Terça-feira, 29 de Maio de 2007
UM ANO DEPOIS…
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A mouselândia faz este mês um ano. Um ano de posts, comments e divagações!


31 DE MAIO, UM DIA “RECHEADO”!
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Duas sugestões para o dia 31 de Maio de 2007. A primeira sugestão é o ciclo "Encontros e Desencontros: Arte e Comunicação" organizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenado pelo Professor José Luís Garcia. Por volta das 18h terá lugar o encontro subordinado ao tema "A arte e as novas estéticas informacionais". Este debate é mediado por Joana Ramalho e contará com a minha presença e a presença de Luís Silva da Galeria Lisboa 20. Neste contexto, serão abordados os novos desafios colocados pelo cruzamento entre a tecnologia e a arte contemporânea. A segunda sugestão que gostava de deixar é a conferência “Reflexões sobre design” a qual infelizmente não posso presenciar por estar “na primeira sugestão”. A conferência terá lugar no Auditório Fernando Lopes-Graça e conta com a participação de La Salete de Sousa (Tipografias), Pedro Silva (Ludologia), Nuno Coelho, Nélio Códices, entre outros.


Segunda-feira, 28 de Maio de 2007
SOFIA OLIVEIRA NA UNIVERSIDADE LUSÓFONA DE LISBOA_25.05.07
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Sofia Oliveira, coordenadora executiva do projecto Atmosferas, esteve na Universidade Lusófona de Lisboa a apresentar o centro ao mestrado de sistemas de comunicação multimédia e aos alunos do quarto ano de cinema e multimédia. O projecto Atmosferas, segundo Rui Trindade, é “um lugar de ensaio no cruzamento de linguagens, entre o domínio das artes, o das ciências e o das tecnologias. Enquanto projecto de intervenção no espaço público, o Atmosferas posiciona-se como um promotor activo de redes de inteligência que sejam capazes de gerar conhecimento e criação. Nesta perspectiva o trabalho do Atmosferas engloba todo o tipo de iniciativas (exposições, workshops, espectáculos, etc.) não se circunscrevendo, portanto, ao on-line mas operando para além dele na busca de ligações relevantes e na procura de comunidades de expressão" (Rui Trindade, 2005).

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O trabalho de Sofia Oliveira neste centro de artes digitais é o de promover uma plataforma de criação e reflexão sobre a componente experimental das novas tecnologias. Neste contexto, opera-se através de um apoio directo aos criadores que podem, em parceria com o centro, ver realizadas algumas das suas ideias. O Atmosferas já produziu vários workshops, lançou um concurso de ideias anual e um magazine sobre a dimensão cultural das novas tecnologias assim como um programa de televisão sobre artes electrónicas em Portugal e uma exposição de netart. A autora comissariou inúmeros projectos on-line e é responsável por uma plataforma de trabalho e reflexão à volta do software processing (comunidade e linguagem de programação visual generativa). Sofia organizou os workshops: “Nextscreen: workshop cinema e internet”, “Processing-Aesthetic Code” com Marius Watz, “Processing - Tudo o que sempre quiseste fazer em FL*** e nunca conseguiste”, com David Pereira, “Processo Sónico” e "Emergent Content Creation Using Simple Genetic Algorithms" ambos com Kim Cascone. Foi correspondente para a área de Digital Arts para um portal espanhol (centrodearte.com) e escreveu regularmente para a revista Flirt sobre Media Arts

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Na Lusófona Sofia Oliveira reflectiu e apresentou alguns trabalhos disponíveis na extensão on-line do projecto Atmosferas. Assim, tivemos oportunidade de visionar “Na floresta” de Patrícia Guerreiro, um jogo de cartas do tipo Magic transformado e recriado no espaço digital. “Find me” de Joana Linda, uma fotonovela sobre objectos “perdidos e achados”. Vimos ainda “A viagem aos jardins mutantes” e as plantas de Pedro Brito, onde podemos espreitar para um jardim onde os malmequeres têm ossos e as espécies são muito bizarras. Ainda mais estranhas do que aquelas existentes nos Açores, fonte de inspiração do autor que criou um ecossistema com um clima que se adapta consoante é noite ou dia. Sofia Oliveira mostrou ainda as máquinas de música (Synesthesia Machines) de Filipe Pais e a extensão para o Firefox, Sketcher, criada por Gonçalo Tavares e produzida pelo centro. Os downloads desta funcionalidade criada e produzida em território nacional foram mais de dez mil e a ferramenta contribui bastante, segundo Sofia, para que hoje o tráfego no site seja 70% internacional e 30% nacional. Os números também reflectem o impacto do projecto Atmosferas na comunidade de apreciadores e seguidores de processing. A assistência tornou o debate bastante interessante e contribuiu para a apresentação de forma expressiva e divertida.


