Terça-feira, 23 de Maio de 2006
INCORPORAÇÃO E ACÇÃO

magic book


A turbulência do excesso de informação digital apela ao envolvimento imersivo da mente e muito pouco à participação do corpo. As interfaces contemporâneas, ainda muito ofuscadas pelo mito tecnológico do corpo do utilizador que se transmigra para o espaço virtual, desincorporando-se (disembodiment), esquecem com frequência o papel fundamental do corpo humano como lugar por excelência da percepção motora. Para Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa há seis motivações (linguagens e discursos) a ter em consideração no desporto das gerações futuras: confronto com o espaço natural; imprevisibilidade do meio; risco e aventura corporal; liberdade de escolha das práticas desportivas de acordo com um tempo individual e com as suas próprias regras de acção; cultura específica de grupos de amigos; criação de modas e hábitos quotidianos (link). O espaço estável e seguro de regras fixas é substituído pelo espaço instável com referências de incerteza na época da turbulência. Os desportos radicais apelam para a acção, participação e manipulação extensíveis à rede de comunicação global e definem-se por uma cultura lúdica que privilegia a fluidez e o caos. Os objectos culturais da cultura de entretenimento do século XXI acompanham esta tendência. Alguns autores de videojogos estão hoje a chamar a atenção para a componente mais física (incorporada) dos jogos de crianças e a propor estruturas novas de intersecção realidade física/realidade virtual.

 O caso bem recente do designer Keita Takahashi num exemplo que pode ser consultado on-line e que nos alerta para a importância do parque infantil real. Escultor de formação a trabalhar na área dos videojogos desde 1999, Keita Takahashi, obteve com a concepção do jogo Katamari um enorme êxito e hoje em dia advoga que no espaço de dez anos estará a desenhar parques infantis e não videojogos (link). Outro exemplo desta natureza é o caso de Electroplankton de Toshio Iwai (link) tanto como alguns dos seus trabalhos mais antigos. Deveremos ter ainda em conta as intersecções entre realidade física/realidade virtual das experiências de realidade aumentada e mista como o Augmented Groove (link), o Magic Book (link), algumas aplicações de realidade virtual na terapia e acompanhamento de doentes com Parkinson da Fundação Paul Allen (link) as interfaces multimoldáveis (link) e as aplicações na unidade de cuidados intensivos de queimados do hospital de Washington (link). Todos estes exemplos apontam para estratégias possíveis a adoptar nesta valorização do corpo próprio do utilizador/jogador que se quer cada vez menos imóvel.


 

 




3 comentários:
De mq a 23 de Maio de 2006 às 17:04
Isto faz-me lembrar os jogos do tipo eyetoy, onde a componente física é um requisito e a "comunicação" estabelecida envolve participação activa do corpo humano como um todo. O mais curioso ainda é que jogos deste tipo tb apelam para o envolvimento dos jogadores em estratégias não competitivas, antes implicam uma cooperação ao nível físico e mental!
Mas as aplicações terapêuticas dos videojogos em casos em que o corpo se encontra aparentemente impossibilitado de interagir superam as minhas expectativas:shock:...


De cris a 10 de Junho de 2006 às 19:59
:shock:
Lendo este precioso texto e tendo terminado em simultâneo a leitura de "The embodied Mind: Cognitive Science and Human Experience" de Varela, Thompson, and Rosch, MIT Press, 1993, de imediato contextualizei a perspectiva de Carlos Neto e análise consequente no novo paradigma enactive, no que concerne a cognição e acção/experiência. Esta nova perspectiva para a ciência cognitiva abala conceitos reificados que nos habitam, nomeadamente o conceito de "representação" e seu universo restrito e limitativo, propondo a acção estimulada pela percepção, como desencadores do processo cognitivo; então o corpo é rei e senhor de "cum saber de experiência feito". Todo o ser vivo é pois um ser cognitivo, construindo nas interacções que estabelece com o meio, a sua própria história, coadjuvada pela noção de´groundlessness` trazida da tradição meditativa budista. noção associada a conceitos tão actuais quanto o de desprendimento, mobilidade,fluidez e caos. Uma co-evolução humano/meio, em circularidade incessante, tal como a ´roda da vida`de inspiração budista.
O novo conceito de Enaction apela à evidência da diversidade humana e à própria individuação, enquanto o corpo humano passa a ser em simultâneo sujeito e objecto de interacções que o constituem num corpo mais livre, autómo e actuante, mas também mais responsável pelo seu próprio processo cognitivo. Todavia ADN, diversidade de ambientes, constituem, pensamos, condicionantes às experiências levadas a cabo por esse mesmo corpo.
A leitura e análise de "The Embodied Mind..." esclarece-nos sobre o conceito de ´embodiment`, tão em voga na comunidade científica global "I have now expanded intense focus on the body as embodied experience." Barbara M. Stafford (set. 2005).
Contudo a tradução do conceito para a língua portuguesa continua a suscitar-me dúvidas. Com a leitura da obra de Varela, foi-me dado conhecer traduções do título original:
-" A mente corpórea: ciência cognitiva e experiência humana,
Ed. Piaget, 2001
- "L´inscription corporelle de l´esprit: sciences cognitives et expérience humaine", Ed. Seuil, 1993

Após uma funda leitura de "The Embodied Mind..." fica-se de facto mais leve e próximo do nirvana; um corpo mais livre desprendido e também mais perplexo perante a complexidade humana.
A ponte que de imediato estabeleci com o texto aqui editado, indicia a emergência de focos de análise e reflexão, entre nós, sobre o novo paradigma da enaction para as ciências cognitivas.

ENACTIVE/06 Conference://www.enactive2006.org/

Curiosidade
Varela e co-autores servem-se da velha metáfora da viagem " Our journey has now brought us to the point where we can appreciate..." para sustentáculo e intensificação dos seus argumentos, metáfora a que se junta outra conhecida metáfora,atribuida a mais que um poeta: Borges, Machado...
"Our guiding metaphor is that a path exists only walking..."
:roll::lol::evil:


De Ebay hot items a 10 de Agosto de 2008 às 22:18
Very interesting blog, i have added it to my fovourites, greetings


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