Sábado, 27 de Março de 2010
SONIC ACTS 2010:”THE POETICS OF SPACE”_ALGUMAS NOTAS DAS CONFERÊNCIAS_por Margarida Carvalho
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Dos flocos de nuvens espreitados pela janela do avião às minúsculas gotículas de chuva vaporizadas no rosto quando saí da porta giratória do aeroporto de Schiphol, em tudo ia lendo índices da minha chegada à bela cidade fluvial, Amesterdão, onde iria acompanhar durante três dias repletos e intensos a décima terceira edição do Festival Sonic Acts, dedicada ao tema The Poetics of Space. Eram cerca de 15H, o céu estava cinzento e os canais serpenteavam o caminho da estrada. Gosto especialmente das primeiras impressões sentidas quando chego a uma cidade, os cheiros, as cores, a luz, os sons, os rostos e, enquanto nos adentrávamos no centro de Amesterdão, o silencioso e veloz ritmo das bicicletas, a texturas das lãs coloridas a proteger os corpos do frio, a beleza da arquitectura e a tranquilidade aquática deixaram-me especialmente optimista e expectante em relação a esta visita.

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Fiquei alojada na Prinsengracht, no Hotel Mozart, num quarto minúsculo mas confortável que exprimia bem a filosofia dos meus anfitriões, aparentemente uma pragmática família chinesa, cordial mas pouco efusiva. Logo na esquina, ao virar à esquerda quando saía do hotel, entrava na Leidsekruisstraat e ficava rodeada de gastronomia de todo o mundo, junto de alguns restaurantes bastante simpáticos, e mais uns minutos chegava ao centro cultural De Balie - Centre for Culture and Politics onde iriam decorrer as conferências do Festival. Mais um bocadinho a pé e lá estava o mítico Paradiso no qual, noite após noite, a seguir às conferências, decorriam sessões de projecção e live performance dedicadas sucessivamente aos temas: Deep Spaces, Expanded Space e Acoustic Spaces (na galeria do Sonic Acts no Flicker podem ver-se fotos excelentes destas sessões).

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A abertura (e o fecho) das conferências coube a Derrick de Kerckhove que apresentou a sua comunicação "Beyond Perspective: From the Point of View to the Point of Being". Kerckhove inaugurou o debate sob o signo da percepção multi-sensorial, um dos temas de fundo do Sonic Acts 2010. Segundo Kerckhove, discípulo e colaborador de Marshall McLuhan durante cerca de uma década, o papel da arte no mundo actual é o de nos adaptar psicologicamente ao impacto da tecnologia sendo que hoje a herança da Renascença, nomeadamente a importância dada ao “ponto de vista” na cultura visual ocidental, estão completamente obsoletas porque não nos permitem dar conta da centralidade do corpo e da dimensão táctil na percepção contemporânea. Para Kerckhove, a era da electricidade tem de ser compreendida à luz de uma modalidade sensorial “proprioceptiva” cujo “ponto de existência” remete para o corpo próprio e para a sua pele que absorve as carícias, o choque e o stress físico que advêm da nossa interacção com o mundo. “Electricity is touch”, sendo que o “ponto de existência” é a resposta da electricidade ao “ponto de vista” que emanou da literacia e das suas múltiplas operações de distanciação e abstracção.

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Mais tarde, na sessão "Exercises in Immersion", após uma apresentação muito performativa de Naut Humon, que prestou homenagem à sua colaboradora, a recém-falecida Marianne Amacher, e nos deu a conhecer os Recombinant Media Labs fundados por si em 1991, Christopher Salter fez uma excelente apresentação na qual retomou alguns dos temas abordados por Kerckhove, nomeadamente a concepção da percepção como um acto corporal afectivo. “Perception is a performance – an ‘acting out’”.