Quinta-feira, 24 de Maio de 2007
COLÓQUIO “TENDÊNCIAS DO ENTRETENIMENTO”_AVEIRO_22.05.07
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O colóquio “Tendências do Entretenimento” que teve lugar na Universidade de Aveiro no dia 22 de Maio foi um espaço interessante de apresentação e debate de inúmeros projectos de investigação na área dos media interactivos. Foram apresentadas sugestões de objectos que podem vir a mudar o rumo do entretenimento e ainda uma aliciante mostra da habitação do futuro. O evento foi bastante bem organizado e nesse sentido gostava de felicitar a empresa Destaforma pela organização do mesmo e realçar a presença do moderador, Ivan Franco, artista digital e actualmente director de computação interactiva na Ydreams, pelo trabalho de síntese e acompanhamento crítico dos oradores.

O painel da manhã começou com a minha comunicação, “Objectos Interactivos que Contam Histórias Inteligentes”, a proposta de um modelo de gamedesign emergente e cooperativo onde a estrutura regrada do jogo encontra a matriz desordenada da brincadeira. A arte da jogabilidade híbrida destes sistemas tem em consideração diferentes formas de apropriação espacio-temporais e experiências de recepção. Seguiu-se, “A Indústria Portuguesa dos Vídeo Jogos”, comunicação proferida por Nelson Calvinho, jornalista e ex-director da revista Mega Score, que apresentou alguns jogos concebidos no mercado nacional fazendo a história da indústria através de alguns aspectos críticos do estado-da-arte no território português. Para o jornalista é óbvio que existem escassos profissionais na área e que estes estão muito mal preparados em termos de gamedesign. A formação foi salientada como uma área fundamental para o desenvolvimento da indústria de jogos em Portugal e Nelson Calvinho mostrou-se chocado com os argumentos (muitas vezes cem páginas lineares) que lia de potenciais criadores. Na comunicação “Tendências dos Jogos para Dispositivos Móveis” Nélio Códices apresentou projectos lúdicos que exploram a transmediação, ou seja, narrativas transmedia que usam diversas plataformas para expandirem o seu universo. Assim, e a título de exemplo, mensagens criptadas em outdoors exteriores podem servir de pistas para a execução de jogos para dispositivos móveis. Foram apresentadas inúmeras demos e exemplos de jogos inovadores do ponto de vista do gamedesign (Spore e Home, entre muitos outros). Debate e pausa para café.

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A comunicação de Nelson Zagalo, “Reprodução de Emoções em Personagens Virtuais”, foi bastante estimulante na medida em que abre pistas não apenas para uma investigação à volta da criação de avatares e NPC’s (personagens com as quais não podemos interagir) que expressem emoções como também introduziu a temática da narrativa no cinema e nos jogos e deixou em aberto um debate sobre a necessidade de reproduzir o toque em ambientes digitais. Fiquei bastante interessada em ler o doutoramento do investigador da Universidade do Minho sobre esta temática! Ana Paiva, do Instituto Superior Técnico e investigadora do Inesc na área dos agentes inteligentes, apresentou “Narrativa Interactiva Digital”, uma viagem à volta da interacção com interfaces tangíveis, isto é, objectos físicos (por exemplo, um boneco de trapos) que permitem uma manipulação directa da personagem digital. Conforme o participante controla os movimentos do boneco físico a representação digital responde em tempo-real no ecrã. Este projecto-piloto será testado em escolas inglesas e alemãs brevemente. “O Som em Ambiente Digital” foi apresentado por Álvaro Barbosa da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto. O orador mostrou diversos projectos de manipulação e configuração de som como a combo vox que transforma, por exemplo, vozes de crianças em adultos, a React Table de Sergi Jordá, uma interface tangível que reage aos movimentos performativos do manipulador. Finalmente, Álvaro Barbosa apresentou o seu projecto, Public Sound Objects, em Setembro disponível ao público na Casa da Música do Porto, um instrumento acústico de escrita musical colaborativa, um espaço partilhado de composição sonora a descobrir. Almoço.

