Quarta-feira, 30 de Abril de 2008
POP PLAYLIST 6.0_VENCEDOR(A)!
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Rafgouv veio à mouselândia deixar os resultados da edição de Primavera do concurso pop_playlist 6.0: “E pronto - acabaram-se as hostilidades and the winner is… ANDRADE, O GRANDE CAMPEÃO!!! Tendo em conta as resmas de insultos que recebemos desta vez e visto que reivindicamos a nossa cobardia, as próximas edições da POP PLAYLIST não estarão abertas à competição. Parabéns, Andrade!”


Domingo, 27 de Abril de 2008
“HEROES”_NEODARWINISMO OU CRIACIONISMO?
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Acabei de ver a primeira temporada da série Heroes (Tim Kring, 2006), drama de ficção científica que conta a história de um conjunto de pessoas comuns que descobrem que têm poderes especiais. Nunca fica totalmente claro, quanto a mim, se os super-heróis de Heroes são o resultado de uma evolução da espécie humana se são fruto de manipulações genéticas provenientes de algumas empresas biomédicas. Estes seres vivem uma realidade aumentada pelas suas capacidades fora da norma e tanto podem voar, como ouvir os pensamentos dos outros, regenerar os seus próprios tecidos, viajar no tempo ou pintar o futuro. Fazem parte de um mosaico, ao estilo narrativo da banda desenhada, metáfora usada na construção da própria estrutura da série, que se vai seguindo com curiosidade de episódio para episódio. O fito destes seres especiais é evitar uma explosão em Nova Iorque para assim salvar a humanidade.

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Heroes é uma série curiosa e ao mesmo tempo algo disparatada na forma como introduz algumas questões interessantes. Passa-se constantemente de um discurso sobre a teoria da evolução das espécies de Darwin a uma narrativa sobre o design inteligente que advoga que cada um de nós vem ao mundo com um destino traçado. Seria curioso enquadrar esta série no âmbito das inúmeras discussões entre os estudiosos de Darwin, na senda de Stephen Jay Gould (já falecido) e de Richard Dawkins, e os mentores do design inteligente. Ora, sendo evidente que os últimos são bastante desprezados pelos primeiros a série vem certamente dar corpo a esses debates polémicos entre ciência neodarwinista e criacionismo.

Heroes tem personagens muito engraçadas e bem construídas misturadas com personagens absolutamente desnecessárias. Existe na série, parece-me, uma constante ambiguidade entre bons e maus, heróis e vilões, cientistas e bandidos. A narrativa é constantemente reconstruída e vamos seguindo, com curiosidade, as peripécias daqueles seres fantásticos que têm nas mãos o destino da humanidade. Com eles vamos fazendo e refazendo acções, no sentido de perceber como é que uma tomada de decisão em determinado momento pode ser fulcral para o evoluir de momentos posteriores. Há sempre quem possa voltar ao passado, como Hiro, o japonês filho de um empresário da biomedicina, personagem de livros de banda desenhada que antecipam o futuro e herói ao serviço do destino do mundo. O meu herói favorito!


Quinta-feira, 17 de Abril de 2008
AS ICONOLOGIAS DE MICHEL MAFFESOLI_por rafgouv
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O novo livro do sociólogo Michel Maffesoli – Iconologies – Nos idol@tries postmodernes (ed. Albin Michel, 2008) – é simultaneamente homenagem, actualização e comentário crítico das célebres Mitologias de Roland Barthes, compiladas em 1957. Tal como Barthes, Maffesoli parte da realidade tantas vezes desprezada dos ícones quotidianos para tentar desvendar aquilo que eles revelam e ao mesmo tempo escondem da nossa identidade contemporânea. No entanto, enquanto para Barthes o trabalho semiológico se assumia como “crítica ideológica” (cf. introdução à edição de 1970, Les Mythologies, ed. Points 1970), cuja ambição era desmistificar e demonstrar a carga alienante dos mitos capitalistas, para Maffesoli estes inserem-se numa perspectiva mais vasta e antropológica na medida em que iluminam, em todas as épocas, “o caminho individual ou colectivo que é a existência humana” (ed. cit. pg. 14). 

