Domingo, 29 de Março de 2009
SOPCOM E LUSOCOM_ULHT_CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO_14 A 18 DE ABRIL 09
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No Dia 15 de Abril de 2009, quarta-feira, vou dar uma comunicação, “Histórias Implosivas, acção e narração na ficção dos jogos de realidade alternativa”, no âmbito do encontro 8º LUSOCOM, comunicação, espaço global e lusofonia, mesa de comunicação audiovisual e multimédia, coordenada por Célia Quico e Xosé Soengas. Infelizmente é entre as 9 e as 10 horas da manhã, uma hora em que devo estar muito rabugenta, hehehe. No dia seguinte, 16 de Abril, quinta-feira, estarei a co-coordenar, em parceria com Maria Teresa Cruz, três mesas de Estética, Arte e Design, no âmbito do 6º SOPCOM, sociedade dos media, política e tecnologia. Os dois eventos têm lugar na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa entre 14 e 18 de Abril e o programa pode ser consultado aqui.


Sábado, 28 de Março de 2009
“O LEITOR”_AMOR-PAIXÃO LAMECHAS
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The Reader de Stephen Daldry (2008), com Ralph Fiennes e Kate Winslet, relata a paixão de um adolescente por uma mulher que o ajuda, por acaso, na rua. Bem filmado e com um enredo com um certo ritmo, o filme acaba por ser uma lamechice bem contada sobre um segredo guardado durante vários anos. The Reader está muito longe da frescura e dinâmica de Billy Elliot (2000) ou da densidade psicológica de The Hours (2002), ambos do mesmo realizador. A prestação de Kate Winslet, quando comparada com a sua aparição em Revolutionary Road, do seu marido Sam Mendes (2008), é mais pobre e deixa-nos com vontade de questionar as estratégias da academia de Hollywood que a premiaram como melhor actriz em The Reader e não em Revolutionary Road. Enfim, este artefacto cinematográfico vê-se bem mas nem o enquadramento da Segunda Grande Guerra nem as questões morais levantadas pelas aulas de direito do protagonista sustentam uma narrativa cheia de inconsistências. Quem é que ainda acredita que um adolescente de quinze anos fica a vida toda marcado, ao ponto de nunca mais conseguir estabelecer laços amorosos relevantes, por uma história de amor com uma mulher mais velha do que ele e que pertenceu às SS? Ainda mais estranhamente o sujeito da história é advogado e conhece profundamente, no início da idade adulta, a situação doentia na qual esteve envolvido… demasiado amor-paixão para o século XXI não? Mais uma piscadela de olho da cultura popular às relações entre homens novatos ou mesmo adolescentes e mulheres de meia-idade? Qualquer dia podemos mesmo considerar que este tipo de relacionamentos se transformou em tendência dado o número expressivo de filmes a potenciar este cenário.


Sexta-feira, 27 de Março de 2009
GRAN TORINO_UMA NUVEM SIMULTANEAMENTE NÍTIDA E ESBATIDA
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No Domingo passado fui ver Gran Torino de Clint Eastwood (2008) ao cinema Monumental. Um filme que se presta bastante bem ao exercício do contraditório e sobre o qual vou explicitar apenas parte do enredo que o meu cérebro construiu à volta do mesmo. Vou deixar que outros construam a outra metade se for caso disso. Se pudesse seleccionar duas cenas que me impressionaram em Gran Torino não hesitava em assinalar a introdução do miúdo asiático à barbearia e aos diálogos que deveria estabelecer com futuros empregadores, assim como a cena de degustação chinesa em casa dos vizinhos. Dois momentos inesquecíveis. A história é interessante e dada a unanimidade da critica nacional é quase pecaminoso dizer que é também bastante óbvia, um velho solitário que se aproxima de dois putos asiáticos carentes que antes vilipendiou… uma outra forma de mostrar o problema da integração dos imigrantes nos Estados Unidos, também explorada em The Visitor (2007), mas aqui ampliada por um confronto mais intenso entre um ex-combatente na Guerra da Coreia e uma família de raízes asiáticas. O que em The Visitor é amenizado pelo facto do confronto entre culturas se dar com um professor universitário, que até estuda o assunto em questão, neste filme, de Clint Eastwood, a problemática é bem mais complexa porque afinal Walt Kowalski é um acérrimo defensor dos valores, dos bens criados e produzidos na América (trabalhou a vida toda na Ford), e da moral do seu país, sendo muito pouco permeável a miscigenações. 

