Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006
BLOODY AGE_UNITED 93
united93.jpg

“Shifts in the paradigm like the attack of 11 September 2001. Paradigm shifts open a window; and, once opened, the window will close. Ayed observes that 11 September was instantly unrepeatable; indeed, the tactic was obsolete by 10am the same morning. Its efficacy lasted for 71 minutes, from 8.46, when American 11 hit the North Tower, to 9.57, and the start of the rebellion on United 93. On United 93, the passengers were told about the new reality by their mobile phones, and they didn't linger long in the old paradigm - the four-day siege on the equatorial tarmac, the diminishing supplies of food and water, the festering toilets, the conditions and demands, the phased release of the children and the women; then the surrender, or the clambering commandos. No, they knew that they weren't on a commercial aircraft, not any longer; they were on a missile. So they rose up. And at 10.03 United 93 came down on its back at 580mph, in Shanksville, Pennsylvania, 20 minutes from the Capitol”. Martin Amis (2006), “The age of horrorism (parte one)” in The Obserser.

Vi ontem o United 93 e não posso deixar de escrever umas linhas sobre o assunto. A realização de Paul Greengrass é, à semelhança de Bloody Sunday, que por coincidência também vi recentemente, um verdadeiro desgaste emocional provocado pelo stress constante das operações no palco da acção. Em ambos os filmes o realizador consegue mostrar claramente a confusão inerente a este tipo de acontecimentos. Em United 93 as caras de estupefacção dos controladores aéreos e militares perante a dimensão dos acontecimentos reais atinge-nos o sistema nervoso pela incapacidade de compreendermos como é que conseguiram ser tão cépticos perante tal acontecimento. Estamos adormecidos, como sempre. Como é tão fácil esquecermos que antes do 11 de Setembro nunca nos teria sido possível pensar que três aviões iam atingir a espinha dorsal da civilização americana. Essa ideia, boa para as conspirações dos filmes de Hollywood (Swordfish é um exemplo), não fazia parte daquilo que nos habituámos a considerar como “real”. Para nós aquelas imagens seriam sempre produto de uma simulação nunca uma coisa real. Como antes do 11 de Setembro a hiperealidade de Jean Baudrillard nos assentava bem pois, como o próprio advogava em Simulacros e Simulação, já não tínhamos capacidade de ilusão porque já não víamos a realidade. Ora, é precisamente essa problemática que cinco anos depois o filme United 93 reintroduz, parece-me, estamos sempre a querer escapar à imposição do real. Nas sociedades ocidentais, antes do 11 de Setembro, as pessoas teriam perdido a capacidade de ver o real? Estaríamos nós (im)preparados para perceber o quanto o real pode ser bastante mais aterrador do que a ficção? Para nós a realidade era mais uma ficção? Estamos de costas para a realidade, ao contrário dos actores dos filmes de Greengrass, que por estarem voltados para a realidade estão de costas para nós? Isto está realmente a acontecer ou é uma mera simulação? A pergunta emocional que muitos fizeram a si próprios quando viram diante dos seus olhos o imprevisível daquele “acidente”… Chamo-lhe acidente no sentido de Virilio, como catástrofe que advém do desenvolvimento tecnológico. Digo-o com a mesma angústia que levou Susan Sontag a criticar Baudrillard em 2003: “Dizer que a realidade se torna num espectáculo é um provincianismo de cortar o fôlego. Dizê-lo é universalizar os hábitos da visão da reduzida população instruída que vive na parte rica do mundo, onde as notícias se converteram em entretenimento – o amadurecido estilo de ver que é uma aquisição primacial do «moderno», e um pré-requisito para o desmantelamento das formas tradicionais da política baseada em partidos que proporcionam real discussão e debate. Assume que todos são espectadores. Insinua, perversamente, ligeiramente, que não há sofrimento real no mundo (Sontag, 2003; 115)”.

United 93 evoca a memória desses momentos em que com um arrepio na espinha nos apercebíamos consternados que para nós a realidade nunca mais seria a mesma. Que a partir daquele dia era melhor encararmos de frente a incapacidade que tínhamos de lidar com esta. A realidade de Nagasaki, de Hiroshima, do Ruanda, do Holocausto… porque o palco seguro das simulações nos ajudava tão bem a escapar da atrocidade desse real. O que incomoda demasiado no filme é percebermos que após cinco anos estamos novamente semi-adormecidos, esquecidos da capacidade da atrocidade nos perseguir. As cenas filmadas relembram-nos que só a memória e o estado de alerta perante o sofrimento dos outros nos pode de facto manter vivos. Como cantam os U2 em sunday bloody sunday: “I cant believe the news today. Oh, I cant close my eyes and make it go away. How long... How long must we sing this song? How long? How long... cause tonight... we can be as one Tonight... Broken bottles under childrens feet Bodies strewn across the dead end street… “
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8 comentários:
De migalha a 18 de Setembro de 2006 às 23:03
Que coincidência!! Também vi ontem o United 93. É um filme nervoso, inquietante, que causa um mal-estar permanente no espectador. Muito bem filmado, com constantes variações de ritmo, intercalando cenas menos nervosas com outras de grande suspense e horror. A incredulidade perante a anunciada tragédia, bem reflectida na atitude inicial algo céptica por parte dos controladores aéreos e na displicência incompetente dos militares, talvez se possa explicar pela omnipresente esperança. Esperança que afinal tudo ainda possa vir a correr bem, que tudo não passe de um engano, de um, mau, sonho. Nunca se saberá bem o que se passou nesse fatídico voo mas Paul Greengrass dá-nos uma visão realista e emocionante dessa meia hora de luta pela sobrevivência. E que luta! A não perder...


