Sexta-feira, 25 de Agosto de 2006
MEDIA HOT AND COLD_TAKE 2
sumo11.jpg

As últimas semanas têm sido agitadas aqui na mouselândia. O post sobre Multitarefas gerou comentários que se podem estender a outros posts (Cris e Nzagalo) e a sugestão de se criarem workshops sobre as matérias em debate (Ncalvin). O combate de titãs tem vindo a adquirir contornos emergentes.

Muito se falou sobre cinema e a forma como estudos comparativos nos podem ajudar a perceber o que passa hoje com os jogos electrónicos. Disse o Bakali: “É interessante que tanto se fale de cinema quando o blog (disse-o veemente o Rato) bem como o assunto principal da conversa são os videojogos. E é interessante porque se tratam de duas formas de expressão cultural (evitei dizer “formas de arte”) absolutamente distintas. Certo que provavelmente sou o primeiro a falar de cinema. Isto só prova os nossos limites, a nossa “visão de retrovisor” para fenómenos demasiado próximos e avassaladores. E prova, secundariamente, que cada novo meio absorve os anteriores (como venho, desde o início, insistindo).” Raf introduziu e desenvolveu ideias como cinema clássico e cinema maneirista: “Quando falo de “pureza” do cinema clássico é sobretudo em relação à questão da manipulação que acabo de referir. O cinema “maneirista” por seu lado é manipulador no sentido em que submete a narração/poética à forma, ao virtuosismo… O termo “maneirista” provém aliás da pintura romântica do século XIX e diz respeito à actualização virtuosa de um universo pictural “clássico”. Trata-se por isso de um virtuosismo referencial. O maneirismo cinematográfico tem provavelmente as suas raízes no formalismo russo, mais tardiamente em Leni Rieffenstahl e já nos anos 50 em Kalotozov…” Nzagalo ripostou com novas ideias: “Se a tua definição de “clássico” se prende com a narrativização, então não lhe chames “clássico”, chama-lhe simplesmente “cinema narrativo”. O cinema “clássico” pode representar uma miríade de diferentes épocas, grupos de realizadores, estilos de interpretação, formas, tecnologias, etc. Por isso tive o cuidado de colocar o Hollywood, para verificar a que tipo de classicismo te referias. Este é apenas mais um dos grandes problemas da teoria fílmica, a falta de consonância ao nível da categorização porque esta se prende com as referências que se usam. Para além das várias correntes que tentaram introduzir-se na teoria filmica, existe um grande clash entre quem vê o cinema de um prisma teórico francês ou para quem o vê de um prisma anglo-saxónico.”

A mouselândia decidiu abrir mais um espaço de discussão para estes assuntos e agradece aos três combatentes (o rato é o quarto, claro!) bem como aos espectadores e intervenientes em outros posts (kuja, fada*do*lar) a atenção e empenho dispensados.


11 comentários:
De mouseland a 29 de Agosto de 2006 às 02:15
Olá Nzagalo e Cris,

_nzagalo, :smile:

Acho que a minha pergunta em relação à experiência cognitiva era precisamente para tentar perceber qual o enquadramento e autores que seguias para tentar compreender a utilização dos dois termos (usados em alternativa ou em simultâneo?) Tenho pensado sobre este assunto desde que me chamaste a atenção para a utilização do termo e agora percebo que é em contraponto e não em conjunto. Embora sobre isso também tenha algumas dúvidas que já vais perceber. De certa forma, tenho evitado a aplicação do termo (com cobardia) por não me querer meter demasiado pelas áreas da neurociência, da psicologia e da psiquiatria. Centrando-me, assim, na estética. Só que a estética sempre andou de mãos dadas com as teorias da percepção e da cognição e estas surgem sempre precisamente através da fenomenologia. Muito sucintamente as vou abordar através do "Erro de Descarte" de Damásio e do teu artigo. De resto, será sempre através da mediação filosófica e por parte de biológicos... mas é uma estratégia que poderia ter outros contornos, claro!

