Segunda-feira, 11 de Setembro de 2006
ROLE PLAYING EGAS_ Upgrade! International, em Oklahoma City_30.11.06 a 5.12.06

Role Playing Egas is a non-linear narrative about madness, leucotomy, desire and women. It’s a play about Egas Moniz character and the problematic web of political influence that led his creative mind to came up with fantastic ideas: angiography (the x-ray study of the blood vessels) and some more dramatic ones like leucotomy (brain operation used in the 1940s and 1950s to treat severe psychotic or depressive illness that left patients dull and apathetic); Egas should have won the medicine Nobel prize when he discovered angiography in 1927! The player can manipulate five different narratives, where madness has a key role, inspired by Egas biography and four movies: Suddenly last Summer, Lilith, Frances and Cuckoo’s Nest.
Role Playing Egas relaciona-se em termos conceptuais com a obra de Egas Moniz e pretende averiguar as condições criativas que levaram à atribuição do único Nobel português da ciência pela academia sueca. A história relatada por António Fernando Cascais em “A cabeça entre as mãos: Egas Moniz e o Prémio Nobel[1]” é um documento que nos ajuda a questionar o papel da tecnologia na elaboração de descobertas ou intuições geniais: “As personalidades geniais não necessitam, para realizar as suas descobertas de grandes recursos materiais ou de equipas bem adestradas, dado que logram, mercê do talento e do poder da criatividade, suprir todas as deficiências do meio em que vivem, recorrendo à improvisação. Assim sucedeu ao grande Egas Moniz que, muito embora dispusesse apenas de aparelhagem deficiente e obsoleta, muito aquém daquela ao alcance dos colegas dos grandes centros científicos do mundo, logrou obter resultados jamais alcançados anteriormente, facto que encarece ainda mais o valor das suas descobertas” (A. Pacheco e Silva citado por Cascais, 2001; 298-99).
Para
António Fernando Cascais não é possível explicar o caso Egas Moniz apenas através da sua genialidade mas temos que recorrer a uma análise histórica concertada que envolve a histórica da psicocirúrgia na Europa e nos Estados Unidos. A leucotomia, inventada por Egas Moniz, é premiada pela academia e posteriormente bastante contestada pela comunidade científica. Esta comunidade considera que a academia sueca premiou Egas Moniz por esta descoberta quando o deveria ter feito pela angiografia[2]. O grande sucesso da
leucotomia[3] de Egas Moniz nos Estados Unidos está associado às grandes guerras mundiais e à necessidade de devolver os doentes à sociedade. Os hospitais repletos de veteranos de guerra com perturbações psiquiátricas adoptam a técnica sem que esta tenha sido devidamente testada e por considerarem, na época, Egas Moniz como um nome incontornável da neurologia mundial devido à descoberta da angiografia. A lobotomia acaba por ser uma técnica operatória colocada ao serviço da política e da sociedade. O próprio Egas Moniz é até aos cinquenta e cinco anos um político a quem são dados cargos hospitalares e doentes operáveis por via política e não científica.
No cinema filmes como
Subitamente no Verão Passado de Joseph L. Mankiewicz (1959),
Voando sobre um ninho de cucos de Milos Forman (1975) e
Frances de Graeme Clifford (1982), retratam a teia de cumplicidades entre as famílias, a comunidade médica e a sociedade em geral no processo que levava à lobotomização das pessoas de algum modo indesejáveis (Cascais, 2001; 337). Acrescentamos a trágica personagem de
Lilith e o seu destino de Robert Rossen.
O processo de legitimação internacional da obra de Egas Moniz representa um exemplo ímpar na aceitação da investigação portuguesa no estrangeiro. O neurologista consegue por via das suas relações pessoais em França, Alemanha e Estados Unidos ver o seu trabalho publicado e divulgado no caso da angiografia e aceite sem reservas no caso da leucotomia/lobotomia. A academia sueca premeia tardiamente o trabalho e a investigação de Egas Moniz em Agosto de 1949. O médico é premiado pela leucotomia e não pela descoberta da angiografia em 1927.