Para Maffesoli as transformações próprias à passagem do paradigma da modernidade à pós-modernidade chegam para justificar a necessidade de uma nova abordagem da mitologia: porque a pós-modernidade faz ressurgir antigos arquétipos (Dyonisos, o Graal...) que julgávamos definitivamente derrotados pelo progresso, porque “as jovens gerações já não são iconoclastas” (ed. cit. pg. 11) na medida em que vivem rodeadas de entidades imaginárias e simbólicas e porque “a partir do momento em que uma coisa é verdadeira para alguém, para um grupo, ou mesmo para uma sociedade, essa coisa existe e merece atenção” (idem). Ao passo que as doutrinas e ideologias da modernidade se caracterizavam por inscreverem a acção humana num esquema produtivista integralmente virado para o futuro (as promessas religiosas e políticas do paraíso post-mortem ou da sociedade em progresso com as respectivas, e por vezes mútuas, purgas), a pós-modernidade vem lembrar-nos que também o presente merece ser vivido. A tarefa do “iconólogo” é então a de navegar numa “via mediana, a da sabedoria” (ed. cit. pg. 12), sem pôr em causa a realidade simbólica nem cair na idolatria. Ou seja, ultrapassando os limites daquilo a que o autor de Le Temps des Tribus chama de “raison raisonnante”, razão racional mas sobretudo “razoável”, cujas análises quase sempre se paralisam e se neutralizam na antecâmara do emocional, do onírico, do imaginário, do gregário, do humano... 

Em 38 textos curtos, Maffesoli aborda ícones tão diversos quanto Harry Potter, Michel Houellebecq, as raves, o Brasil, Che Guevara, Google, as próteses high tech, Myspace, Second Life, Zidane a barba de 3 dias ou os trotskismos, para gradualmente compor o retrato de uma sociedade onde a tecnologia “transfigura” e reactualiza os arquétipos milenares, evacuando humildemente algumas monstruosas ideias feitas do “fast food teórico” (ed. cit. pg. 48) e/ou ideológico: como justificar por exemplo que se continue a dizer que vivemos no apogeu do individualismo quando o colectivo não cessa de se afirmar não só em manifestações políticas e religiosas mas também em concertos e estádios, festas e festivais, acontecimentos que cada vez mais consagram a vontade de partilhar, de estar juntos aqui e agora, independentemente de intenções ideológicas ou doutrinárias? Sem dúvida que os que criticam o tal pretenso individualismo se recusam a medir a realidade destes eventos porque neles só vêm frivolidade, superficialidade e “representação”. Além do fascínio evidente mas não cego, despertado pelos objectos da análise, a sensacional modéstia de Maffesoli dá azo a inesperadas e audaciosas aproximações (a moda baggy com os seus capuchos e a indumentária monástica, Second Life e o Mahabarata, Myspace e o Golem...), por vezes improváveis mas nunca gratuitas. 

Mais deixemo-nos de paráfrases. Isto é uma ordem: leiam e venham cá dizer o que acharam! 

P.S. E já agora leiam também outros livros de Maffesoli! Rafgouv


Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
FIM DE CICLO EM HOLLYWOOD_por rafgouv
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Até os mais ferozes detractores do cinema de Hollywood serão obrigados a reconhecer que 2007 foi um ano excepcional em termos de maturidade criativa. Se os dados comerciais continuam a confirmar a dominação dos franchisings em série (Pirates of The Caribbean 3, Harry Potter and the Order of the Phoenix, Spiderman 3 e Shrek 3 foram os líderes do box-office, seguidos de Transformers), o número de filmes extremamente ambiciosos e mesmo difíceis de acesso que os estúdios souberam valorizar e transformar por vezes em autênticos sucessos é sem dúvida revelador de uma vontade de preparar o terreno num contexto que se anuncia cada vez mais difícil para os modos tradicionais da exploração cinematográfica.  