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Tomando como ponto de partida a investigação sobre a psicologia da percepção e a experiência numa câmara anecóica levada a cabo por Robert Irwin e James Turrell, em colaboração com o psicólogo Edward Wortz, no âmbito do programa Art and Technology (1967-71) (organizado por Maurice Tuchman no Los Angeles County Museum of Art como uma extensão das sinergias geradas a partir dos Experiments in Art and Technology, E.A.T.), Christopher Salter defendeu uma concepção performativa da percepção (“enactive perception”) criticando o conceito de “interacção” enquanto apenas “feedback em loop”. Com um discurso rico em referências, seguro na sua exposição e hábil na capacidade de as cruzar, Chris Salter deixou-me cheia de vontade de ler o seu recém-publicado Entangled que já está aqui em cima da minha secretária. No catálogo da exposição "Esemplasticism: The Truth is a Compromise", produzida pela plataforma TAG em colaboração com DISK/CTM - Club Transmediale e exibida em Berlim entre 29 de Janeiro e 27 de Fevereiro deste ano, está incluído um breve ensaio de Chris Salter bem como de mais dois conferencistas do Sonic Acts 2010, Edward A. Shanken e Brandon LaBelle. A ler definitivamente!

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E das memórias do E.A.T. para o anfiteatro apinhado do De Balie, talvez o testemunho mais sentido e acarinhado das conferências do Sonic Acts 2010 tenha sido o de Robert Whitman, que a par de Allan Kaprow, Jim Dine e Claes Oldenburg, integrou a lufada de inovação e experimentação no meio teatral nova-iorquino apresentando performances, durante os anos sessenta, sob o signo da hibridez (ver aqui vídeos destas performances). Robert Whitman, que desmistificou as tão celebradas 9 Evenings relembrando no entanto a performance magnífica Open Score de Robert Rauschenberg, falou-nos do seu trabalho em “found spaces” e das suas “composed walks” que guiavam os participantes nestes espaços desabitados fazendo-os redescobrir a sua dimensão evocativa. Retomando a brilhante mas problemática apresentação de Branden W. Joseph sobre a obra HPSCHD de John Cage e Lejaren Hiller e as reflexões de John Cage sobre os problemas políticos lançados pela prática do happening e da performance, nomeadamente o papel do líder e do guião nestes eventos (Cage criticava os happening de Kaprow pela sua “tendência policial” na medida em que implicavam a “direcção do público”), Robert Whitman corroborou a visão de Cage segundo o qual “a happening should be like a net in which we can catch a fish which we do not know”.

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Whitman falou-nos ainda do seu contributo para a criação do Pepsi Pavilion na Expo’70, em Osaka, e dos seus Telecommunication Projects, nomeadamente dos trabalhos mais recentes como Cell Phone Performance e Local Report. Devo dizer que adorei as intervenções de Robert Whitman, não só a sua apresentação (da qual podem ver um excerto aqui) mas também os seus comentários. O sentido político e poético das suas palavras (que não se compatibilizava com o “nightmarish powerpoint” que ele usava renitente e comicamente) e a sua capacidade de se exprimir por imagens e alegorias abriam o espaço em que pensávamos, expandindo-o velozmente. Um mestre na poética do espaço!

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Espaços híbridos e arquitecturas invisíveis foram também dois dos temas das conferências que mais me interessaram e a variedade e qualidade dos contributos foi tal que se torna impossível resumi-las aqui. Destaco a dupla Dirk Hebel e Jörg Stollman, fundadores do INSTANT - Institute for Architecture, Nature and Technology, sediado em Zurique. Dirk Hebel começou por nos falar da sua colaboração com o famoso atelier de arquitectura e design urbano multimedia Diller Scofidio + Renfro na concepção e produção do Blur Bulding, o pavilhão da Expo Suíça 2002. Tal como se pode ler na secção dedicada ao Blur Building no website do Diller Scofidio + Renfro: “The Blur Building is an architecture of atmosphere – a fog mass resulting from natural and manmade forces. Water is pumped from Lake Neuchatel, filtered, and shot as a fine mist through 35,000 high-pressure nozzles. A smart weather system reads the shifting climate conditions of temperature, humidity, wind speed and direction and regulates water pressure at a variety of zones. (...) It is a habitable medium that is formless, featureless, depthless, scaleless, massless, surfaceless, and dimensionless. (...) In this exposition pavilion there is nothing to see but our dependence on vision itself”. Exemplo perfeito, realmente, para abordar o tema das arquitecturas invisíveis, o de um edifício que se respira e cujo invólucro também se pode beber no seu water bar (ler aqui a entrevista a Brian Massumi “Transforming Digital Architecture from Virtual to Neuro” (2006) na qual ele cita precisamente o exemplo do Blur Bulding).

