Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008
“MARTYRS”, A SALA TORTURA DE PASCAL LAUGIER_por rafgouv
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É altura de desmentirmos o estafado lugar-comum segundo o qual a Europa se especializou no chamado cinema de autor, enquanto americanos e asiáticos privilegiam os ditos filmes de género. Na realidade, podemos dizer que cada continente possui os seus géneros de eleição e a Europa que tantos identificam com o realismo social e humanista é também ainda hoje, pelo menos no cinema, o território do terror. E isto, por um lado, porque foi na Europa que indesmentivelmente nasceu o cinema e que nasceram as mais emblemáticas personagens fantásticas por ele depressa recuperadas. Por outro lado, porque a Europa foi durante o século XX (e continua a ser?), o terreno de todas as barbaridades: pogroms, genocídios, guerras civis e coloniais, purificações étnicas, guetos... Ora, destes terríveis acontecimentos nasceu paradoxalmente uma espécie de boa consciência pequeno-burguesa empenhada em dar, no cinema e em todas as artes, lições de anti-imperialismo, de multiculturalismo e de tolerância e preferindo, quase sempre hipocritamente, questionar em vez de ousar a representação. 

Felizmente, se os filmes mais intelectuais gozam das preferências só algumas vezes justificadas de críticos e festivais, o cinema europeu de género, e o cinema de terror em particular, nunca se extinguiu totalmente. Depois da Itália, que produziu provavelmente os melhores filmes fantásticos dos anos 60 e 70, a Espanha, falsa gémea gótica do Reino Unido, é a nova nação da angústia cinematográfica graças a nomes como Jaume Balaguero, Juan Antonio Bayona, Koldo Serra, Nacho Cerda ou os mais célebres Alejandro Amenabar, Guillermo Del Toro e Brian Yuzna [1]. Quanto ao cinema de terror britânico, filmes como Creep de Christopher Smith, o excelente The Descent de Neil Marshall, 28 Weeks Later de Juan Carlos Fresnadillo [2] (melhor do que 28 Days Later de Danny Boyle), Isolation de Billy O’Brien ou Shaun Of The Dead de Simon Pegg e Edgar Wright são mais do que provas da sua vitalidade. E isto sem nos aventurarmos para filmografias de uma Europa mais remota e ainda mais assustadora, uma Europa que fascina e aterroriza cineastas como David Cronbenberg (The Eastern Promises), Eli Roth (The Hostel I e II) ou David Lynch (Inland Empire) mas que a maioria dos europeus ocidentais não sabe, não quer ou não pode manifestamente ver [3].

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Curiosamente, até a França, tem revelado um lote invejável de jovens realizadores de horror, alguns deles (Christophe Gans, Alexandre Aja, Xavier Gens...) rapidamente passados com armas e bagagens para o outro lado do Atlântico. Pascal Laugier, o autor de Martyrs, também atravessou o Atlântico, para rodar no Quebec aquele que é provavelmente o mais original e mais perturbante filme de horror da década.  

Martyrs começa de forma clássica com a evocação de um fait divers do passado. Uma adolescente sequestrada e torturada consegue fugir dos seus torcionários e é recolhida numa instituição para crianças em dificuldade. Aí, Anna vai conhecer Lucie, que a protegerá das suas angústias. Quando ambas crescem e saem para o exterior, Anna, possuída por um forte desejo de vingança, pensa reconhecer numa típica família burguesa os responsáveis do seu martírio e Lucie segue. Na primeira parte do filme, Laugier vai ensaiar aquilo que ele próprio apelidou de filme anti Michael Haneke confrontando o espectador com uma ultra violência feroz e visceral, sem jamais resvalar no paródico do gore mas também sem nunca esquecer de marcar – pelas piruetas narrativas, pelo virtuosismo da realização e pela distanciação com que trata os personagens secundários – a sua vertente lúdica. 

Se a primeira parte de Martyrs pertence a Anna, a segunda é dominada por Lucie. A estrutura simétrica do filme afirma o seu carácter cerebral e tortuoso. Com Lucie, o realizador vai conduzir o espectador através dum aterrorizador transe sádico e atordoante. A tortura até à hipnose, a tortura como rotina, o martírio como via para um conhecimento supremo... Durante esta atormentada exploração, o mal-estar do espectador provem menos da gradação dos suplícios no ecrã do que de uma sensação de tédio e de abandono, realçada por um ritmo que se dilata, mas que se torna vertiginosamente reconfortante, conferindo ao filme um autêntico poder catártico. E, ao mesmo tempo, forçando-nos a perguntar se não é esse poder catártico que tanta gente procura (e encontra) na pornografia. Como os filmes pornográficos, a segunda parte de Martyrs, expõe e enumera uma série de actos que gradualmente conduzem a uma transfiguração: o humano feito carne, à medida que a náusea e o tédio substituem o desejo, de sexo e, neste caso, de violência.