Ora, depois de muito contestar a contaminação dos estranhos no seu bairro, sujeitos que nem as próprias casas sabem preservar, eis senão quando Walt Kowalski se torna o mais próximo possível daqueles que antes pensou poder ignorar… outra mensagem começa a delimitar-se no filme… os miúdos e as diversas tribos urbanas, carentes de apoio familiar, fazem notar a sua deriva total através de um afastamento a qualquer contacto afectivo. A neta de Walt Kowalski, de piercing e a mascar pastilha elástica no funeral da avó, é incapaz de denunciar alguma sensibilidade pelo enterro desta e a sua única preocupação é o carro que poderá herdar. Os filhos e uma das noras do senhor são autênticos abutres insensíveis que não conseguem sequer entender os laços que este nutre pela casa onde vive e pelo carro que preserva há anos. A verdade é que, sendo pai, Walt Kowalski, é responsável pelas acções dos filhos e dos netos, os quais sempre de alguma forma afastou da sua esfera afectiva. Na casa ao lado, pelo contrário, Walt Kowalski encontra outra realidade, uma família que ainda preserva a lealdade e o respeito pelas tradições e pela palavra dos mais velhos. Curioso é notar que no filme de Laurent Cantet, Entre Les Murs, ou A Turma (2008), o aluno asiático também parece ser o único miúdo que realmente se esforça por uma boa educação e que considera estranho o comportamento dos colegas.

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A perspectiva multicultural apresentada no filme é interessante na medida em que expressa o ponto de vista de um americano de idade que acabou de ficar viúvo, o mesmo acontece aliás em The Visitor, um indivíduo que cresceu e viveu num bairro suburbano com todo um conjunto de valores que vê agora pilhados, misturados e boicotados, quando o seu poiso de sempre é invadido por imigrantes. Nesta situação, Walt Kowalski vai progressivamente amolecendo nos seus princípios e deixando que “os outros” lhe vão contaminando o coração envelhecido, duro e de ex-combatente na guerra. O que arrepia ali, afinal, não é a sorte malfadada do idoso mas a deriva dos putos que precisam de homens como ele para os orientarem na vida, a deriva de todas aquelas personagens, numa sociedade cheia de contradições que parece gerar uma total incapacidade para se sair do esquema montado por outros (família, bandidos, políticos, banqueiros, empregadores ou vizinhos…). Neste sentido, penso que o filme de Sidney Lumet, Before the devil knows you're dead (2007), sobre o planeamento de um assalto à joalharia dos país elaborado por dois filhos para pagar dívidas associadas com um "certo" estilo de vida, é bastante mais subversivo e complexo. Este filme parece ir de encontro a uma lei chinesa que obriga os pais de filhos condenados à morte a pagarem a bala que os matou pois são responsáveis pelas acções destes. Neste contexto, também em Before the devil knows you're dead, os pais acabam por pagar a má conduta dos filhos mas, o que assusta em ambos os filmes, é perceber que os contornos da jaula são tão nítidos e simultaneamente tão esbatidos e enevoados.