Não será a experiência estética uma experiência cognitiva por excelência? Não é a fenomenologia a ciência que estuda as elaborações espaciais do corpo próprio? Em que o ser humano é compreendido como apreendendo o mundo através do corpo? No final eu acho que as direcções são semelhantes...

Gosto imenso do Gombrich e muito tem sido revisitado nos dias que correm em matéria da ilusão. Deixei-o, no entanto, associado ao curso das belas artes e bem gostaria de reler "Arte e Ilusão" que é um livro fundamental sobre o efeito ilusionístico da Arte.

David Bordwell nunca li senão algumas citações de outros autores. Tenho pena. É um outro mundo de investigação que um dia vou gostar de explorar.

Que te parece da inserção do ciberfeminismo na discussão em curso? Os jogadores em campo é que vão decidir se aceitam um novo elemento feminino na discussão. :razz: Diz de tua justiça.


_ cris :smile:

Acho que podemos tentar infiltrar matérias sobre o ciberfeminismo nesta discussão até porque pelo que citas esses senhores e senhoras que o público cita estão assustadoramente desinformado(a)s sobre a matéria... ciberfeminismo estritamente conectado com o feminismo é no mínimo hilariante... em 2006 ouvir esses relatos sobre a temática é de pôr os cabelos em pé. Nem há dez anos na Católica do Porto os meus professores tinham esse posicionamente sobre o ciberfeminismo e estudos de género... god fiquei arrepiada!

Realmente acho que essa matéria vai dar pano para mangas para o Raf explorar e se o bakali decidir aparecer também vai apreciar debater o assunto, parece-me. Posso depois abrir outro post explicitamente sobre a matéria para enriquecer o canal ciberfeminismo. Estou curiosa em relação a Natalie Angier aliás penso que o Raf já me tinha falado sobre ela ou mandado um artigo mas não estou certa... até acabar a tese infelizmente não a vou poder ler... tu sabes... sniff... no fun... sniff. :sad:

xxx rato


De rafgouv a 29 de Agosto de 2006 às 08:54
nzagalo,

Não tenho objecção nenhuma ao conteúdo do teu último post do ponto de vista da teoria da "comunicação" (o contrato entre "autor" e espectador) ou da percepção (a óptica)... A única coisa que me incomoda (e que dificulta a comunicação entre ambos) é que te colocas claramente numa perspectiva acrítica (e daí, parece-me, a recusa de comparar Scorsese a Barney, por exemplo) enquanto o que me interessa é o cinema e a crítica (que não vejo como uma ciência exacta)...

Good luck, até breve!!!


De Morgan Spurlock a 29 de Agosto de 2006 às 12:41
Did you know Pepsi and Coca Cola are forbidden in India? Thousands of innocent people are dying from the poisonous pesticides used by these 2 brands.
Sumo wrestling is a traditional healthy martial art and should not be associated with evil. Drinking Pepsi may turn you into a fat ass but it won't turn you into a sumo champion!
EVIL IS UNHEALTHY!!!


De mouseland a 29 de Agosto de 2006 às 15:47
Hi Morgan!

You are right it's really dangerous stuff. I don't drink any of this poison... but from an aesthetic point of view the label is so charming that I couldn't resist the semiotic association of sumo and pepsi... really sorry! I'm a brand victim but not a sugar pepsi one!:evil::evil::evil:

XX rato


De mouseland a 30 de Agosto de 2006 às 17:26
Olá a todos,

Queria deixar-vos aqui um texto de Henry Jenkins "MONSTROUS BEAUTY AND MUTANT AESTHETICS: RETHINKING MATTHEW BARNEY'S RELATIONSHIP TO THE HORROR GENRE" Uma proposta de ampliação à volta de assuntos discutidos anteriormente. Achei o texto muito interessante na medida em que insiste bastante na influência das artes populares na arte avant-garde, hehehehe e vice-versa, claro!

http://web.mit.edu/cms/People/henry3/horror.html

XXX rato


De rafgouv a 31 de Agosto de 2006 às 10:07
Muito interessante de facto o artigo de Jenkins que reafirma a filiação de Barney ao cinema "clássico" (incluindo, entre muitas outras referências, os surrealistas e os cineastas do burlesco/ slapstick...).