Role Playing Egas é uma aplicação flash que recombina em termos visuais imagens dos filmes anteriormente mencionados, excertos de entrevistas recolhidas a testemunhos de
António Fernando Cascais, investigador na área das ciências da comunicação que dedicou grande parte do seu trabalho à compreensão do caso Egas Moniz no âmbito da utilização tecnológica versus criatividade. Excertos de pedaços de texto sobre a história de Egas Moniz, composições visuais e sonoras. Um mapa interactivo do cérebro que despoleta uma cacofonia de sons à maneira dos visitantes da praia de
Subitamente no Verão Passado. Um espaço aberto, um mapa cerebral configurativo. Porque a criatividade é técnica, política e génio.
Role Playing Egas vai estar presente no
Upgrade! International, em Oklahoma City de 30 de Novembro a 5 de Dezembro, uma selecção de Luís Silva responsável pelo
The Upgrade! Lisbon. Na mouselândia pensámos iniciar uma discussão sobre a personalidade ímpar de Egas Moniz depois de um contacto de Ricardo Reis dos Santos, investigador da
Secção de História e Filosofia das Ciências do
Centro de Estudos de História das Ciências Naturais e da Saúde do
Instituto Rocha Cabral. Em termos artísticos o “caso” Egas Moniz tem sido votado ao esquecimento e o único documentário que conhecemos é espanhol (
Monos como Becky de Joaquim Jordá e Nuria Villazán). No intuito de divulgar a obra de um dos casos mais criativos da história portuguesa aqui abrimos um lugar de debate.
[1] In
Enteados de Galileu? A semiperiferia no sistema mundial da ciência (2001), organizado por João Arriscado Nunes e Maria Eduarda Gonçalves. A sociedade portuguesa perante os desafios da globalização (5). Direcção de Boaventura Sousa Santos. Edições Afrontamento, Porto.
[2] "A angiografia cerebral permitiu a visualização das artérias e das veias e do sistema nervoso, até então só possível no cadáver. (...) na origem da angiografia, que não é outra coisa senão a visualização radiológica do sistema vascular do cérebro, [está a vontade] de criar “um método de visibilidade vascular para a localização de tumores cerebrais, que haviam, pensava eu, de perturbar a arquitectura normal da arteriografia cerebral” (Egas Moniz citado por Cascais, 2001; 304). A ideia que está na origem da técnica angiográfica é, no fundo, de grande simplicidade: Egas Moniz pensou que sendo os hemisférios cerebrais abundantemente vascularizados, qualquer tumor neles existente deveria, com grandes probabilidades, originar deslocações consideráveis em certos sectores do sistema arterial, de maneira que, se se conseguisse tornar este sistema visível aos raios X, por meio da opacificação das artérias do cérebro com um meio de contraste, as referidas deslocações poderiam fornecer uma indicação precisa da sede e tamanho da neo-formação, pelo estudo comparativo com as imagens anatómicas normais" (Ramos citado por Cascais, 2001; 304).
[3] “Distingue Le Beau: “Uma leucotomia é um seccionamento das fibras brancas, variável quanto à extensão ou à profundidade. Uma lobotomia é uma leucotomia alargada a todas as fibras de um lobo frontal no plano transversal”” (Le Beau citado por Cascais, 2001; 336).
De
mouseland a 22 de Setembro de 2006 às 17:56
Olá António e Cris,
A discussão está mesmo a ficar interessante. Eu acho que a questão que o António introduz é pertinente na medida em que de facto sendo parte do programa da Vida Artificial simular a evolução ou o processo da evolução de facto os seus propósitos acabam por ser outros.