Terça-feira, 24 de Março de 2009
ATELIER DE ARTES DIGITAIS_FCSH_UNL 08/09_LEVE E DESCONTRAÍDO!
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Terminou em Fevereiro mais um seminário de mestrado Atelier de Artes Digitais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Sendo a terceira vez que lecciono este atelier penso que este ano os dezanove estudantes avaliados me conseguiram surpreender pelos resultados globais da turma. Se o ano passado os alunos eram mais, vinte e sete em 2007/08 para 19 avaliados em 2008/09, e contribuíram muito para a dinâmica geral da turma, este ano o interesse demonstrado e a assiduidade promoveu um resultado global que até a mim me surpreendeu. Para demonstrar o meu apreço pelo interesse e dedicação dos alunos decidi fazer um upgrade ao programa sob a forma de visitas exteriores. Assim, recebemos na aula o Fernando Nabais, gestor de projecto do Ylabs, professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e ex-aluno da edição de 2007/08 deste atelier. O Fernando fez uma apresentação muito interessante sobre a sua visita ao último Ars Electronica e apresentou alguns projectos em desenvolvimento pela Ydreams. No dia 10 de Fevereiro, último dia do seminário, recebemos a visita de Carsten Goertz (cal72), artista e designer new media que estudou na Academy of Media Arts de Colónia e que preparou para os alunos uma apresentação chamada "Shapeshifting spaceshipping, a pamphlet on questions of reality and its representation in design, science, art and the constitution of identity". Este ano os alunos criaram e produziram cinco trabalhos distintos que apresento de seguida.

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Shake Us Wall, um jogo digital corporizado por uma instalação e uma plataforma on-line baseado no clássico PacMan que sugere aos visitantes que colaborem para derrotar um monstro através de interacções num espaço partilhado. O escuro e uma ameaça exterior, um monstro digital, só passível de aniquilação por via da cooperação entre pessoas distintas dentro da “caixa negra” do jogo/galeria, obriga os participantes a agirem em grupo pois de outra forma são aniquilados. A sobrevivência no palco numérico torna-se complicada se os participantes não cooperarem entre si. Assim, se propõe encorajar a aproximação entre pessoas numa luta e num espaço de interacção que potencia a cooperação on-line e off-line. Este grupo, constituído por Isaque Pereira (comunicação), Cristina Novo (novas tecnologias da comunicação), José Espada (teatro e educação), Joana Rodrigues (cinema) e João Machado (cultura contemporânea e novas tecnologias), apresentou o projecto socorrendo-se de um complexo livro de regras da simulação proposta. O colectivo desenvolveu variadas animações flash para explicitar os algoritmos possíveis de interacção assim como elaborou uma sustentação teórica bastante interessante sobre o conceito ali explorado. Produziu ainda um planeamento técnico detalhado do material necessário à prossecução do projecto e apresentou em maquetas 3D o aspecto global da instalação.

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Stor-O-Matic é uma plataforma interactiva que gera narrativas emergentes e generativas, um organismo que deve ser alimentado pelos participantes deste dispositivo no sentido de enviarem para a base de dados do sistema vídeos captados por telemóvel. A partir de quatro categorias: espaço, tempo, personagem e acção os participantes alimentam a plataforma construída através das suas próprias produções sendo que é ainda possível desenhar trajectórias a partir de vídeos produzidos por outros. Este projecto, criado e produzido por Luís Antunes (língua e cultura portuguesa), Patrícia Proença (design de comunicação), Pedro Dias (comunicação), Pedro Suspiro (comunicação multimédia) e Iana Ferreira (cinema e imagem), baseou-se na ideia de construir um espaço digital de criação de narrativas vídeo-generativas onde o participante performatiza movimentos gestuais que ajudam a construir narrações fluidas e abertas. Estas constelações visuais e estes enredos digitais são produzida(o)s em tempo-real e visualizáveis através da interface gráfica. O colectivo finalizou o projecto on-line deixando apenas por concluir as funcionalidades ao nível da base de dados. Foi elaborado um dossier de projecto completo, onde se realça o conceito gráfico do logotipo, que anuncia extensões possíveis como um festival Stor-O-Matic, um evento que explora o espaço narrativo.