Sem pretender prenunciar o desaparecimento das salas de cinema, é forçoso reconhecer que a indústria cinematográfica se depara actualmente com desafios equivalentes aos que afrontou quando, nos anos 50, a televisão lhe veio roubar a soberania sobre o entretenimento de massas. Ironicamente, os canais televisivos tradicionais revelam talvez hoje uma vulnerabilidade ainda maior à concorrência dos jogos vídeo, do pay-per-view ou da distribuição de conteúdos pela internet (através de bouquets de canais ou de sites de partilha como You Tube). Em paralelo, a multiplicação das formas de distribuição é acompanhada por uma melhoria sensível das tecnologias de difusão e de leitura, graças à Alta Definição (HD), que permitem alcançar sem sair de casa um grau de imersão cada vez mais satisfatório.

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Convém no entanto não negligenciar a espantosa capacidade de resiliência de Hollywood. Em 1970, ninguém teria apostado na 3ª Idade de Ouro da Meca do cinema e ainda menos no renascimento do star-system e do studio-system. No entanto, hoje ninguém negará que títulos como Titanic ou Pretty Woman não só reafirmaram a pungência dos modos de produção e de promoção da época clássica como ocupam no imaginário colectivo lugares tão importantes quanto outrora Gone With The Wind ou as comédias de George Cukor. Por outro lado, devemos reconhecer que não foi também a episódica ameaça dos filmes e estúdios independentes que veio perturbar ou pôr em causa a potência do cinema comercial. Na realidade, da United Artists de Chaplin e Fairbanks à Miramax dos irmãos Weinstein e à Dreamworks, nenhum estúdio independente “generalista” conseguiu sobreviver à predação dos seus concorrentes ou às derivas dos seus dirigentes e os grandes industriais do cinema continuam a chamar-se Warner, Fox, Disney [1], Columbia, Universal ou Paramount, marcas quase centenárias. Se é certo que os estúdios não são geridos como antigamente por produtores visionários mas por tecnocratas da finança e que todos eles fazem parte de conglomerados mediáticos e industriais bem mais vastos (Time-Warner, Fox News Corporation, Disney Buena Vista, Sony Columbia, General Electric/NBC Universal e Viacom Paramount), não podemos deixar de admirar a forma como souberam construir uma mitologia e sobretudo como conseguiram fazê-la renascer e perdurar depois da televisão, depois dos movimentos contestatários da contracultura, depois do vídeo...  

A análise dos resultados comerciais dos campeões da bilheteira em 2007 permite-nos verificar que os lucros continuam a progredir graças ao aumento do preço das entradas mas o número de espectadores tende a estagnar. Em número de bilhetes vendidos no mercado norte-americano; os três últimos anos foram claramente, apesar da inflação de blockbusters que os caracterizou, os piores dos últimos dez anos. Aliás nenhum dos sequels lançados em 2007 conseguiu bater o record da série a que pertence, o que não deixa de ser revelador de uma certa fadiga do público. Daí que alguns comecem a questionar o modelo do cinema industrial tal como foi refundado por George Lucas e Steven Spielberg, modelo baseado na recuperação dos géneros fantásticos e na conquista de um público escapista e familiar, que domina a produção dos estúdios desde a 2ª metade dos anos 70, e daí que a caça a novos modelos de defesa ou de expansão esteja lançada.

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Uma das pistas escolhidas pelos estúdios para evitar a crise que se anuncia recicla uma técnica utilizada já nos anos 50, o relevo ou 3ª dimensão, numa táctica de prolongamento da lógica imersiva que um certo cinema já partilha com o jogo vídeo. Os próximos anos verão sem dúvida multiplicar-se os filmes tridimensionais, graças a uma melhoria sensível do conforto de utilização dos famosos óculos bicolores. No entanto, trata-se aqui mais de um meio defensivo para o cinema de género do que de uma verdadeira ruptura pois além de thrillers e filmes de efeitos especiais, apenas os documentários parecem vocacionados para tal tratamento. A menos que assistamos ao advento do cinema holográfico, cujas experiências parecem ainda bastante balbuciantes. 