Para uma abordagem mais lúdica de toda esta temática aconselho (muito) vivamente a leitura da obra-prima de Theodore Roszak - Flicker:

http://www.amazon.com/Flicker-A-Novel-Theodore/dp/155652577X/sr=8-1/qid=1157015292/ref=pd_bbs_1/002-9450350-3100834?ie=UTF8

Este romance, cuja adaptação este (ainda está) prevista por Darren Aronofsky e/ou David Fincher, é uma mina!!!


De mouseland a 31 de Agosto de 2006 às 15:37
Raf,

Tu és alucinante... Jenkins acima de tudo afirma neste texto a filiação de Barney à cultura popular (filmes de terror, musicais, passando pelo heavy metal, pela opera e pelos jogos electrónicos), afirma a filiação de Barney a uma estética que cruza géneros e épocas, não do tipo pós-moderno (pastiche) mas do tipo estético, i. e., a forma como os acontecimentos se desenrolam no espaço encenado. Parece-me uma deturpação da terminologia usada pelo Jenkins esta tua afirmação. A qual não deixo de achar piada. Acho que já nos familiarizámos com esse teu estilo que se explicita por um sacrificar de um certo rigor da terminologia por vias mais criativas mas, sorry, neste caso a argumentação do Jenkins é mesmo "cross genre" nas "lively arts"!:grin::lol::razz::cool:

xx rato


De mouseland a 31 de Agosto de 2006 às 15:50
hello Raf,

Chamo a atenção para as considerações do Nzagalo sobre as possíveis inúmeras definições sobre cinema clássico que me parecem sem dúvida pertinentes. Acho que devemos ser precisos quando usamos determinada terminologia senão as conversas não evoluem por detalhes e filiações confusas mesmo que o efeito criativo seja mais sinuoso. Opiniões!

xx rato:mrgreen:


De rafgouv a 1 de Setembro de 2006 às 09:16
Mil perdões mas existe uma "definição" perfeitamente consensual de cinema clássico... Trata-se do período cinematográfico que se estende até finais dos anos 50 e que corresponde como disse nzagalo ao período áureo dos estúdios de Hollywood.

A data de finais dos anos 50 corresponde a diversos acontecimentos importantes que vieram "assassinar" o cinema "clássico":

- início das emissões diárias de televisão
- desenvolvimento de novo material mais portátil que permite a generalização dos home-movies e também o aparecimento da nova vaga

Introduzí apenas 2 pontos discordantes em relação a essa definição perfeitamente consensual:

a) se o período do cinema clássico corresponde com o período áureo do studio-system ele inclui também obras realizadas fora dos estúdios de Hollywood (ou noutros estúdios - sobretudo na Alemanha e na Itália: os cineastas do néo-realismo trabalharam quase todos - Rosselini, De Sica - nos estúdios mussolinianos)...
b) na minha opinião (e apenas isto é mais pessoal e menos consensual), a nova vaga, nos seus primórdios, faz ainda parte integrante do cinema clássico...

Quando Jenkins diz que o Barney não é pós-moderno, está a dizer exactamente o mesmo (é certo com outras palavras mas penso sinceramente que não com mais "rigor terminológico") que eu dizia quando afirmei que não se tratava de um cineasta "maneirista"... Understand?????????

Além disso Jenkins cita dezenas de nomes que pertencem indiscutivelmente ao tal período do cinema clássico mas cita também outros (Bava, Argento, Cronenberg) que não fazem parte do mesmo período.

De qualquer forma nem tu nem nzagalo nem ninguém são obrigados a estar de acordo nem comigo nem com o jenkins. Isto não é ciência exacta!!

Divirtam-se!


De mouseland a 16 de Setembro de 2006 às 00:32
Bem parece que mais ninguém quis continuar a discussão :roll::roll: ... se não aparecerem mais comments daremos por encerrado este debate/workshop de verão!

xxx rato:roll::roll:


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