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Post-Somnium é uma viagem ao mundo dos sonhos inspirada no Le Science des Rêves (2006) de Michel Gondry que se destina a todos aqueles que gostem de dar alas à sua imaginação e participar numa experiência artística que se baseia na confecção dos sonhos através de imagens, som e vídeos. Os fundamentos teóricos do projecto vão buscar inspiração às teorias do hipertexto para assim explorarem conceitos como não-linearidade, ligação entre tópicos, autoria partilhada, fragmentação e papel activo do leitor. Outras referências que sustentam o estado-da-arte do dossier de trabalho remetem-nos para o colectivo Entropy8zuper (Auriea Harvey e Michael Samyn), nomeadamente os projectos de mapeamento e cartografia dos comportamentos sexuais nos Estados Unidos da América desta dupla e Wordsswf de 2005. Post-Somnium vai buscar também inspiração ao projecto Minneapolis and St Paul are East African Cities de 2003, uma parceria com a artista etíope Julie Merhetu, assim como à coreografia mundial Move Out Loud de Filipe Viegas e Brahim Sourny de 2008. Sustenta-se ainda nas enigmáticas imagens de Chris Jordan: Skull With Cigarette (2007) e We the People e, finalmente, no projecto Hope.Act.Change (2008) de suporte à campanha de Barack Obama. Este grupo, constituído por Ricardo Rodrigues (multimédia), Sofia Rodrigues (comunicação) e Sofia Tonicher (cinema e televisão), com menos elementos que os grupos anteriores, apresentou o protótipo do projecto e um dossier completo sobre o mesmo. 

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Constructa,
inspirado em René Descartes citado por Maurice Merleau-Ponty em O Olho e o Espírito, é uma reflexão sobre mapeamento, meta-media, software, pensamento confuso e cultura de remix. O projecto consiste numa aplicação on-line que parte dos conceitos de jogo e brincadeira para a construção de uma base de dados de perfis de participantes. Os “constructores” são mapeados e identificados através da resposta a um questionário que os categoriza e agrupa em “tribos” distintas, a saber, the bison, the 50’s western, the lights out, the biopsy e the screaming glitter. A linguagem gráfica do projecto Constructa é bastante rica e recorda a estética dadaista. Existe, nos building blocks lego das imagens criadas a partir de uma remistura, como que um misto entre o período de desconstrução da tipografia, ou época grunge no design dos anos oitenta e noventa do século passado, e a essência dos conceitos de organização e composição clássicos. O dossier de projecto está paginado com um enorme profissionalismo mostrando como a apresentação dos conteúdos pode muito bem ser equivalente aos próprios conceitos ou, como diria o mestre McLuhan, the medium is the message. A forma e o conteúdo jamais estão separadas e este projecto é um bom exemplo como pensar sobre o mundo tanto pode partir do conceito como da imagem, é uma reflexão mista. Assim, Constructa vem chamar-nos a atenção para a impossibilidade da existência de imagens vazias de conceito mostrando igualmente como também os conceitos não surgem fora da jaula da cultura visual. O problema é quando aqueles que geram conceitos são, por vezes, pobres em construir imagens a partir destes e vice-versa. O colectivo que construi e produziu Constructa é constituído por Ana Fonseca (comunicação), Moisés Coelho (design comunicação), Luís Frias (design comunicação) e Guilherme Ferreira (antropologia).

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Para terminar a descrição dos trabalhos elaborados no âmbito do atelier deste ano lectivo, apresento o projecto Human Condition, baseado na obra de André Malraux publicada em 1933 com o título original La Condition Humaine. Este trabalho explora estados da condição humana como a solidão, a apatia, o desespero e os aglomerados sociais. Foram recolhidos vídeos de 5 a 30 segundos a partir de um telemóvel e usadas fotografias que foram posteriormente misturado(a)s editado(a)s e trabalhado(a)s de maneira a convocar sentimentos no espectador.  Depois, juntaram-se músicas como “Society” de Eddie Vedder, “Beautiful People” de Marilyn Manson ou “Voodoo People” dos Prodigy, entre outras, e construiu-se um argumento não linear que possibilitasse uma experiência labiríntica no visionamento destes excertos e imagens dispersas mas agrupadas por pares de conceitos. A montagem juntou os estados da condição humana em grupos de dois e assim surgiram temáticas que misturam a solidão e a apatia, o desespero e a solidão, etc., o hipertexto surge, neste contexto, como uma mesa de mistura à la carte do leitor, mediante as ligações que este opta por seguir. Um trabalho próximo do vídeo interactivo. O grupo, constituído por Débora Lopes (ciências da comunicação) e Victor Ferreira (multimédia), inspirou-se na obra de Douglas Gordon, Juan Muñoz, Sharon Lockhart e Gilberto Prado.