Mais ofensivas são as estratégias de extensão do cinema (e da televisão) para redes de distribuição paralelas como a telefonia móvel ou a internet. Este modelo assenta no cruzamento do “marketing viral” (teasing e declinação da mensagem segundo os suportes de difusão) com a produção de conteúdos paralelos específicos (jogos, curtas-metragens...), servindo-se da miniaturização constante dos meios (a ecrãs cada vez mais pequenos correspondem conteúdos cada vez mais curtos) para gradualmente se disseminar. Se os principais pioneiros desta estratégia foram The Blair Witch Project e The Matrix II e III, hoje é graças a J.J. Abrams que ela ameaça tornar-se numa das formas predominantes de exploração cinematográfica. Abrams inaugura uma espécie totalmente inédita de empreendedores criativos, capaz de fazer passar Walt Disney, George Lucas e Jerry Bruckheimer por insignes molengões: criador de séries televisivas (Lost, Alias...), compositor, realizador (Mission Impossible III, episódios de The Office, Lost, Alias...), produtor (Cloverfield...), argumentista... e isto indiscriminadamente em projectos televisivos e cinematográficos com extensões paralelas. No entanto, o génio de Abrams não serviria de nada se ele não escolhesse ficções (sobretudo Lost) capazes de se disseminar em nós como se disseminam na caleidoscópica vertigem dos ecrãs que nos rodeiam.

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Devemos também reconhecer que a indústria, habitualmente vilipendiada em razão dos limites que o comércio impõe à tomada de riscos, se vê obrigada pela conjuntura a promover novas experiências e a impulsionar a expressão de novos talentos. Assim, cada um dos grandes estúdios criou recentemente a sua própria ganadaria de filmes “artísticos” (Paramount Vantage, Sony Screen Gems, Universal Focus Features, Disney Miramax e Hollywood Pictures, Fox Searchlight, Warner New Line Cinema...), entidades que mantêm frequentemente uma gerência independente, para cativar um público exigente que importa cada vez mais preservar para assegurar a transmissão de valores cinéfilos. O número de filmes “adultos”, tematicamente ambiciosos e formalmente arrojados, estreados em 2007 com meios de produção e de promoção consequentes é a este título revelador: Zodiac, The Assassination of Jesse James, We Own The Night, There Will Be Blood, No Country For Old Men, Across The Universe, Into The Wild, The Kingdom, Sweeney Todd... são, para nomear apenas alguns dos mais “difíceis” e sem querer equipará-los qualitativamente, exemplos de uma vitalidade que os campeões do box office por vezes também partilham (Spiderman 3...). Podemos dizer seguramente que jamais assistimos em Hollywood a uma tão fértil coexistência de velhos e jovens talentos. Não só todos os grandes da geração dos movie brats se mantêm em actividade (Scorsese, Spielberg, Coppola, Allen, De Palma...), como também os seus principais herdeiros (Burton, Tarantino, Scott, Van Sant, Soderbergh, Coen...) e mesmo alguns antepassados (Eastwood, Lumet...) se continuam a agitar... ao mesmo tempo que se desenha uma nova paisagem onde a importância de David Fincher, James Gray, Andrew Dominik, Paul Thomas Anderson ou, apostemos, Peter Berg, aparece com a mesma evidência. Rafgouv




[1] Se a Disney só recentemente faz parte dos grandes estúdios, as suas origens mais remotas são amplamente conhecidas.


Sexta-feira, 11 de Abril de 2008
O DEUS ZIDANE E AS ESTRATÉGIAS DA ARTE CONTEMPORÂNEA
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Vi finalmente o filme do escocês Douglas Gordon e do francês Philippe Parreno, Zidane, um retrato do século XXI (2006). O filme é o reflexo da captação de imagens a partir de dezassete câmaras de um jogo entre o Real Madrid e o Villareal no estádio do Santiago Barnabéu. As câmaras estão todas apontadas para o jogador de futebol francês. A ideia é simples e baseia-se na explicitação da mestria técnica implicada nas projecções actuais de futebol introduzindo um novo foco de atenção. Neste contexto, os autores pediram a um conjunto alargado dos melhores operadores de câmara mundiais e técnicos cinematográficos para procederem ao levantamento das imagens de Zidane em campo naquele jogo específico. Assim, se optou por trocar o foco da atenção do espectador, normalmente associado à percepção da bola, pelo ponto de vista centralizado no jogador. 