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Se Martyrs é de alguma forma um ensaio teórico radical que tanto deve a Kubrick e Franju como a Sade e ao xamanismo, um dos méritos de Laugier é também o de impor uma distanciação narrativa que o coloca a uma longínqua equidistância do moralismo sisudo de um Haneke e do moralismo irónico de um Wes Craven. Martyrs nada tem de um manifesto ou de um comentário sobre a representação da violência e pouco tem de paródico ou de condescendente com a utilização que faz da mesma violência. É esta aliás provavelmente a causa para as reacções de detestação apaixonada que o filme provoca. Pascal Laugier abdica de todos os álibis costumeiramente utilizados quando se pretende representar a violência: a intriga, excitante, surpreendente e arrojada, é também totalmente anedótica e inverosímil, o filme não pretende denunciar nada e a violência que exibe não é estilizada nem cartoonizada. Se filosofia há em Martyrs – e em definitivo: há! -, trata-se de uma filosofia dos sentidos e das sensações, de uma filosofia da transgressão estética. 

O filme anterior de Laugier, Saint Ange, revelava já um certo virtuosismo mas um virtuosismo extremamente superficial e decorativo. Em Martyrs, o esmagador talento do realizador pode também contribuir para o desconforto do espectador na medida em que assume plenamente o lado gratuito, sensacionalista e sádico do projecto, inventando uma forma virtuosa de pornografia. No entanto, se Martyrs renova de maneira explosiva o cinema de terror, tal deve-se sobretudo à forma sadia com que assume o poder catártico da transgressão estética. A conclusão do filme atenua de resto fortemente o seu niilismo. No termo da terrível peregrinação, sabemos que ao precipitarmo-nos nos abismos do desejo, ao ultrapassarmos a náusea e o tédio, há inelutavelmente a morte. É melhor por isso irmo-nos familiarizando com o Inferno. No cinema, o Céu ou o Inferno, é sempre uma questão de tempo... Rafgouv 


[1] Como em Itália nos anos 50-70, a indústria espanhola produz filmes em espanhol e em inglês e alguns dos autores que nela trabalham – Del Toro, Yuzna... – vieram do outro lado do Atlântico onde também continuam a filmar.

[2] Outro espanhol...

[3] É a Europa dessa “ciganada” vinda do Leste imaginário dum continente quase sem fronteiras: a “ciganada” que inconfessavelmente desperta a nossa pior consciência na medida em que resiste às nossas melhores intenções (a integração, a assistência social...). 


Terça-feira, 7 de Outubro de 2008
POP PLAYLIST DE RAFGOUV_9.0_FEELING OF THE FALL

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Como mais vale tarde do que nunca, cá está a 9ª Pop Playlist, como habitualmente com links para que possam descobrir os sites de cada um dos artistas citados. Alguns temas da Playlist de Rafgouv podem também ser ouvidos na Last FM. Aceitam-se sugestões com links myspace, para as próximas Playlists!!!

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1. RANDOM FIRL, LATE OF THE PIER (Fantasy Black Channel, Because);

2. SMILE, KIDDA (FEAT. JIM OXBORROW) (Going Up, Skint);

3. INSIDE OUTSIDE, THE COVER GIRLS (Greatest Hits, Warlock);

4. ANYWHERE, THE PRESETS (Apocalypso, Modular);

5. DELBOYS REVENGE, THE JAPANESE POPSTARS (We Just Are, Gung Ho!);

6. RAVE ON, DON RIMINI (Kick’n Run EP, Mental Groove);

7. TOWNSHIP FUNK, DJ MUJAVA (Township Funk EF, Warp);

8. IL CATTIVO, CROOKERS (E.P.istola, Mad Decent);



9. BLACK RIVER (GUI BORATTO REMIX),
BOMB THE BASS FEAT. MARK LANEGAN
 (Future Chaos, !K7);

10. DEATH WATCH, ALIAS (Resurgam, Anticon);

11. ANGLES, DAN LE SAC VS. SCROOBIUS PIP (Angles, Sunday Best);

12. HEARTBREAKER (KRIS MENACE REMIX), METRONOMY
(Nights Out, Because);

13. STRANGE OVERTONES, DAVID BYRNE & BRIAN ENO
(Everything That Happens Will Happen Today, Byrne & Eno);

14. BRUISES, CHAIRLIFT (Does You Inspire You, Kanine);

15. SAVE US, TROUBLE OVER TOKYO (Pyramides, Schoenwetter Shalpllatten);

16. WOLVES, PHOSPHORESCENT (Pride, Dead Oceans);

PS: A ordem dos temas é puramente arbitrária e não reflecte qualquer hierarquia qualitativa! Rafgouv



Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008
“AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO”
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Gostei imenso do filme português Aquele Querido Mês de Agosto de Miguel Gomes. O realizador concebeu um híbrido hilariante entre o documentário e a ficção com cenas bastante bem conseguidas. Há momentos verdadeiramente engraçados e que muito apontam para um olhar crítico sobre a nossa mentalidade lusitana. A deambulação da rapariga à procura de um casting entre os jogadores da malha… jogadores estes que fazem parte da equipa de realização do próprio filme e que a estão constantemente a remeter para outra pessoa: “olhe, fale ali com aquele senhor”, “olhe, pergunte ali àquela senhora que talvez ela a possa esclarecer”… frases destas que fomentam um impulso constante para a burocracia e geram um andar à deriva sempre a falar com quem nada sabe do assunto. Esta situação lembrou-me automaticamente as repartições públicas nacionais mas também as universidades, os hospitais, os bancos e tantos sítios que procuramos à procura de informação clara e directa. Impossível. 

Depois, os adjectivos constantes: “este rapaz é um génio da guitarra!”, “o Fábio [depois Hélder] é muito isto e muito aquilo”, tudo em superlativos recheados por aquele gosto pela mediania e, diria talvez Henrique Garcia Pereira, que tive recentemente o prazer de ouvir no lançamento do seu último livro, Fragmentos do Mediterrâneo, Uma análise Multidimensional, O Rendilhado Oriental, por um total desprezo pelo trabalho bem feito. O filme leva-nos até às festas “pimba”, comuns durante o mês de Agosto nas aldeias e vilas nacionais que recebem os emigrantes, em concelhos da região centro de Portugal: Arganil, Pampilhosa da Serra, Tábua, entre outros, e conta com a colaboração das pessoas desses lugares no papel de personagens da “história” e da acção docuficcional.

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As personagens compõem uma manta de retalhos narrativa que vai posteriormente fazer sentido na cabeça do espectador. O Paulo, um desnorteado trabalhador rural que acumula cicatrizes no corpo maltratado pelas bebedeiras recorrentes, mistura-se com a história de um outro personagem que mata a mulher à machadada, tudo isto associado a excertos narrativos que nos remetem para as dificuldades que a equipa de produção do filme encontra para realizar o mesmo. A história do Paulo, mas também o evento da machada, ambos relatados por um casal de idosos e não só, cruzam-se com a hérnia discal tratada por milagre na procissão, com os bailaricos ao som de música “pimba” e com o casal de adolescentes apaixonados. Tudo numa textura cruzada em que o espectador é confrontado com a experiência da equipa de realização, com a experiência das pessoas do local na sua participação no filme e com a ficção criada para unir todas estas peças numa narrativa estimulante. 

A conversa dos dois residentes da aldeia recentemente confrontados com os seus papéis como actores do filme é bastante hilariante. Neste diálogo, um especialista na colocação de janelas e um gestor de condóminos reflectem sobre as dificuldades que encontram para memorizar as “deixas” e gerir o stress associado ao filme. De morrer a rir. Muitos outros momentos poderia referir mas conto, em tão poucas linhas, alertar-vos para a obrigatoriedade de verem este filme que me recordou o cinema brasileiro na sua capacidade de contar uma história sem actores profissionais. Recordou-me o belo segundo filme de Eliane Caffé, Narradores de JavéAquele Querido Mês de Agosto  é imperdível.
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Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008
“KRAZY! THE DELIRIOUS WORLD OF ANIME + COMICS + VIDEO GAMES + ART”
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Krazy! The Delirious World Of Anime + Comics + Video Games + Art é um livro/catálogo que surgiu no seguimento de uma exposição que teve lugar na Vancouver Art Gallery entre Maio e Setembro de 2008. O livro, assim como a exposição, têm como intuito explorar as ligações entre banda desenhada, animação, manga, novelas gráficas, videojogos e arte visual. A exposição teve como curadores Bruce Grenville, Tim Johnson, Kiyoshi Kusumi, Art Spiegelman, Seth, Will Wright, Toshiya Ueno e foi concebida pelo Atelier Bow Wow. O livro é um reflexo dos contributos escritos e visuais dos diferentes organizadores da mostra. É uma óptima pista para a compreensão de algumas misturas inevitáveis na cultura do século XXI. Visualmente é delicioso e os textos acompanham bem as obras escolhidas. No final do mês de Outubro vou estar em Vancouver no âmbito do ACM Multimedia 08, Story Representation Mechanism Context, pelo que uma passagem pela Vancouver Art Gallery é obrigatória.


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