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Na parte da tarde Paulo Dias da Universidade de Aveiro falou de “Estudos sobre a Usabilidade em Ambientes Virtuais” apresentando algumas experiências de realidade aumentada e mista no contexto do espaço e do tempo real/virtual. O investigador aplicou inúmeros gadgets de realidade virtual como os óculos HMD (head mounted display) acoplados a câmaras de filmar que reproduzem os movimentos do “interactor” para assim explorar a relação das pessoas com estes dispositivos através de testes de usabilidade. Foram mostradas algumas experiências feitas no campus da universidade de Aveiro (passeios virtuais em 3D na biblioteca, por exemplo) que reflectem pesquisas antigas inspiradas no Magic Book do laboratório japonês, ATR Media Integration & Communications Research Laboratories. Seguiu-se a comunicação “Implicações da Implementação da Televisão de Alta Definição em Portugal” de António Navarro. Aqui foram explicitadas algumas particularidades da televisão de alta definição e aplicações possíveis no contexto de serviços futuros. Em “Experiências Interactivas para o Futuro” Célia Soares apresentou algumas pistas a ter em consideração nos ambientes lúdicos imersivos do futuro partindo de experiências como o Second Life, o Active Worlds, entre outras. O debate introduziu algumas questões interessantes nomeadamente a demasiada especialização configurativa que a domótica e a engenharia pedem que o manipulador das interfaces da actualidade domine. Neste contexto, fez-se uma crítica bastante dura em relação aos discursos pouco comunicativos provenientes das engenharias onde as interfaces são demasiado complexas e pouco intuitivas, “feitas por engenheiros para engenheiros” e muito afastadas do consumidor final. A excessiva “tecnicidade” e a incapacidade da percepção humana acompanhar a hiper-realidade da imagem foi questionada pelo moderador do debate, Ivan Franco.

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O colóquio avançou para a estimulante comunicação de Ana Isabel Veloso sobre “TecLudi: Um Exemplo de Participação Activa das Crianças na Construção de Artefactos Lúdicos Digitais”. A investigadora criou um grupo de trabalho infantil onde se reflectiu de forma muito pragmática sobre a capacidade das crianças construírem os seus próprios jogos. Assim, concluiu-se que as crianças não só são capazes de o fazer como também preferem as representações gráficas por si criadas em detrimento do trabalho de concepção gráfica feito por profissionais da área. Experiências idênticas foram efectuadas nos EUA por Yasmin B. Kafai que separou rapazes e raparigas em grupos de trabalho para tentar perceber diferenças de género, ou seja, porque as raparigas desenham espaços diferentes dos rapazes. O projecto de Ana Isabel Veloso é curioso e mostra como a universidade pode ter um papel importante na definição de discursos renovados sobre a educação e a criação em colaboração. A “cereja em cima do bolo” chegou com a intervenção de Jorge Carvalho Alves sobre o projecto “InovaDomus”, ou seja, o projecto da casa do futuro. A casa que a assistência possivelmente julgava mais um exemplo aplicado de domótica revelou-se um espaço de arquitectura configurável, isto é, a partir de módulos de 120 metros quadrados podemos construir um duplex, moldar a casa para esta dar lugar a um salão de festas, etc. As janelas e as paredes podem mudar de sítio assim como as casas de banho, o aquecimento e a iluminação se adaptam às pessoas. Mais do que um conjunto de funcionalidades técnicas a casa é inteligente no sentido da biologia, como adaptação e intuição, um lugar que vai ao encontro do morador e não o contrário. Um lugar que não obriga à leitura infindável de manuais de utilização mas que se usa de forma fácil e confortável. Uma surpresa a que toda a gente reagiu no auditório da Universidade de Aveiro e o projecto “InovaDomus” está certamente de parabéns pela capacidade de questionar clichés recorrentes.