Para mim este ano a experiência do atelier foi bastante gratificante e aprendi imenso com os alunos que, como sempre, têm as mais diversas formações ao nível da licenciatura, o que enriquece substancialmente o ambiente do seminário. A todos agradeço a confiança e cooperação e um até breve... O ambiente geral do seminário foi, quanto a mim, leve e descontraído.


Segunda-feira, 23 de Março de 2009
RAFAEL ARGULLOL_FCSH/UNL
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Na quinta-feira passada fui ouvir Rafael Argullol à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Poeta e ensaísta é professor Catedrático de Estética e Teoria das Artes na Universidade de Humanidades Pompeu Fabra de Barcelona e já leccionou noutras universidades europeias e norte-americanas. Se a conferência me pareceu interessante na forma como interpretou a história de Édipo Rei na tragédia de Sófocles levando-nos a considerar a resolução do mistério como uma maneira de Édipo se ir reconciliando consigo próprio, tenho que confessar que já tinha ouvido uma interpretação muito semelhante por parte de Deolinda Santos Costa na Livraria Climepsi da Pinheiro Chagas. A forma como a psicanálise ajuda a desbloquear as memórias passadas e a preparar caminho para a aceitação da identidade de forma plástica e mutante era então matéria de discussão. Posso então considerar que nesse sentido a conferência de Rafael Argullol foi para mim uma revisão dessa outra comunicação mas no final o debate foi absolutamente surpreendente. 

O escritor espanhol contou uma história muito bonita sobre uma caminhada que fez com o pai para apanhar caracóis onde foi picado por uma abelha que antes tinha ajudado. Falou sobre a confusão que lhe fazia a partição entre teoria e prática, uma coisa impossível para os gregos, a partir das suas próprias experiências a leccionar nas Belas Artes e numa faculdade de Filosofia. Dissertou sobre a entropia das múltiplas perguntas e repostas e a necessidade de encontrar um equilíbrio entre as perguntas que se fazem, as respostas que se encontram e a acção. Anunciou a impossibilidade de separar o intelecto dos sentidos e admitiu a sua admiração por Platão por ter sido aquele que mais se equivocou. Criticou o panorama recorrente do mito de Duchamp nas artes contemporâneas denunciando o jogo existente entre a estética da contra corrente e a política actual, ou seja, admitindo que o mercado da arte está repleto de uma certa repetição silenciosa, parca de ideias realmente interessantes, na senda de Paul Virilio em La Procédure Silence. Anunciou o viajante como o único que sabe ler a sua própria cultura pois é através da cultura dos outros que melhor nos compreendemos. Alertou-nos para a sua convicção de que a tradução das palavras de Sócrates: “conhece-te a ti mesmo” estariam mal traduzidas e quereriam dizer algo como “reconcilia-te contigo próprio”, ou seja, não implicavam este voltar para dentro de si mas antes o encontro com os outros. Gostei muito de o ouvir até porque confirmou algumas das minhas convicções. Mais informações no blog de Rafael Argullol aqui.