Uma experiência desta natureza lembrou-me o trabalho em vídeo do israelita Uri Tzaig, onde o artista insere duas bolas num jogo, explicitando o seu interesse em jogos de competição e as inerentes referências cinemáticas captadas para posterior projecção televisiva. Uri Tzaig já foi aqui introduzido. Zidane, um retrato do século XXI é um filme curioso mas fico um bocado com a sensação que usa uma fórmula algo gasta do ponto de vista artístico, ou seja, a ideia de partir de um processo de descontrução do jogo tradicional e popular para fazer um documentário com algum carácter subversivo sobre as práticas em campo é tudo menos novo. Não que tenha nada contra, bem pelo contrário, em relação às práticas subversivas de desmistificação da cultura popular mas acho que a resposta de Douglas Gordon e Philippe Parreno acaba por ser o endeusamento do jogador. Sobre este movimento refiro, a título de exemplo, os profundos pensamentos de Zidane na legendagem do documentário, qualquer coisa sobre a natureza fragmentada da experiência de jogo, pensamentos sobre a percepção do relvado e sobre a memória posterior à saída de campo. Ironizando um bocado, estive, por segundos, convencida que Zidane era um leitor assíduo de Henri Bergson ou de António Damásio e que dominava algumas teorias sobre percepção da realidade (Bergson) e construção cinematográfica da memória (Damásio). Claro que rapidamente me recordei que aquele documentário é produzido no contexto das artes contemporâneas e logo me pareceu evidente o movimento de sacralização da cultura. Neste caso concreto da cultura para massas. 

No contexto da corporação global lúdica e do mercado da arte contemporânea o deus Zidane leva consigo mais dois deuses: Douglas Gordon e Philippe Parreno. Desta forma o produto Zidane, um retrato do século XXI, sai enriquecido na conjuntura de estrelas e vende uma marca com chancela global. Gostei deste aspecto mas para quem gosta de futebol as declarações dos críticos de cinema portugueses na contra capa da edição portuguesa são no mínimo surpreendentes, Joaquim Leitão afirma: “das melhores imagens de um jogo de futebol que eu já vi”. Não reproduzo mais. 

 O DVD é muito fraco em matéria de extras, uma entrevista mínima com o futebolista, a dizer porque aceitou o projecto, e mais uns minutos de comentários dos realizadores e da equipa sobre o privilégio que foi produzir e realizar aquele documentário. Não achei nenhuma obra-prima.


Segunda-feira, 7 de Abril de 2008
GAMEDESIGN_SEIS SÁBIOS E UM ELEFANTE
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No dia 10 de Abril, quinta-feira próxima, vou apresentar a comunicação “Gamedesign_seis sábios e um elefante_a jogabilidade como uma narração emergente” às 18h00 no auditório Pessoa Vaz da Universidade Lusófona de Lisboa (Campo Grande). Este seminário é aberto ao público e terá aproximadamente a duração de uma hora.


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Domingo, 6 de Abril de 2008
MOUSE NO BLOG OBVIOUS, UM OLHAR MAIS DEMORADO_1
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Mais dois textos escritos pela mouse estão a circular no blog obvious, um olhar mais demorado. São textos sobre dois filmes disponíveis em DVD. O primeiro, Hot Fuzz, é uma comédia, uma hilariante história de polícias criada em Inglaterra. O filme conta as peripécias de um agente da polícia londrina que é afastado da cidade onde vive por ser demasiado bom no exercício do seu trabalho. A sua excelência põe em causa a avaliação dos seus colegas. Podem ler o resto do texto aqui.

O segundo, é sobre o filme The Lovers do realizador de Hong Kong Tsui Hark (1994) conta a história de dois adolescentes que se apaixonam num colégio interno na China. Os “amantes borboleta” é uma história popular considerada como o Romeu e Julieta chinês, uma lenda que existe em várias versões, isto é, o seu enredo já foi usado em ópera, concertos e filmes e é uma narrativa poderosa que passa de romance ligeiro a melodrama fantástico. Os primeiros escritos sobre o tema dos “amantes borboleta” remontam, na China, ao século IX. Podem ler o resto do texto aqui.