O colóquio encerrou com a síntese do moderador, Ivan Franco, que salientou a necessidade da tecnologia ser mais amigável com o consumidor, a possibilidade dos enredos e arquitecturas lúdicas serem melhor construídas em Portugal e, finalmente, a sugestão de uma segunda edição do evento. A audiência foi bastante participativa mostrando um interesse evidente por parte do público sobre estas temáticas.

A minha viagem para Lisboa foi divertida e houve muita matéria de discussão durante o percurso pois regra geral as apresentações foram acima da média e os participantes estavam satisfeitos por ver a Universidade receber e fomentar a discussão à volta do que se pode desenvolver de forma multidisciplinar. As comunicações foram muito variadas e isso permitiu perceber um estado geral das tendências a adoptar. Foi um prazer!


Sábado, 19 de Maio de 2007
ZODIAC (David Fincher, 2007), RETROASTROLOGIA_por rafgouv
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Existia nas tertúlias cinéfilas contemporâneas uma barreira – cultural, geracional, estética, filosófica? – entre aqueles que consideravam que David Fincher era um génio visionário praticamente comparável a Orson Welles e os outros que, abatidos pelo virtuoso frenesim hi-tech do autor de Fight Club, clamavam que o seu talento não era senão exibicionismo condimentado com imensa esperteza saloia.

É se calhar escusado dizer que pertenço ao primeiro grupo. Nunca esquecer a poderosíssima deflagração profética de Fight Club, filme oráculo, codex cinemático milenarista, salutarmente crepuscular. Nunca esquecer a chuva de Se7en, em New Orleans. Nunca esquecer aquela asa de cafeteira que a câmara atravessa em Panic Room, fenomenal invenção formal (e virtual). Nunca esquecer a androginia totalitária de Alien 3...

Mas talvez não mereça a pena continuar a insistir sobre a monumental evidência da mestria de Fincher pois é muito provável que Zodiac ponha toda a gente de acordo. Desta vez, Fincher escolheu uma narração bem menos acelerada, ao sabor do ritmo do inquérito que acompanha e que decorre durante um período de 20 anos, com inúmeros impasses e progressões por vezes quase aleatórias.

Zodiac é a adaptação dos livros autobiográficos [1] de Robert Graysmith [2] sobre o célebre caso Zodiac, um serial killer que aterrorizou São Francisco durante uma década. Aparentemente sóbrio e até, para os menos pacientes, um pouco convencional, Zodiac é mais uma demonstração potente da capacidade de Fincher para redistribuir totalmente os dados e reinventar os códigos mais rígidos do cinema de Hollywood.

VIRTUOSISMO INTACTO

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A sequência de abertura de Zodiac, prova de imediato que o virtuosismo de Fincher permanece intacto. No entanto, além dessa abertura magistral, “fireworks” que é ao mesmo tempo eco e prenúncio do final de Fight Club, Zodiac é avaro das irrupções de inventividade formal que tanto contribuíram para a exultação dos seus admiradores como para a desorientação (e o desinteresse) dos seus detractores.

Durante a primeira parte do filme, o realizador dedica-se a uma demonstração extremamente minuciosa da forma como a democratização da tecnologia ultrapassa largamente a capacidade de adaptação das estruturas administrativas encarregues do inquérito. A circulação automóvel, a televisão, o cinema, o jornalismo sensacionalista ou a democratização da droga [3] oferecem ao criminoso um terreno lúdico de eleição no qual os protagonistas se vão deixar enredar até ao desencorajamento ou à obsessão. O filme adopta em seguida a arritmia da progressão de um inquérito à deriva e é nesse tratamento de uma temporalidade ritmicamente incerta, feita de impasses, recuos e recomeços, que Fincher exibe o seu exímio controlo. Para figurar a passagem do tempo, o realizador utiliza uma impressionante panóplia de efeitos, realçando o carácter errático da partida.

Simultaneamente, Zodiac distancia-se da tradição de filmes de serial killer como Dirty Harry, directamente inspirado pelo caso [4], ou os mais recentes avatares de Silence of the Lambs ou Se7en [5]. Aqui não há profilers, a psicologia do criminoso está longe de ser o motor da acção e jamais somos levados a pensar que estamos perante uma superior inteligência diabólica. De uma certa maneira, o mistério que Zodiac ambiciona revelar é ainda maior: como foi possível o imenso fracasso da investigação [6]?