De rafgouv a 19 de Setembro de 2006 às 12:33
Excelente post!
Só 3 comentários:

- não será too much considerar que as twin towers eram a "espinha dorsal da civilização americana"????

- as palavras de Susan Sontag são extremamente ambíguas... É óbvio que as críticas de Baudrillard se dirigem às sociedades da informação... Por um lado Sontag reconhece que "na parte rica do mundo (...) as notícias se converteram em entretenimento" mas por outro em vez de criticar tal modelo prefere criticar o seu mensageiro...

- as pessoas depois do 11 de Setembro terão readquirido a capacidade para verem o real??? Se pensarmos no negacionismo que aparece em filmes como Loosing Changes parece que não... Por outro lado, o hiperrealismo de United 93 (de que apenas vi alguns longos extractos) parece provar que deixamos de distinguir o real da simulação (a "ficção" como forma de "mergulhar" ainda mais profundamente no real, tal como nos primeiros minutos de Saving Private Ryan).


De mouseland a 19 de Setembro de 2006 às 13:59
Olá Migalha, :lol::smile:

Hum... realmente ainda me arrepio quando penso no filme. Obrigado pelo relato da experiência do filme e pela visita à mouselândia. O ritmo algo frenético e angustiante incomodou-me bastante mas pior é depois daquele testemunho de muitas pessoas que ensaiaram como actores no filme a reprodução dos acontecimentos que presenciaram na realidade (muitos dos intervenientes em United 93 são realmente as pessoas reais que presenciaram os factos) depararmos com teorias que questionam a evidência destes... fico estarrecida.

Olá Raf, :lol::smile:

Sim, talvez um pouco exagerado mas em termos simbólicos acho que são lugares/ícones da civilização ocidental realmente "sagrados" (também exagero!). É discutível mas ver que hoje o buraco das torres é lugar de culto turístico - como visitar a estátua da liberdade - é algo incomodativo. Também eu lá fui espreitar em Março... por isso acho que é a assim uma crítica que também me assenta.

Quanto a Sontag acho que tens razão mas não totalmente. Parte do que ela critica vem precisamente de Baudrillard e por isso acho que ele é responsável pela convicção de que podemos de alguma forma fugir à realidade por via da simulação. Não me parece que o modelo seja esse e acho que é um modelo que assenta bem em relação à televisão mas muito mal em relação à dita sociedade da informação (redes de computadores). A simulação é sempre uma recriação, reconstrução da realidade e nunca apenas uma imitação como Baudrillard advoga denotando a influência platónica do seu pensamento. A simulação é uma teatralização, encenação da realidade que mesmo no caso da TV que tem uma referencialidade ao real escapa deste por via da montagem. Apenas os snuff movies poderiam ter esse estatuto mas mesmo esses normalmente são performativos... Nem acho sequer que alguma vez esse processo de confusão do espectador esteja em causa a não ser na perda a capacidade das imagens nos tocarem verdadeiramente o que Susan Sontag advoga. Não se trata de uma confusão entre realidade e ficção mas antes de um escapismo em que o entretenimento nos amacia o espírito. Esse preconceito em relação ao escapismo do entretenimento também é antigo e nem sei se é possível ainda ser sustentado. A simulação não é imagem que não seja também síntese. É uma imagem de síntese o que a remete para uma categoria diferente. Recentemente numa galeria em NY (Março 2006) Baudrillard quando questionado sobre o que ele é enquanto pessoa (uma vez que já não é real como corpo) responde "que é um simulacro de si próprio". Acho que o senhor também acredita bastante naquilo que prega. E de facto a afirmação que já não acedemos à ilusão porque perdemos a capacidade de ver o real é provinciana. Pergunta lá aos japoneses porque é que preferem a fuga através das simulações em vez da realidade, depois de Hiroshima? Porque são tão dados aos escapismos do Hikikomuri? Talvez porque o real é demasiado difícil...?