Sexta-feira, 20 de Março de 2009
BUENOS AIRES_SOFISTICADA E CULTA
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Ora, com tantos pedidos vou assim fazer o tão esperado relatório das aventuras e desventuras da mouse nas pampas. Cheguei a Buenos Aires na terça-feira de manhã depois de uma viagem cheia de turbulência, de quase dezasseis horas contando com a escala em Paris, onde não resisti à tentação de ver no avião o máximo de filmes que consegui. Assim, fui surpreendida pelo filme The Duchess (2008), uma obra que vale a pena essencialmente pela narrativa histórica, que desconhecia, e por alguma possível interpretação ciberfeminista. Achei bastante estimulante a forma como são apresentadas as relação das personagens, a sua engrenagem nas instituições (políticas, culturais, sociais…) e o enredo amoroso algo escabroso. Vi Australia (2008) que me pareceu um filme enfadonho e nem as paisagens, nem Nicole Kidman e Hugh Jackman, me convenceram. É verdade que dado que não tinha legendas e com a turbulência a bordo alguns diálogos foram difíceis de seguir mas em geral pareceu-me um enorme pastelão de clichés. Seguiu-se, Rachel Getting Married (2008), um filme que estava desejosa de ver pois sou uma admiradora de Jonathan Demme desde Something Wild de 1986. Gostei bastante pelos actores, pelo relato de uma família disfuncional, pela ambiência caótica e epidérmica, documental e simples. Finalmente, vi The Visitor (2007), um filme bastante curioso e que, mais uma vez, nos mostra como o cinema pode estar mesmo a caminhar para estas produções singelas de baixo orçamento. Bons actores e uma história que todos conhecemos mas que se torna mais nítida naquela caminhada pelos meandros da imigração nos Estados Unidos. Enfim… como podem calcular com o visionamento de tanta película dormi pouquíssimo.

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No aeroporto de Buenos Aires lá esperei mais de meia hora pelo carimbo no passaporte e, sempre com receio de extravio de bagagem, lá vi aparecer a minha mala laranjinha de 12 quilos na passadeira rolante. Fui comprar a viagem de táxi a uma empresa creditada pelo aeroporto, depois de várias propostas de taxistas não creditados, claro! “Aterrei” no Hotel Íbis no centro da cidade por volta das onze horas, morta de cansaço. Tomei banho e por momentos pensei que não tinha energia para não me meter na cama. Recomendo vivamente este local, preço/qualidade garantido, e bem situado numa praça interessante da cidade. Como na porta do meu quarto tinha tantas advertências sobre segurança, rapidamente me senti consciencializada com a ideia que estava num país sul-americano. Desde 2007 que não sabia o que isso era e lembrei-me logo de uma situação evidente dos procedimentos que é preciso tomar nestas ocasiões, ou seja, reduzir ao mínimo a exteriorização de relógios, máquinas, carteiras, ou qualquer outro objecto apelativo. Uma vez aqui em Lisboa fui ao Colombo, depois de uma estada em São Paulo de muitos meses, e ainda sentia a pressão de olhar e controlar a carteira em cada esquina. Estava aqui como se estivesse em São Paulo.

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Lá me decidi a ir explorar o local dos encontros 3rd Inclusiva-net Meeting: NET.ART (SECOND EPOCH). The Evolution of Artistic Creation in the Net-system pois sabia que tinha que fazer o percurso a pé, dado que o trânsito é imenso naquela zona, e foi assim que percorri os doze quarteirões do hotel ao espaço do Centro Cultural de Espanha em Buenos Aires (CCEBA). Lá fui, com o mapa Google, a disfarçar as espreitadelas ao papelucho e a tentar mostrar que conhecia cada esquina de Buenos Aires como a palma da minha mão. Naquela tarde ainda me parecia pouco provável pensar em transportar o computador às costas mas, nos dias seguintes, já nem me lembrava das advertências sobre segurança na porta do meu quarto. Reconhecia as ruas que tinha percorrido há cinco anos e o corpo já se tinha adaptado novamente à América do Sul. Estava a começar a reconhecer os cheiros, o ambiente e as sinuosidades do território. O caminho nessa tarde pareceu imenso e quando cheguei ainda ouvi o final da comunicação de Curt Cloninger.

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No intervalo entre a sessão da tarde e a sessão da manhã fui deglutir uma costeleta de “cerdo” com puré de maça que me soube divinalmente e às 16 horas já estava de volta para ouvir a comunicação de Steve Dietz. Este seminário foi interessante e curiosamente foi apontado o gaming como uma tendência da evolução das práticas artísticas. Fiquei com alguma confiança para a minha apresentação pois parecia quase uma introdução às manobras que eu apontaria como a minha área de investigação actual. Depois de umas compras nas redondezas cai na cama com o noticiário: um surto de taxistas violadores e a insegurança e a violência tomavam conta da agenda do dia. Ouvi ainda nas notícias que se aproximava um dia seguinte em que chovia em Buenos Aires aquilo que poderia chover durante um mês inteiro… 

Quarta-feira choveu literalmente o dia todo. Cuidadosamente decidi vergar-me à preguiça, não fosse adoecer, e passar o dia a descansar e a treinar a comunicação no hotel. Dado o cansaço acumulado, o excesso de ar condicionado dos últimos dias e a chuva, nem as redondezas do Íbis me pareceram convidativas a um passeio e decidi colocar os e-mails em dia e dormir descansadamente num stop over decisivo para o dia seguinte. 