JANGADA DE PEDRA

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Convém no entanto assinalar que Zodiac se distingue da torrente de ficções denunciadoras com que Hollywood se vai pretensamente atacando ao real. Aqui não há conspiração alguma e se bem que as personagens sejam múltiplas e diversas, cada uma delas segue o seu próprio fio da meada, sem a facilidade dos efeitos corais.

O filme remete, embora formalmente tenha pouco a ver com qualquer uma delas, para duas obras fundamentais dos anos setenta: Night Moves de Arthur Penn e The Conversation de Francis Ford Coppola, curiosamente ambos protagonizados por Gene Hackman. Esses filmes, também eles feitos de digressões e de arritmias restituíam com enorme acuidade a indeterminação profunda da década de setenta, indeterminação que encontra no desenrolar do caso Zodiac um exemplo perfeito. Não é por acaso que os filmes citados se encontram entre os menos célebres dos seus autores, eles correspondem a uma visão dos anos setenta que foi quase totalmente apagada da memória cinematográfica. Ora, um dos méritos menores de Fincher não é certamente o de desmentir radicalmente a visão mítica da cidade de São Francisco nos anos setenta [7]: não há hippies por todas as esquinas, a banda sonora é bastante discreta e o verdadeiro tema do filme parece ser o desabrochar do individualismo e não o triunfo do comunitarismo.

Da mesma forma que não existe conspiração de alto nível para explicar o falhanço do inquérito, não existe idealismo algum da parte dos protagonistas ou das instituições que servem e que seguem motivações bem diversas: o desafio lúdico, o triunfo, o poder, o lucro económico... Zodiac serve também de potente desmistificação de um certo cinema contemporâneo (paranóico e/ou idealista) que reivindica raízes na década de setenta e que utiliza, por vezes com talento por vezes sem vergonha mas sempre com excelentes intenções, a magia de Hollywood para exaltar os subtis cordelinhos que unem os destinos humanos [8]. Empresa tão mais gratuita quanto esses cordelinhos, essas ligações, se começam tragicamente a atenuar e que não basta certamente a magia de Hollywood para os reatar.

THE FUTURE IS NOW

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Se mergulharmos nos profundos paradoxos temporais que nos oferece Zodiac podemos perfeitamente considerar que o fourth of july 1969 inaugura um período que conhecerá a sua apoteose no nine eleven 2001 profetizado em Fight Club. A enorme melancolia do filme, a neurastenia que assola sucessivamente os seus protagonistas, têm aí sem dúvida a sua raiz. Porque na realidade sabemos todos que os inquéritos se tornaram mais eficazes e que a tecnologia lhes pode servir, mas sabemos também onde atracou o mundo que aqui derivava: no consumismo desenfreado, no narcisismo exacerbado, na substituição da afectividade pela estimulação sensorial e pela emotividade, na arena de Fight Club, o prequel de Zodiac.


Uma última palavra sobre a fabulosa sequência do projeccionista suspeito, piscadela de olho gótica ao Flicker de Theodore Roszak que em tempos Fincher pensou adaptar: nela podemos apreciar a sua imensa arte da digressão e da decepção, emblemas deste precioso filme, total e radicalmente a contra corrente. David Fincher prepara actualmente The Curious Case of Benjamin Button, adaptação de F. Scott Fitzgerald, de novo com Brad Pitt. A história de um homem que nasce com 80 anos e que “envelhece” ao contrário... Lógico!


[1] Zodiac e Zodiac Unmasked.
[2] Cartoonista do San Francisco Chronicle, jornal conhecido por albergar as famosas crónicas de Armistead Maupin que é de resto personagem de um dos episódios do filme.
[3] Sem falar do jogo vídeo cujo advento é evocado numa saborosa digressão.
[4] Filme citado em Zodiac. O assassino perseguido por Harry Callahan (personagem inspirado por David Toschi que é um dos protagonistas do filme de Fincher), no filme de Don Siegel chamava-se Scorpio.
[5] Fincher tinha jurado que não voltaria a fazer um filme de serial killer e por isso é compreensível que o tenha querido fazer radicalmente diferente.
[6] Não deixa de ser irónico por exemplo que Robert Graysmith tivesse o cognome de “retard”.
[7] A São Francisco das crónicas de Maupin, por exemplo.
[8] Estou a pensar em filmes como o enfadonho Syriana de Stephen Gaghan ou o medíocre Crash de Paul Haggis.


