Segunda-feira, 25 de Setembro de 2006
QUANDO A FICÇÃO ENCONTRA A REALIDADE *
neurobiologia.jpg

Saiu esta semana na revista Veja uma entrevista a Roberto Lent da Universidade Federal do Rio de Janeiro que me chamou a atenção particularmente pelo que temos vindo aqui a discutir no post Role Playing Egas. O neurocientista afirma que “o debate sobre a neuroética é até mais vital que o da genética porque envolve a mente humana”. Achei curiosas algumas questões que levanta em relação à utilização de programas de ressonância magnética do cérebro para a elaboração de estatísticas e dados em relação às emoções das audiências em filmes publicitários e outros. Outro sector que parece cada vez mais recorrer às tecnologias biomédicas é a justiça através do mapeamento do cérebro e da mente dos psicopatas. Em matéria de recursos humanos a utilização de informações sobre o cérebro abre um território abrangente de manipulações possíveis: empresas que recrutam pessoas promovendo a imposição de chips no cérebro para assim os empregados ficarem aptos a comandar robots e outro tipo de interfaces. Roberto Lent afirma que o que se passa no belíssimo filme Eternal Sunshine of the Spotless Mind, de Michel Gondry não está nada longe da realidade em matéria de tecnologias aplicadas à mente humana. Neste filme, Joel Barish (Jim Carrey) apaga da sua memória a relação que teve com Clementine Kruczynski (Kate Winslet) pois a lembrança desta e os seus objectos recordam-lhe emoções amargas. Assim, uma empresa pode usar a neuroimagem para fazer uma cirurgia cerebral destinada a proceder ao apagamento das memórias menos agradáveis. Neste contexto, a neuroimagem localiza as regiões do cérebro activadas quando Joel se depara com os objectos que o fazem lembrar-se da sua namorada sendo fácil ao técnico do programa de software apagar essas zonas. Diz-nos Roberto Lent, na entrevista “Não é mais ficção”: “do ponto de vista técnico, nada impede que um centro hospitalar se proponha liberar [libertar] cirurgicamente as pessoas de más lembranças e emoções amargas. Embora não se faça isso sem efeitos colaterais graves, a verdade é que não há nenhuma norma a [esse] respeito”.

”Quando se tem um diagnóstico preciso de uma criança com déficit de atenção e hiperactividade, o remédio é necessário sim. No entanto, há um limite mal definido entre as crianças com esse transtorno e as que são apenas mais rebeldes, mais inquietas, mais críticas, e não propriamente doentes. Pouco se sabe sobre o que separa os doentes dos apenas rebeldes. O rebelde chateia a mãe, chateia o pai, (…) é crítico, (…) se mexe demais. Então, Ritalina nele, e todo o mundo fica feliz. A mensagem que se passa é exactamente essa: você precisa mudar para se adequar. O erro está aí.” (excerto da entrevista “Não é mais ficção” a Roberto Lent na revista Veja de 27 de Setembro de 2006. 

A linha de separação entre a utilização da biotecnologia para fins terapêuticos e para fins cosméticos é ténue pois, como advoga Roberto Lent, múltiplas tecnologias que começaram por ser usadas para fins curativos estão hoje a ser utilizadas para melhorar o desempenho individual. Exemplos evidentes, segundo Lent, são o viagra, o prozac e o botox. Estes medicamentos, criados no âmbito de problemas terapêuticos concretos como melhorar a disfunção sexual, a depressão ou as alterações do tecido muscular da face, são hoje usados em contextos cosméticos (aumentar a performance do indivíduo). Fala-se muito pouco sobre estas questões mas cada vez mais o acesso a algumas tecnologias nos coloca no mundo asséptico de Andrew Nicoll em Gattaca onde aqueles que têm acesso às fabulosas extensões tecnológicas conseguem melhores resultados na vida real. Em Gattaca, Vincent Freeman (Ethan Hawke) é um homem que foi concebido através do amor. Este aspecto, uma coisa normal nos idos anos noventa, coloca-o num cenário futurista em que todos os bebés são manipulados geneticamente, como o seu irmão Anton. Nesta sociedade do futuro, Vincent é considerado um “deficiente”, é fraco, usa óculos e dificilmente pode competir com a estirpe de seres de elite criada através de misturas de genes infalíveis. Apenas a vontade de Vincent, ser geneticamente inferior, lhe permite perfurar o interior da elite através de uma identidade falsa e viver uma história de amor (Irene (Uma Thurman)) vetada à sua estirpe.