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NEUE HAAS GROTESK OU HELVETICA_ UM DOCUMENTÁRIO DE GARY HUSTWIT


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Helvetica é um documentário bastante interessante realizado por Gary Hustwit para comemorar o cinquentenário (2007) da criação da Neue Haas Grotesk, ou seja, da fonte Helvetica. O filme é um documentário independente sobre “tipografia, design gráfico e cultura visual global”. Ali se introduz, com uma clareza assinalável, a história do “tipo” como parte integrante de uma vasta reflexão sobre a importância da tipografia na cultura visual contemporânea e a forma como esta afecta as nossas vidas. O espectador é convidado a viajar por um conjunto de cidades americanas e europeias para assim desvendar a iconografia urbana. Iconografia esta, muito dependente da utilização da fonte de origem Suiça introduzida por Max Miedinger e Eduard Hoffmann em 1957. Helvetia é o nome latino para Suiça.

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Em paralelo com o testemunho histórico de algumas pessoas envolvidas no processo de legitimação da Helvetica um conjunto vasto de designers desvendam as suas ideias sobre a utilização tipográfica do período modernista (Massimo Vignelli, Wim Crouwel, entre outros). No documentário este período é identificado com os anos sessenta do século XX onde se depara com a ascensão do design suíço em oposição ao regresso das fontes “serifadas” dos anos cinquenta do século passado. De seguida, vamos de encontro à estética “grunge” dos anos oitenta e noventa do século XX pela mão de Paula Scher, também em entrevista neste vídeo. Designer e sócia da Pentagram, Paula Scher, tem no documentário um contributo entusiasmante sobre a possibilidade de ilustrar através da tipografia e com algum humor identifica duas culturas de design na sociedade americana dos anos setenta do século passado. Assim, a autora comenta a existência, na época, de duas tendências, i. e., designers corporativos que davam ênfase à utilização da Neue Haas Grotesk e outros mais experimentais que começaram então a explorar novas formas de utilização dos caracteres. Neville Brody, Stefan Sagmeister e David Carson surgem como alguns dos proponentes da desconstrução dos "tipos" em pranchas mais anárquicas e expressivas que acima de tudo reflectem sobre a possibilidade de comunicar por vias menos transparentes e mais opacas.

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Já no final dos anos noventa do século XX e na presente década de início do século XXI o mundo do design, da publicidade, da psicologia e da comunicação global parece, sugerem alguns dos entrevistados neste documentário, preocupados em encontrar programas de representação e apropriação dos caracteres que exponham estratégias novamente mais racionais e reflexivas. O que se pretende parece ser encontrar soluções que vão de encontro a uma cultura cada vez mais global, em rede, com facilidade de acesso às tecnologias da informação e aos programas de manipulação visual. A complexidade inerente à simplificação do livro de regras numa sociedade em rede torna imperiosa uma cultura visual eficaz e emocionalmente rica. A Helvetica contem todo um programa de design que o vídeo de Gary Hustwit acaba por desvendar de forma muito eficiente. Imprescindível para qualquer pessoa que queira compreender o mundo e a cultura visual que nos rodeia.


Sábado, 5 de Abril de 2008
“DUAS IRMÃS, UM REI”_UMA CORTE FEIA, PORCA E MÁ
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Acabei por ir ver o filme The Other Boleyn Girl (Duas irmãs, um Rei) de Justin Chadwick, 2008. Fiquei com curiosidade depois de ler a sinopse porque se tratava da história de Ana Bolena e do rei Eduardo VIII. Acompanhei há pouco tempo a saga televisiva The Tudors e logo me apercebi do glamour exagerado em relação à narrativa histórica em questão. Podem apreciar aqui as considerações que na altura teci e os comentários gerados sobre as incongruências da série. Ora, ao perceber que este filme tratava precisamente da mesma época e que relatava os acontecimentos históricos de uma perspectiva bastante diferente achei interessante ir espreitar a experiência cinemática. 