Quinta-feira, 17 de Maio de 2007
“CASA DE BONECAS”_IBSEN EM SINTRA
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Estreia amanhã, dia 18 de Maio, a peça “Casa de Bonecas” encenada por João de Mello Alvim na Casa Teatro de Sintra. A peça está patente ao público até ao dia 24 de Junho e promete uma viagem pela vida doméstica de Nora, uma mulher que se transforma progressivamente consoante a história progride. Depois de uma briga com o marido esta "mulher boneca" sofre uma metamorfose e abandona a ordem paterna, primeiro representada pelo pai depois pelo marido. Henrik Ibsen (1828-1906) é um clássico dramaturgo norueguês e esta peça, a partir de amanhã em cena, é um bom exemplo de uma dramaturgia que causou escândalo na época em que foi criada. De forma realista a obra de Ibsen critica e questiona a sociedade e os valores morais da família e da propriedade e propõe a libertação da mulher como forma de superação da ordem paterna. O autor influenciou bastante o pintor norueguês Edvard Munch que também considerava que a arte era uma forma activa de lutar contra os valores mais conservadores da sociedade da época. A sala do Museu de Munch em Oslo dedicada a Ibsen é muito interessante e mostra bem como Ibsen influenciou o pintor de forma estrutural. O ano passado, 2006, comemoraram-se os cem anos da morte de Ibsen e este é um bom momento para em Portugal revisitar o autor. Não percam! Para mais informações consultar o site do Centro de Difusão Cultural em Sintra (chão de oliva) e que os actores, Cristina Basílio, Pedro Cardoso, Nuno Correia Pinto, Sofia Borges, Hugo Amaro, Cláudia Faria e Emília Filipe, "partam uma perna" na noite de estreia.


Terça-feira, 15 de Maio de 2007
PERFORMANCE INTERACTIVA_.TXT
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Na próxima segunda-feira, dia 21 de Maio, Fernando Nabais, Fernando Galrito, Mário Trigo e Stephan Jurgens vão apresentar uma primeira versão do espectáculo (.TXT_0) no Teatro Maria Matos no âmbito da Monstra 2007. Uma performance em tempo real onde, segundo compreendi a partir de uma conversa com um dos autores e na declaração de intenções do projecto, se geram blocos de comunicação mediados através da tipografia e da banda sonora emergente a partir dos movimentos dos “actuadores”. As influências deste trabalho são evidentes e estão visíveis na sinopse do projecto disponível no blogue que os autores criaram. Penso que existem também inúmeras ideias já exploradas por Diane Gromala uma referência que não foi tida em consideração mas que explora certamente campos semelhantes. Depois de ler a sinopse e de conversar sobre o projecto em curso fica a seguinte interrogação: o que se quer questionar através dos inúmeros efeitos de interacção? Quais as questões fundamentais levantadas pelo uso de sensores que integram o corpo próprio do “actuador”? Em que medida a tecnologia é usada para exprimir um corpo incorporado como texto? Infelizmente não vou poder estar presente nesta apresentação pois estarei em Aveiro no colóquio “Tendências do Entretenimento” a apresentar a comunicação: “Objectos interactivos que contam histórias inteligentes”. No entanto, em Novembro, quando a peça for apresentada na sua versão final, não vou perder. Quem quiser assistir ao espectáculo tem que telefonar para a bilheteira do teatro Maria Matos e reservar a sua entrada.