* Este post é dedicado ao António no seguimento da sua excelente participação no post Role Playing Egas. Obrigado!
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23 comentários:
De António a 25 de Setembro de 2006 às 12:13
Os agradecimentos pela dedicatória: é a primeira que me fazem num blog. Sinais dos tempos...:grin:
Excelentes informações. Não percebo, contudo, o alcance da ideia de que uma empresa possa decidir apagar memórias mais desagradáveis dos seus funcionários. Com que fim?
Ainda assim, estamos no mundo da especulação. A discussão tem-se mantido algo errante entre as questões da neurocirurgia, genética e vida/inteligência artificial...
No contexto da minha vivência diária, na área em que predominantemente trabalho, a da Saúde Ocupacional, há situações em que a tecnologia que já existe, nomeadamente a nível da genética, pode levar à tentação de a utilizar para seleccionar trabalhadores "mais aptos" ou menos susceptíveis. Especificando, numa determinada indústria, por exemplo, em que se utilizem substâncias químicas com potencial cancerígeno, havendo possibilidade de detectar os que a elas sejam mais susceptíveis, será tentador proceder a essa despistagem. Tentador, sem dúvida, e legítimo, também? Praticaremos, assim, uma certa forma de eugenismo laboral (excluindo os menos aptos de um certo mundo do trabalho). Mas, por outro lado, havendo instrumentos que nos permitam perceber os mais susceptíveis a desenvolver cancro quando expostos, não os deveremos utilizar?
A questão é ainda mais premente quando já se pode detectar, pela análise do genoma, as pessoas que virão a desenvolver uma determinada patologia, invalidante, num futuro próximo. Refiro-me, por exemplo, à chamada "doença dos pezinhos", uma forma de neuropatia periférica, altamente invalidante e fatal, com alguma expressão em Portugal, que se manifesta apenas na idade adulta, altura de maior produtividade. O empregador poderá ser tentado a proceder ao seu despiste, previamente à contratação de um novo trabalhador, por forma a minorar prejuízos futuros, com prolongadas ausências por doença, sobretudo quando se preveja um grande investimento da empresa nesse mesmo colaborador. Aqui já não estamos na ficção. É possível. É desejável?
Não sei se fujo ao(s) tema(s), mas apenas quis demonstrar que esse futuro que muitos julgam próximo já chegou.


De rafgouv a 25 de Setembro de 2006 às 16:28
Penso que não é tanto a nível das empresas que estas questões se colocam mas sobretudo a nível das seguradoras e/ou da segurança social...
A questão da susceptibilidade a tal ou tal outro produto coloca-se talvez para as empresas mas coloca-se primordialmente para os indivíduos. Além disso o "eugenismo laboral" já existe sob as formas mais ou menos científicas de testes de inteligência, habilidade, grafologia, etc., etc.
O que não quer dizer que a questão do eugenismo não se coloque de forma premente e ameaçadora para a totalidade da sociedade.


De mouse a 25 de Setembro de 2006 às 17:13
Olá António, :cool::cool::cool:

No caso especifico do "apagamento" das memórias estava a falar no contexto das próprias pessoas se dirigirem a empresas para esse fim como acontece no filme com a personagem do Jim Carrey. Mas no filme são as pessoas que vão apagar as suas memórias porque querem. Em relação ao "apagamento" das memórias dos funcionários por parte das empresas acho que ainda é algo ficcional aliás há muitos filmes que falam sobre o assunto ("paycheck"; "bourne identity", etc.). Na entrevista da Veja, Roberto Lent, chama a atenção para a utilização de comprimidos para a memória produzidos para doentes com Alzheimer ou outras patologias serem prescritos, por exemplo, a estudantes universitários para estes aumentarem a sua performance intelectual. Um anti-depressivo pode ser usado para prevenir que determinada pessoa sucumba num momento menos apropriado a um esgotamento... eu pessoalmente não tenho nada contra mas realmente é estranha a facilidade com que as coisas passam rapidamente da terapia à "cosmética".

Em relação à utilização que as empresas fazem do cérebro humano o que me pareceu mais estranho foi a questão dos chips para aumentar a precisão dos trabalhadores na forma como lidam com as interfaces (robots e outros)... Qualquer dia incorporamos um chip para jogar determinado videojogo com maior precisão e imersão. Quanto a aspectos de triagem de susceptibilidades em relação a alergias ou células cancerígenas fico com a sensação que é impossível não sermos partidários mas há sempre a abordagem do aspecto determinista do gene que me causa algum arrepio.