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Com humor e dinamismo, alternando entre si a palavra, Dirk Hebel e Jörg Stollman foram apresentando alguns dos projectos mais emblemáticos da INSTANT nomeadamente On Air (2004-2005), uma estrutura pneumática temporária acoplada à fachada do KW _ Institute for Contemporary Art de Berlim, e o The United Bottle Project (2007), com as suas garrafas PET que podem ser retiradas dos circuitos de reciclagem a fim de serem utilizadas como materiais de construção para habitações em caso de crise ou necessidade (ver aqui um desses habitáculos).

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Com preocupações bastante afins em termos de flexibilidade, modularidade e comunicabilidade,  Elizabeth Sikiaridi (que dirige com Frans Vogelaar o Hybrid Space Lab), no painel "The Poetics of Hybrid Spaces" moderado por Eric Kluitenberg (o director do programa media do De Balie), apresentou-nos vários projectos desenvolvidos sob o signo da hibridez e do urbanismo soft (a fim de aprofundar ler aqui e aqui). O destaque vai para o jogo CITY KIT desenvolvido para o evento Checking Reality em 2008 organizado pela Platform21. Tal como se pode ler no descritivo do projecto no website da Platform21: “When they play the CITY_KIT game, residents can adapt and improve their local physical environment by building a digital version of their neighborhood. This urban game revolves around city planning, redevelopment and building processes. (…) CITY_KIT is an open-source medium in which participants can add elements and share their designs”. Durante o evento Checking Reality, este jogo incluía também o concurso CITY_KIT of the Day que permitia aos residentes e jogadores fazerem o design dos seus próprios objectos e equipamentos viabilizando o desenvolvimento e concretização do projecto do vencedor."

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Finalmente, e deixando tanto por contar, algumas impressões sobre a conferência de Philip Beesley no último painel intitulado "Gardeners of the Future". Uma presença serena, acolhedora e visionária, Beesley, cuja instalação geotêxtil imersiva e interactiva Hylozoic Ground (desenvolvida com a colaboração de Rob Gorbet) irá representar o Canadá na Bienal de Veneza deste ano, falou-nos da sua concepção de uma arquitectura sensível e empática capaz de nos envolver e comunicar à semelhança de uma aura (o que levou Kerckhove no debate final a colocar a questão de saber se estaríamos perante o regresso da aura). A reflexão que fez sobre o seu complexo trabalho arquitectónico cruzou referências da psicologia, nomeadamente a inspiração sugerida pelos “objectos transitórios”, da história da arte, como a presença dos mantos e das auras na pintura de Fra Angelico, os padrões entrelaçados do arvoredo de uma floresta e a sua ligação afectiva e física ao solo canadiano. Muito em breve teremos oportunidade de ver e ouvir Philip Beesley uma vez que ele virá a Portugal para participar na conferência Artech 2010 "Envisioning Digital Places". Mas até lá fecho este bloco de notas deixando-vos aqui algumas imagens e textos do livro de Beesley Hylozoic Soil: Kinetic Architectures and Geotextile Installations.




MARGARIDA CARVALHO NA MOUSELÂNDIA
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Margarida Carvalho é licenciada e mestre em ciências da comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Desde 1998 é docente na Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa onde lecciona, actualmente, as disciplinas de Arte e Comunicação e Semiologia. O seu livro Híbridos Tecnológicos foi publicado pela editora Nova Vega em 2007 e a autora tem vários artigos publicados, nomeadamente na Revista de Comunicação e Linguagens (CECL-FCSH-UNL) e nas revistas online INFLeXions, Interact e Virose. Encontra-se, actualmente, a desenvolver a sua tese de doutoramento dedicada ao tema da participação nas artes digitais.


Sexta-feira, 26 de Março de 2010
MOUSELAND_CALENDÁRIO PARA OS PRÓXIMOS MESES DE PRIMAVERA
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Os próximos meses vão ser reservados a alguns projectos que tenho de momento em desenvolvimento e por isso deixo aqui algumas novidades pois a presença neste espaço pode ser menos regular. Já a prever isso mesmo fiz alguns convites para aparições do género colaborativas na mouseland. A primeira contribuição é de Margarida Carvalho e é publicada já de seguida.