Quinta-feira fui almoçar com os organizadores, Juan Martin Prada, director do programa, José Luis de Vicente, jornalista e comissário de vários festivais e eventos sobre cultura digital e Marcos Garcia do Medialab_Prado. Antes dos cinquenta minutos de fama não tinha grande apetite e pelas quatro horas lá estava eu a debitar a minha conversa para uma audiência de mais ou menos cinquenta pessoas que, segundo percebi no dia seguinte, vinham de vários cantos da América Latina (Peru, Chile, Brasil, etc.), dois ou três americanos e espanhóis. O resto da audiência parecia da Argentina, de Buenos Aires mas não só. No final, Steve Dietz comentou que a minha comunicação tinha muita informação e pediu para referenciar novamente o nome de Egas Moniz. Uma argentina de Cordóba, assim como um amigo dela, disseram-me que tinham gostado muito da apresentação e que os tinha deixado sem palavras pois era muito diferente das outras. Para além disso acabei por ter pouco feedback. Juan Martin Prada agradeceu-me novamente, ouve palmas, mas não sei exactamente o que quiseram dizer por questões talvez culturais. Não tive nenhum “bravo” como em Vancouver, sniff, sniff. O público também era muito mais novo, na sua generalidade, do que o do Canadá.

Seguiu-se o seminário de Daniel Garcia Andújar sobre plataformas para comunidades digitais. Penso que estava um bocado abananada com o efeito pós missão cumprida para apreender algumas coisas mas confesso que achei um pouco confuso. No dia seguinte fui assistir ao grupo de discussão que foi interessante e onde se apresentaram alguns projectos com piada provenientes do Peru, do Chile, da Argentina e onde Marcos Garcia apresentou o Medialab Prado. Gostei principalmente do robot que junta lixo (basura), da máquina de gerar sonhos, Dreamlines e do projecto Outsource Me! Tudo presente na apresentação do argentino Leonardo Solaas.

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Curiosamente em 2003 uma das coisas que mais me surpreendeu na visita que fiz a Buenos Aires foi a forma como o lixo tem uma presença tão intensa na cidade. Para quem vinha de São Paulo e chegava à sofisticada Buenos Aires ver tanta gente a remexer no lixo era um fenómeno que não escapava facilmente à atenção mesmo de um turista. Desta vez constatei que esse olhar era mais real do que na altura pensei. Como se pode constatar no site Basurama e na introdução de Leonardo Solaas aos robots recolectores. O lixo torna-se uma presença constante, pequenos aglomerados e lixeiras pela cidade, remexidos, pesquisados. É uma coisa estranha.

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De resto, de assinalar uma ida ao cineclube, INCAA, Instituto Nacional de Cine Y Artes Audiovisuales, ver o filme Rodney de Diego Rafecas sobre um miúdo de nove anos e as suas relações com uma família disfuncional. Um filme um bocado desequilibrado e com um argumento por vezes patético. Uma maravilhosa degustação de Ceviche num restaurante Peruano chamado Chan Chan recomendado no Time Out Buenos Aires. Um naco de carne na pedra em Puerto Madero acompanhado por uma salada temperada à la carte e tudo regado com um delicioso copo de vinho argentino. Finalmente, uma visita à livraria el ateneo, já lá tinha estado mas não resisti ir espreitar novamente a recuperação de um teatro onde tantos artistas representaram no passado. Saber mais aqui. Pela primeira vez me disseram para não tirar notas de livros numa livraria… fui coagida por uma segurança a não tirar apontamentos. Tenho o vício de ir buscar inspiração às livrarias locais e depois encomendar os livros pela net, se calhar é desonesto, pelo menos ali nem sequer é permitido. 