No final da quinta série "Six Feet Under" a Brenda decide avançar com o nascimento de um filho potencialmente problemático, penso que foi no seguimento precisamente do teste dos pezinhos mas não tenho a certeza... eu acho que nunca teria coragem para o fazer e não deixo, no entanto, de admirar a atitude. É apenas uma personagem numa série mas dá que pensar... a previsibilidade dos nascimentos e a triagem dos indíviduos é um bocado desconfortável como ideia mas também penso que apenas nos podemos consciencializar da questão e tentar colocar algumas fronteiras...

Olá Raf, :smile::smile::smile:

Existe claro já uma triagem laboral por via das aptidões intelectuais e físicas dos indíviduos mas é precisamente essa consciência que essas coisas não são mais ficção que parece querer fugir-nos. Digo eu! Vi recentemente um filme espanhol em que o argumento é todo baseado numa "dinâmica de grupo" potenciada por uma empresa de selecção de recursos humanos. Através de inúmeros testes de selecção "grupal" os psicólogos da empresa escolhem entre seis ou sete pessoas o indíviduo certo para o lugar. Durante aquela tarde vale tudo menos tirar olhos e eu fico sempre com a sensação que os aspectos analisados são inspirados em estatísticas absolutamente relativas e que o acaso e o acidente são muito pouco levados em consideração. Afinal, em análise o ser humano nunca se comporta da mesma forma que se comporta perante a situação "real" e o que é referência no âmbito da simulação laboral nunca pode ser extrapolado fora deste contexto. Esta é pelo menos a crítica que tem sido feita a muitos testes desta natureza... a verdade é que a personagem do filme de Jim Carrey não esquece a experiência que teve com a amada mesmo depois de lhe terem apagado a memória... em Gattaca quem acaba por provar o máximo da performance é o ser que é deficiente do ponto de vista genético... não é estranho? Sei lá...

XXX mouse


De ana domingues a 26 de Setembro de 2006 às 15:00
Boy aged three buys £9,000 car on internet

http://technology.guardian.co.uk/news/story/0,,1881108,00.html


De mouseland a 26 de Setembro de 2006 às 17:05
Obrigado ana :smile:!

Rapaz prodigio este que com três anos faz encomendas on-line. Recontextualizando no âmbito do post: se os pais soubessem que iam ter um sobredotado antes dele nascer será que tinham ficado apreensivos? hehehe.

xxx mouse


De rafgouv a 27 de Setembro de 2006 às 08:11
O filme espanhol é "O Método" de Marcelo Pineyro? (nesse caso é hispano-argentino).
Por favor não sejas spoiler: Essa de revelar o que se vai passar na 5a época do 6 feet é duma crueldade terrível.
xxx


De mouseland a 27 de Setembro de 2006 às 15:00
Alô Raf,
Que espertinho..! É esse mesmo e de facto é hispano-argentino agora me lembro. Acho que és capaz de gostar do filme acima de tudo é uma produção em que tudo se passa numa sala de uma empresa e onde os jogos montados para aniquilar alguns candidatos vão mostrando o carácter das personagens.

Quanto à Brenda eu sou tão fã da série que não perdi um episódio e nem me passa pela cabeça que alguém tenha perdido um episódio que seja :-)... sorry. Mas não é um detalhe que destrua a narrativa e a emoção experiencial da mesma. Aliás, lembro-me que certa pessoa muito antes de eu ter oportunidade de ver a 5ª série me disse que uma personagem ia morrer!!!! Aguardei até ao final a achar que era uma mentira e afinal provou-se realidade. :cool:
xxx mouse


De rafgouv a 27 de Setembro de 2006 às 16:26
... bastante irónica essa pessoa que te disse que uma personagem ia morrer... numa série em que em todos os episódios há mortos :lol:
xxx


De António a 27 de Setembro de 2006 às 17:29
Mouse
Encontrei esta citação, que me parece encaixar lindamente neste tema que se tem vindo a debater:
"If we had a reliable way to label our toys good and bad, it would be easy to regulate technology wisely. But we can rarely see far enough ahead to know wich road leads to damnation. Whoever concerns himself with big technology, either to push it forward or to stop it, is gambling in human lives". Freeman Dyson, "Disturbing the Universe", 1979


De mouseland a 27 de Setembro de 2006 às 16:43
Ahahaha raf,

Essa pessoa (a qual eu não vou mencionar :wink:) disse-me que uma personagem ia morrer só não posso dizer qual era porque senão tu dizes que eu estrago o evento aos leitores, hehehehe. :lol: Big shot!

xxx mouse


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