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Em Abril vou apresentar duas comunicações. Uma delas de quarenta minutos sobre o meu trabalho pessoal na Universidade de Coimbra, conferências organizadas no âmbito do curso de Design e Multimédia da mesma Universidade. Esta apresentação será centrada na temática "Estética e Design da Experiência Lúdica" a partir dos meus projectos pessoais e terá lugar pelas 17 horas no Museu da Ciência. Outra comunicação que farei, ainda em Abril, terá 20 minutos, mais dez minutos para perguntas, e será no pólo de Guimarães da Universidade do Minho no âmbito do Artech 2010, este ano subordinado ao tema “Envisioning Digital Spaces”. A minha comunicação tem como título “[NET]AR[G]Ts: experiências transmedia e narrativas cruzadas.”

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Em Maio vou fazer a exposição instalação/jogo Brincar com a Poesia no âmbito da Semana da Leitura na Biblioteca Municipal de Oeiras, um ARG que divulgarei em breve e que conta com a participação de uma equipa de criação e produção em artes digitais e não só, a saber, Ana Isabel Santos e Ana Paula Jardim (selecção de poemas, Biblioteca Municipal de Oeiras), Laura Cortes e Tiago Reis (vídeos, imagem e som), Pedro Suspiro (web e jogos flash, Canal PT), Sérgio Costa (instalações com sensores, Movlab), Rui Pereira Jorge (sonoplastia, Movlab), Fernando Luís Sampaio (poemas lidos). O conceito e o design estará a cargo da mouse e o projecto faz parte de um novo track de artes digitais que estou a desenvolver, desde o início deste ano, para o Movlab da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. No mesmo mês de Maio, dia 21 pelas 14h30, apresentarei, no âmbito do V Encontro Oeiras a Ler, uma conferência de quarenta e cinco minutos subordinada ao tema "Literacia dos media e artes digitais". 

Em Julho sairá o meu primeiro livro com o título Artes e Jogos Digitais, Estética e Design da Experiência Lúdica. O livro será editado pelas Edições Lusófonas, numa colecção dirigida por Manuel José Damásio, que tem como tema “Imagens, Sons, Máquinas e Pensamento: Textos em Cinema, Vídeo e Multimédia". Este livro é uma síntese da minha tese de doutoramento e dos dois últimos anos de investigação no âmbito do projecto Infomedia, Information Acquisition in New Media, e terá prefácio de Henrique Gracia Pereira.

Por tudo isto até Julho, e porque também vou mudar de casa, a minha vida está demasiado atarefada para dar conta, de forma continuada, deste blogue mas estou certa que vão gostar de ler algumas contribuições que aqui vão aparecer pois será uma lufada de ar fresco para aqueles que já estão a ficar cansados da minha conversa. Eu principalmente, hehehe!


Terça-feira, 23 de Março de 2010
LIVRO “NOVOS TRILHOS CULTURAIS - PRÁTICAS E POLÍTICAS”_ AMANHÃ NO ICS!
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É já amanhã pelas 18h30 no ICS, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, o lançamento do livro, Novos Trilhos Culturais – Práticas e Políticas. O livro tem coordenação de Maria de Lourdes Lima dos Santos e José Machado Pais e será apresentado por Alexandre Melo e Jorge Barreto Xavier. A sessão terá lugar no Auditório Sedas Nunes do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. De acordo com o site do ICS: “Este livro explora possíveis «novos trilhos culturais» num contexto de novos rumos societais. Isto tanto a nível das práticas quanto das políticas. Espera-se que ele possa contribuir para uma reflexão em torno de múltiplos questionamentos que inquietam investigadores e agentes culturais. Por exemplo, quais os mecanismos de promoção ou gestão da diversidade cultural? Qual o lugar das práticas culturais na formação ou sensibilização dos públicos da cultura? Que relações estabelecer entre os públicos e as políticas de cultura? Em que públicos pensamos quando falamos de políticas públicas da cultura? Como evitar que as indústrias culturais se circunscrevam a meras indústrias de entretenimento? Qual o papel da cultura na recuperação do espaço público, nomeadamente nas cidades? Os contributos do livro distribuem-se pelas seguintes partes: «Novas valências da cultura»; «Criação/produção cultural e artística: novos contextos e novas relações»; «A cultura, os media e as novas tecnologias»; «Políticas culturais e desafios actuais»; «Que destaques nos novos trilhos da cultura?»”. Mais informações aqui. Do livro faz parte um capítulo que escrevi no final de 2008: Playable Media, Como Gerar Sistemas e Plataformas de Cooperação na Rede?”