Os negacionismos vêm precisamente destas questões. As pessoas perdem a capacidade de confronto com as imagens reais e escolhem formas seguras e sem confronto (united 93 não foi muito visto nos EUA por razões óbvias). É muito mais fácil a fuga completa para a irrealidade, o que faz esse filmito de terceira divisão (loose change),
do que negociações mais profundas sobre realidade e ficção. Como dizes e concordo plenamente a ficção é uma forma bem mais profunda de mergulhar no real, é half-real, mas não há qualquer confusão entre a realidade das misérias do mundo e os espaços assépticos da simulação por computador. Há escapismo e esse escapismo é que deve ser averiguado em confronto com a realidade.

xxx mouse


De rafgouv a 19 de Setembro de 2006 às 16:27
... mas por outro lado "United 93" é também uma simulação que de alguma forma aparece tão ou + real do que alguns "documentários" ou do que o próprio real (na realidade a nossa visão não treme quando nos movimentamos, por exemplo...)... o que queria dizer é também que inegavelmente estes filmes (e o Private Ryan de Spielberg parece-me a esse nível mais honesto porque depois dos primeiros 20 minutos assombrosos não nos deixa de lembrar que estamos no cinema) colocam também a questão das fronteiras entre real e ficção.


De mouseland a 19 de Setembro de 2006 às 16:43
Raf, :lol::lol::lol::lol:

Sem dúvida. Por isso é que falar sobre realismo e hiperealismo é tão complicado. No fundo é um contrasenso porque a representação da realidade é impossível. Se assim não fosse não era uma representação... os dois conceitos auto-excluem-se. Mas o que eu acho que acontece no caso do "United 93" e no caso do "Soldado Ryan" é que porque sabemos que se tratam de tragédias reais no sentido em que aconteceram em termos de factos históricos a simulação no sentido da reconstrução desse momento nunca é confundida pois as simulações pecam sempre em termos sensoriais. À simulação de uma floresta a arder falta o calor, à simulação de um sequestro falta parte da incorporação do corpo nos acontecimentos. Nesse sentido uma simulação será sempre uma síntese dos acontecimentos e nunca os acontecimentos em si. No caso do pseudo realismo o problema é outro, apesar de tudo. Mas o jogo real/simulação é um jogo que está sempre dependente dos espelhos criados pela interpretação.

xxx mouse


De mouseland a 20 de Setembro de 2006 às 15:38
Aqui fica a tradução a partir do francês do artigo "Hollywood paralysé par le trauma visuel du 11 Septembre" de Didier PERON e Emmanuel PONCET que saiu hoje no Liberation. O artigo foi enviado por Raf.:smile::lol::lol::lol:

http://www.liberation.fr/culture/cinema/205550.FR.php

"Tempo suspenso. Havia aquela cena extraordinária no "United 93", na qual os técnicos da torre de controlo geral do espaço aéreo oscilam entre os ecrãs do radar (onde um avião em linha desaparece subitamente em cima de NY) e as imagens da CNN (onde uma das torres é destruída por aquilo que julgamos ser «um avião turístico»). O tempo necessário às duas imagens (radar e tv) colidem num facto duro que não é nem erro técnico nem um exagero da informação-espectáculo. Greengrass filma-o como um tempo suspenso. A tomada do irracional e da incompreensão no contínuo das explicações. Parêntesis horrível e no entanto estranhamente necessário como nos lembra Walter Benjamin (Obras III folio) quando evoca a desvalorização no «decorrer da experiência» num mundo saturado de informações e de comentários imediatos: “cada manhã somos informados das notícias do globo. E portanto ficamos pobres de histórias maravilhosas. De onde vem isto? A razão é que nenhum acontecimento nos pertence mais senão quando impregnado de explicações. Em outros termos: quase mais nada do que acontece não beneficia mais da récita, quase tudo beneficia da informação. É já metade da arte do recital do que preservar explicações uma história durante o processo do seu recital.""


De rafgouv a 20 de Setembro de 2006 às 16:05
Se me permites apenas uma retradução das palavras de Walter Benjamin:

"Todas as manhãs descobrimos as notícias do mundo. E no entanto faltam-nos histórias maravilhosas. Tal deve-se ao facto de nenhum acontecimento nos chegar sem estar impregnado de explicações. Por outras palavras: quase nada do que nos chega facilita a narração, quase tudo serve a informação. Ora, preservar uma história que contamos de explicações é metade da arte de contar."

xxx


De mouseland a 20 de Setembro de 2006 às 16:18
Alô Raf, :lol::lol::lol::lol::lol::oops:

Obrigado. Por isso é que te mandei o e-mail. Andei às voltas com uma possível tradução das palavras do Benjamin. Nada fácil. Assim fica muito melhor! Está outra coisa.

xxx mouse


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