Para Thomas S. Ray, um dos proponentes da VA, com formação em biologia, a inteligência digital será muito diferente da inteligência humana e se algum dia for possível construir seres realmente inteligentes eles serão tão aliens para nós que teremos dificuldade em reconhecê-los.
Assim, a Vida Artificial, como disciplina científica que se dedica à criação de organismos e sistemas artificiais que simulem ou manifestem nas suas produções propriedades características dos sistemas vivos, acaba por criar mais aliens do que propriamente clones. Seres lúdicos e estranhos "extraterrestres". Neste sentido, o que se faz é uma arte da vida. O objectivo do seu programa não é tanto analisar a natureza mas fazer uma síntese da vida, uma arte da vida na era da tecnologia, que se define pela simulação e síntese das coisas vivas. A Vida Artificial parte de um ponto de vista materialista e do pressuposto que não há alma, força vital ou essência. Para Christopher Lagton (pai da VA), os organismos vivos não são mais do que máquinas biomédicas complexas e a vida é uma propriedade de organização da matéria, uma estrutura dinâmica, um sistema activo no tempo.
Este aspecto, que introduz nas síntese biológicas uma arte de fazer vida é que torna a problemática tão interessante e ao mesmo tempo tão complexa porque subentende que não existe de facto, nem na capacidade do homem adquirir linguagem, uma especificidade humana. Os proponentes da vida artificial falam de inúmeras formas de comunicação entre animais (expressões faciais, cantos, etc.) e "reduzem" a inteligência àquilo que podemos considerar, como diz a Cris, um conjunto de interacções do organismo com o ambiente. A inteligência não é a mente ou consciência cartesiana mas a capacidade do ser sobreviver no ambiente. Os comportamentos inteligentes insidem essencialmente na acção e criação (a análise da evolução criadora é curiosa porque desmistifica imensas concepções mais conservadoras). A vida artificial consegue, pela proximidade com os sistemas animais (a utilização de substâncias como a ferómona das formigas que promove um corportamento inteligente sem consciência), explicar como determinados comportamentos inteligentes não têm qualquer intenção ou representação central... mas acho que já estou a divagar. Nesse sentido é um mergulho sobre questões como a que a Cris levanta, saber o que faz de nós humanos seres inteligentes... o ênfase da VA reside na cognição animal. Escrevi muito já sobre isto pelo que estou com diviguldade de resumo (síntese??:wink:)...:oops:
“Ao perseguir no seu programa resultados imprevisíveis, sem limites e intenções prévias a arte da Vida Artificial deixa de poder ser interpretada como arte e passa a ser um padrão adaptativo indistinguível das dinâmicas do ambiente (Whitelaw; 2004: 228). Aqui voltamos à pescadinha de rabo na boca. O que faz do programa da VA objecto de arte afasta-o também da arte e devolve-o à dinâmica da Vida... a complexidade destas questões atrapalha-nos sempre porque estamos perante conceitos provenientes de áreas diversas.
Quanto ao ruído e à aleatoriedade dos processos humanos acho que o Virilio tem um livro excelente "Ce qui arrive". Ele tem algumas ingenuidades sobre a ciência, como referiu Sokal nas "Imposturas Intelectuais", mas aponta questões luminosas nomeadamente comissariou uma excelente exposição ("Ce qui arrive" é o catálogo da exposição que esteve na Fundação Cartier) em Paris há 4 anos sobre o acidente. Mas acima de tudo o que te pode interessar (Cris) é o conceito de emergência nos sistemas de VA, parece-me, ou seja, quando a partir de resultados simples aleatórios se adquire maior complexidade e se causam "buracos" no ambiente ou mesmo a questão do ruído na teoria da informação/comunicação que advoga que não precisamos de ter todas as letras de uma frase para compreender as mensagens pois preenchemos os buracos... nos sistemas cibernéticos da VA este aspecto da redundância na informação é bastante importante... tentarei voltar a a ele depois de vos ouvir sobre as minhas divagações de hoje.
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