Para casa trouxe uma “degustação” de cinema argentino em DVD: Nueve Reinas (2000) de Fábian Bielinsky, um divertido filme sobre dois burlões passado no oponente Hotel Hilton de Puerto Madero, dois actores excelentes, Ricardo Darín e Gastón Pauls, e um enredo que vale mesmo a pena conhecer. Histórias Mínimas (2002) de Carlos Sorin, uma obra que encanta pela simplicidade, pelos enquadramentos subtis e por uma boa direcção de arte. Com música de Carlos Paredes. O argumento remete-nos para três histórias cruzadas, um idoso que decide procurar o seu cão desaparecido há três anos, uma mulher em viagem em direcção a um concurso de televisão e um vendedor ambulante que leva um bolo de anos ao filho de uma mulher que mal conhece. O enigmático e surrealista El Lado Oscuro del Corazón (1992) de Eliseo Subiela que, confesso, tanto achei interessante como um bocado pretensioso e que narra a relação entre uma prostituta de Montevideo e um poeta de Buenos Aires. Finalmente, Tapas (2005) de José Corbacho e Juan Cruz que ainda não vi.

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O regresso foi calmo e depois de pagas as taxas para deixar o país lá vi mais um ou dois filmes no voo de regresso, o último 007 que achei um bocado fraco e outro que sinceramente já não me recordo qual foi. Voltei a tentar ver o Wall-E e não é que adormeci precisamente no mesmo sítio do filme… aquele filme para mim tem um efeito soporífero e até penso que vou comprar o DVD como terapia da insónia. Buenos Aires deixou-me saudades é uma cidade incrível, as pessoas são de uma simpatia muito especial, discretas, transpiram sofisticação e cultura. É como encontrar um pouco de Paris na América do Sul.

Resta-me aqui reiterar os mais sinceros agradecimentos a Sonia Díez Thale (Medialab_Prado), por ter tratado da minha viagem, hotel e de todos os procedimentos necessários à ida para Buenos Aires, a Juan Martin Prada (director do programa 3er Inclusiva-net) pela forma calorosa como me apresentou, a Marcos Garcia (Medialab_Prado) pelo apoio logístico, à Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias pela integração no projecto Infomedia e à Inês Santa por ter tomado conta da tradução do texto.


Segunda-feira, 16 de Março de 2009
BUENOS AIRES_ICONOGRAFIAS
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Segunda-feira, 2 de Março de 2009
BUENOS AIRES_ARGENTINA_09
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Parto amanhã para Buenos Aires via Paris e como andei a espreitar as minhas fotografias da cidade tiradas em Agosto de 2003 deixo-vos com algumas imagens dessa altura. Já não me lembrava quão estimulante Buenos Aires ou “Bons Ares” é e fiquei entusiasmada com a partida ao visualizar as fotografias. Vou rever San Telmo, a Recoleta, Porto Madero, El Caminito, entre outros lugares fascinantes da cidade.

Penso que vou estar em stress até quinta-feira, dia 5 de Março, altura em que é suposto dar a comunicação Action! Playable media and persistent games for the creation of on-line alternative realities and cross narratives (Cooperation versus Competition), cinquenta minutos de apresentação mais dez de debate, no âmbito do encontro 3rd Inclusiva-net Meeting: NET.ART (SECOND EPOCH). The Evolution of Artistic Creation in the Net-system no Centro Cultural de Espanha em Buenos Aires. Evento organizado pelo Medialab Prado de Madrid.

Depois da comunicação yupie! Um fim-de-semana para usufruir da cidade e deglutir uma picanha ou um naco de carne na Pedra. Entretanto chego terça-feira de manhã a Buenos Aires, ainda a tempo de assistir ao seminário de Steve Dietz, Beyond 'Beyond Interface': Art in the Age of Ubiquitous Networking, se não esiver estafada com a viagem. Tomem bem conta da casa!
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