Quarta-feira, 9 de Maio de 2007
“A SCANNER DARKLY”_O HOMEM DUPLO
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A Scanner Darkly (O Homem Duplo, 2006) com argumento e realização de Richard Linklater a partir do livro de Philip K. Dick saiu directamente em DVD no mercado nacional depois de uma passagem rápida no Festival Indie. O filme conta com a participação de Keanu Reeves, Robert Downey Jr., Winona Ryder, entre outros. Ontem à noite, enquanto estava de plantão à impressão de uns dez calhamaços vi o filme pela primeira vez na versão DVD. A novela gráfica é bastante interessante do ponto de vista plástico e a “pintura” e o desenho das figuras (actores) “reais” é um tratado de manipulação da imagem digital que contém elementos surpreendentes. O traço (contorno) da animação ganha uma expressividade só possível porque depende em larga medida da imagem referencial filmada. O desenho das sombras e principalmente do contorno ganham uma força assinalável e potenciam plasticidades mistas onde a mistura de fisionomias na “farda” do espião é o exemplo mais perfeito. Num mundo de viciados na substância D. o futuro é vigiado e a realidade e a ficção não são separáveis, a realidade é uma ficção recombinada através de diferentes filtros e texturas. A estética é algo semelhante à usada por Richard Linklater em Waking Life (2001) mas está bastante mais ancorada à imagem como indício de algo “vivo”. A ideia do autor foi criar uma realidade em mudança e contrariar o preconceito recorrente em relação à animação, aos comics e à ficção científica. A ironia está presente nos mais ínfimos pormenores como, por exemplo, o reconhecimento de ícones (garrafa de coca cola) da cultura pop como atestado de sanidade mental. A iluminação das cenas, os contrastes e manchas de cor são bastante subtis e transformam as imagens em movimento em pinturas animadas.

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Segundo a filha de Philip K. Dick, Isa Dick Hackett, em entrevista nos extras do DVD a história do livro, adaptada no filme, é autobiográfica e o próprio Philip K. Dick era obcecado por bichos, tinha a paranóia que tinha um informante dentro de casa, vivia numa moradia semelhante à representada no filme quando se separou da mulher (mãe de Isa Dick Hackett) e teve inúmeros amigos que morreram no seguimento do consumo excessivo de químicos. No final, em estilo de memorial, presta-se homenagem aos amigos falecidos do escritor e aos que padeceram de lesões irreversíveis devido ao consumo excessivo de drogas recreativas. As flores azuis deixam marcas irreversíveis e podem provocar pesadelos. Vale a pena passar pelo site do filme!

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Sexta-feira, 4 de Maio de 2007
GAME_GAME_GAME_SEMPRE JOGO!
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Game, game, game and again game é “um poema digital, jogo ou trabalho de arte híbrido”. Um objecto lúdico subversivo de plataformas (13 níveis) que explora a composição visual feita de desenhos e croquis elaborados à mão misturados com excertos (lexias) de texto composto e tornado visível através da interacção com os diversos elementos. Um verdadeiro cibertexto lúdico! Vale a pena passar pela experiência que é bastante relaxante mas que requer estratégias variadas e alguma perícia. As regras tornam-se claras “on the fly”. O trabalho foi concebido por Jason Nelson, artista digital, ciber poeta nascido em Oklahoma City em 1970. Mais informações sobre o autor aqui e aqui. Obrigada Rafgouv!

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Terça-feira, 1 de Maio de 2007
DIA DO TRABALHADOR A TRABALHAR!
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Hoje quebrei uma promessa antiga: nunca trabalhar no dia do trabalhador! Pela primeira vez na minha vida dediquei-me, num dia alusivo ao descanso, ao cumprimento de mais uns quantos objectivos. Arght…! No seguimento de mais de um mês sem fins-de-semana os feriados também foram dedicados às correcções, escrita e preparação de umas apresentações… Apenas trabalho, mais trabalho e NO PLAY! Não trabalhar no dia do trabalhador era um princípio antigo mas… ops… quebrei a promessa! O dia esteve péssimo, chuva e frio e já nem consigo ter capacidade para uma partida de Wii Sports ou para pedalar na bicicleta. A verdade é que o trabalho corre bem mas esta semana fui convidada a sair da minha aliança no OGAME por falta de envolvimento no jogo. Arght…! Passei literalmente para uma aliança júnior e ainda pior fui impiedosamente atacada duas vezes na madrugada de domingo para segunda-feira quando me preparava para adquirir um edifício energético e estava cheia de recursos. Pobre planeta! Não há razão para preocupações em breve vou repor a energia dispendida e atacar o espertinho que apareceu para me inquietar na minha única distracção do momento. Ah, também vi em DVD o filme Cypher, de resto foi mais ou menos como na ilustração, dedilhar, dedilhar e NO PLAY! Tudo pelo “Play it again!”, hehehehe. Ah, e se fosse só eu... o pobre repolho está envolvido num terrível enredo de procura de bugs textuais e está também exausto. Venham as férias, por favor!
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