto não é inovação videográfica. Méliès fazia isto há dois séculos atrás.



@Mouse

>>>uma com artistas digitais e outra com artistas e designers de jogos. Um discurso era pretensioso, o outro era vivo.

É exactamente o que penso. Em relação ao cinema, esta continua ainda hoje a ser vista como uma arte menor pelos meandros da Arte. O que não acarreta nada em favor do futuro dos videojogos como arte.

>>>>Para mim é a estética do medium que temos que averiguar (como técnica, como dispositivo da experiência fenomenológica).

Sim. Mas no meu caso, diria antes, da experiência cognitiva :-)

>>>Em termos perceptivos não vejo diferença (genericamente falando) entre o que se passa em termos motores e sensoriais na consola, na arcada e no computador... o filme saltita em termos de cópia mas mesmo em formato diferente o filme como experiência é sempre mais ou menos equivalente, com algumas nuances, claro.

Completamente de acordo. Continuo a achar imensa piada à leitura de discussões sobre o que diferencia o “Computer Game” e o “Vídeo Game”. E a ouvir discussões de café relativamente às enormes diferenças que existem entre ver um filme na sala de cinema ou ver em casa.


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