Realmente a forma crua e dura como a história é contada neste filme nada tem a ver com a saga delicodoce apresentada na série The Tudors. O romance dramático de Philippa Gregory é adaptado para o cinema por Peter Morgan e ali se contam as intrigas palacianas na corte de Henrique VIII. Um filme onde todos os homens são terríveis e as mulheres meros joguetes nas mãos patriarcais. As senhoras jogam na corte o jogo do poder masculino subvertendo-o até onde podem sendo a margem de manobra reduzida onde qualquer deslize pode gerar uma decapitação. O stress associado ao papel da maternidade, nomeadamente quando se trata de gerar um varão, é ali muito curiosamente explicitado e as relações familiares tornam-se na corte artificiais e impuras. Quase todos os homens no filme, mesmo no âmbito de uma situação privilegiada (condes, duques e afins), contribuem para a degradação das mulheres. Todos, sem excepção: o pai, o tio, o marido. Finalmente o rei e o congresso dão a estocada final no sentido da condenação das inocentes à morte, ou por incesto ou bruxaria, tudo serve o propósito, ou seja, afastar o impecilho. Apenas a mãe, Lady Elizabeth Boleyn (Kristin Scott Thomas), de Maria (Scarlett Johansson) e Ana (Natalie Portman) parece perceber o que ali se está a passar e a forma desumana como as filhas se prostituem para agradar a um rei caprichoso e sem escrúpulos.

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No filme torna-se evidente que o rei de Inglaterra, Henry Tudor (representado por Eric Bana no filme), era, na época, um homem inseguro mas que, no entanto, ficou historicamente associado a um acto de coragem potenciado pelas diatribes de uma mulher, Ana Bolena. O corte com a igreja de Roma e a criação da igreja anglicana foi sem dúvida o epílogo desta narrativa de decapitações e anulações de casamento, ao sabor das vontades e caprichos do rei. Ana Bolena uma feminista avant la lettre que sabia o que era transformar um rei fraco num rei que fazia o que ela queria. A mãe da Rainha Isabel I de inglaterra aprendeu tudo em França durante um exílio forçado pelo próprio Henry Tudor e pelos seus familiares (tio e pai). Ana Bolena sabia que em comparação aos franceses os ingleses na altura eram uns barbáros e chegou radiosa a Inglaterra, cheia de novas ideias. Assim, conseguiu conquistar o rei que a tinha renegado por esta, em comparação com a irmã, ser demasiado hostil e pouco subserviente. Um filme com uma iluminação e um guarda-roupa curiosos, onde não há glamour nenhum mas antes uma brutalidade feia, porca e má. Gostei de ver!

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Sexta-feira, 4 de Abril de 2008
“JUNO”_UMA MIÚDA ÀS DIREITAS COM NOME DE DEUSA
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Fui finalmente a semana passada ver o filme Juno realizado por Jason Reitman em 2007 (Jason Reitman realizou em 2005 Thank You for Smoking aqui introduzido). Esta comédia realista vale mesmo a pena e lembrou-me Little Miss Sunshine (2006, já aqui falado) e American Splendour (2003), filmes que me agradaram bastante (estou constantemente a rever o alucinante e engraçado realismo de American Splendour em DVD) pela forma como tenho a sensação que estou simultaneamente a ver um objecto cinematográfico e a ler uma banda desenhada. A interpretação de Ellen Page é bastante expressiva, no papel da adolescente que engravida sem vontade e que mesmo confrontada com um problema "muito para lá do limite da sua maturidade", acaba por ter uma enorme presença de espírito e resolver a situação. Juno tem um genérico bastante engraçado e os diálogos, se no início receei que descambassem em piadinhas sem jeito, logo se revelaram de grande subtileza. Uma trama e um grupo de personagens simples, encabeçados por uma adolescente com uma personalidade muito forte, acabam por convencer os espectadores da sua própria ficção. Uma ficção demasiado real mas representada ao "estilo da tragédia clássica" por caracteres melhores do que os humanos de carne e osso.

Juno ou Hera, a deusa que surge na mitologia grega como a protectora das mulheres, do casamento e do nascimento. No filme, a adolescente tenta certamente proteger o casamento dos outros, acreditar que uma relação pode durar eternidades e gerar uma criança que é acolhida com amor. Com mais espinhos do que rosas o enredo do filme mostra-nos como há pessoas que sabem muito bem aquilo que querem.

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