Segunda-feira, 8 de Março de 2010
“AN EDUCATION”_MARAVILHOSO!
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An Education da dinamarquesa Lone Scherfig (2009) é imperdível, dos melhores filmes que vi do ano passado e, juntamente com The Hurt Locker (Estado de Guerra, Kathryn Bigelow, 2008), faz parte dos meus favoritos para a noite de Óscares, a qual aguardo com ansiedade. Não estou a eleger ambos os filmes apenas por serem filmados por mulheres mas porque para mim foram realmente dos mais impressionantes registos da criação e produção cinematográfica recente. Ainda me falta ver O Laço Branco de Michael Haneke (2009) mas dos filmes que já vi estes são os eleitos.

An Education é um registo tocante sobre a adolescência, sobre escolhas de vida e sobre o charme (discreto) da burguesia. A desesperada tentativa de ascender a uma classe privilegiada é aqui motivo para uma educação em Oxford ou, em alternativa, para um casamento conveniente. A mulher do início dos anos sessenta, sem outra escolha, senão servir o homem, com ou sem inteligência. No filme nada é óbvio e o argumento de Nick Hornby é bastante subtil recordando, sem dúvida, a adaptação ao cinema do seu romance About a Boy (Chris Weitz, 2002). Os actores são excelentes e o enredo reserva algumas surpresas. O fascínio por Paris, pela cultura francesa, contrasta com a vida espartana que se vive em casa da protagonista. O estudo e os cigarros, a farda e os vestidos glamourosos, coexistem numa narrativa que nos faz pensar como é importante poder escolher. Os livros, os óculos de massa e as borbulhas podem concorrer com o hedonismo, com as festas e o álcool, mas também podem andar de mãos dadas pois, no final, o que conta são as lições de vida. Maravilhoso.

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Domingo, 7 de Março de 2010
“WHATEVER WORKS”_HILARIANTE
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Whatever Works de Woody Allen surpreendeu-me bastante depois do, quanto a mim, desapontante Vicky, Cristina, Barcelona, de há dois anos. Este novo filme do realizador americano recordou-me Match Point (2005) e achei o humor negro, misturado com uma subtil crítica social, uma lufada de ar fresco. Whatever Works é divertido e inteligente, uma história simultaneamente provável e improvável. Uma rota de colisão entre personagens díspares: Boris Yelnikoff (Larry David), o génio da física, depressivo e com ataques de pânico; Melody (Evan Rachel Wood), a jovem do Mississípi que foge de casa dos pais para tentar a sua sorte em Nova Iorque; Marietta (Patricia Clarkson), a mãe da rapariga que sofre uma metamorfose hilariante e que se vê catapultada para a fama artística; John (Ed Begley Jr.), o pai de Melody que depois de uma aventura falhada com a melhor amiga da mulher decide “sair do armário”; Finalmente, os amigos, o bairro e os diversos momentos simples e cómicos que vão costurando uma trama onde todos andam à procura de alguma coisa, onde tudo é incerto e onde a trajectória, a acção, é o que interessa.

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A mistura de gerações e as relações pouco prováveis tornam-se prováveis pela necessidade, pela procura e pela curiosidade. Melody seduz Boris porque essa sedução lhe permite realizar um sonho, viver em Nova Iorque, sair da província e transformar-se. Ao aceitar a bondade da miúda, o cínico homem de meia-idade, entra também em rota de colisão para uma vida diferente. Boris aceita a generosidade de Melody porque essa generosidade lhe permite mudar de vida e transformar-se. Todas as personagens deste filme acabam por sofrer uma metamorfose e todas ganham alguma coisa pelo simples facto de Melody ter pedido ajuda a Boris. Porque Melody entrou em casa do físico que perdeu o prémio Nobel os clichés misturam-se com as frases caras e com as teorias quânticas e no processo a realidade de ambos muda. Um filme simples q. b. mas muito divertido. Porque será que Woddy Allen não perdoa aos artistas? A crítica às artes contemporâneas é, mais uma vez, à semelhança de Vicky, Cristina, Barcelona, feroz. Ainda bem que, no entanto, voltou aos retratos da cultura anglo-saxónica. A ver.
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