Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006
CIBERFEM_UM ROTEIRO COMPLETO DO CIBERFEMINISMO
cocofusco.jpg

Como dizia Simone de Beauvoir: “A gente não nasce mulher, torna-se mulher”... O evento CIBERFEM, feminismo no cenário electrónico, inaugurou no dia 20 de Outubro no Espaço de Arte Contemporânea de Castelló. Para a responsável pelo projecto, Ana Martínez-Collado: “Falar hoje de (ciber) feminismo – feminismo, internet, arte e activismo – é falar de criação experimental, comunicação, interactividade, investigação e associação. A internet consolidou-se como um espaço de visibilidade das mulheres numa pluralidade de direcções e facetas”. 

“Se a noção estável de género dá mostras de não mais servir como premissa básica da política feminista, talvez um novo tipo de política feminina seja agora desejável para contestar as próprias reificações do género e da identidade – isto é, uma política feminista que tome a construção variável da identidade como um pré requisito metodológico e normativo, senão como um objectivo político” (Butler; 2003: 23). 

A diversidade cultural das práticas femininas em rede manifesta-se, segundo Martínez-Collado, desde a origem do movimento em Kassel em Setembro de 1997 onde teve lugar a Primeira Internacional Ciberfeminista na Documenta X por OBN (Old Boys Network). Donna Haraway, Sadie Plant, as escandalosas e provocadoras VNS Matrix, são algumas das percursoras desde movimento e a exposição pretende dar visibilidade aos “feminismos no cenário electrónico” e “oferecer um panorama da diversidade de possibilidades de discursos e narrativas no desenvolvimentos da participação das mulheres no território expandido das novas tecnologias. Um território aberto onde confluem distintos discursos de género, sexo, e aberto à polémica da biotecnologia e a debates internacionais no contexto global das novas tecnologias da informação”.

anne-marie.jpg

Em exposição estão inúmeros trabalhos interessantes pelo que propomos uma viagem hipertextual pelas obras e sites associados ao projecto. Neste contexto, encontramo o trabalho de Shu Lea Cheang, “I.K.U” (2000), um vídeo sobre a sexualidade japonesa. Natalie Bookchin e Alexei Shulguin em “Construction of Natalie” reflectem sobre a reconstrução do corpo da artista numa peça digital sobre a identidade contemporânea. A questão da identidade e a reflexão sobre aquilo que queremos ser está também presente na peça “Be a star” de Elisabeth Smolarz. Critical Art Ensemble com “Cult of New Eve” (1999-00) problematizam questões relacionadas com a biotecnologia. Salomé Cuesta apresenta “Devenir Visible” (2006), um vídeo blogue sobre a relação arte-mulher-vídeo e internet. Cindy Gabriela Flores com “El lugar de las mujeres en el Metro de la Ciudad de México. La historia de una barrera de género obligatoria” (2001) propõe uma reflexão sobre os espaços dedicados à acção no feminino. Coco Fusco e Ricardo Domínguez mostram “Turista Fronterizo” (2005), um jogo bilingue sobre a fronteira que separa o México e os Estados Unidos. Dora Garcia aparece representada com três instalações de 2006 (uma instalação áudio, uma performance e uma revista) que exploram um espaço ficcional onde se questionam relações de identidade em que a narrativa tem um papel preponderante. As instalações da autora têm o nome de “Narrativa Instantânea” (performance), “Visitantes y Residentes” (instalação áudio no espaço público) e “Mujer. Todas las histórias / She. All the Stories” (instalação, revista). 

olialialina.jpg

Marina Grzinic & Aina Smid mostram um vídeo “Luna 10” (1994) e uma instalação áudio em espaço público, “Eastern House” (2003), ambos exploram a identidade sexual feminina, a globalização e o ciberespaço no contexto da Europa de Leste durante o desmantelamento dos regimes comunistas. Lynn Hershman apresenta “Dina” (2004-06) um “ciber ser” produto de tecnologias de inteligência artificial. Deb King expõe “The Wizard of Odd (WOdd)” (2005) sobre o colonialismo americano no emprego de motores de busca e recursos on-line. Annie Abrahams em “Ressurrection Karaoke for the humiliated” or “Test to Predict potencial agressive behavior” (2006) e Margot Lovejoy com “Parthenia. A Global Monument Violence Domestic Violence Victims” (1995) reflectem sobre a violência doméstica. Olia Lialina em “Agatha Appears” (1997) apresenta uma investigação sobre as possibilidades do hipertexto nas obras de arte on-line. Jess Loseby mostra o projecto para a internet, “Views from the ground floor” (2004), e a instalação on-line “Eating Canvas”, arquitecturas hipertextuais domésticas e intimistas misturadas com acontecimentos políticos actuais. Kristin Lucas expõe “Involuntary Reception” (2000), uma personagem fictícia que tem um enorme campo magnético. Prema Murthy, com “Mithic Hybrid” (2002), explora a alucinação colectiva da cultura híbrida homem-máquina no contexto das trabalhadoras das fábricas do sul da Ásia. Ana Navarrette com “N-340” (2006) propõe um conjunto de interfaces (instalação, vídeos, conferências e internet) que questionam as migrações exclusivamente femininas e a desprotecção social e laboral no contexto económico global. Old Boys Network com “Processing Cyberfeminism” (video de 1999) e “Cyberfeminism Posters” (instalação net de 2001) reflectem sobre a essência do ciberfeminismo. Julia Scher em “Wonderland” (1997) explora temáticas como o controlo, a sedução e o poder e Anne-Marie Schleiner e Web Talice Lee em “operation Urban Terrain (/M/OUT)” (2005) abordam a crescente militarização da vida civil pós 11 de Setembro. 

gabrielaflores.jpg

Cornélia Sollfrank em “Female Extension” (1997) e Evelin Stermitz em “World of Female Avatars” (2006) remetem-nos para um conhecimento expandido da mulher e da sua relação com o corpo usando a rede como meio de comunicação global que potencia a assemblage de um corpo extensível. Identify_Runners e SubRosa com “Yes Species” centram-se nas questões da memória e do activismo em instalações e performances de 2006. Victoria Vesna em “Mood Swings” (2004-06) captura os movimentos do participante e transfere o seu corpo para o mundo digital numa instalação interactiva que joga com a emoção e com a percepção do espectador. Linda Wallace apresenta o vídeo “Lovehotel” sobre a formação do desejo nos novos espaços de interacção e Eva Wahlgemuth na instalação multimédia “Bodyscan – instandstillness” (2006) investiga a representação do corpo através das possibilidades de clonagem e da cirurgia estética. CIBERFEM, é uma viagem a não perder pelas narrativas do ciberfeminismo.


8 comentários:
De cris a 24 de Outubro de 2006 às 00:00
:shock:
Excelente e detalhada informação sobre Ciberfem a acontecer em Castelló no Espaço de Arte Contemporânea. uma viagem real que não vou perder, acrescida pela viagem hipertextual a fazer logo que possível... um mapa no qual posso precisar os tarbalhos que são de meu particular interesse, nomeadamente de autoras de que já conheço as obras e perspectivas, tais como OBN e Cornélia Solfrank. O corpo feminino expandido, mutilado ou a questão do desejo são tópicos de interesse relativamente ao meu projecto.
:roll::lol::eek::oops:
Preciosa informação e análise sobre uma área de ´ponta`.
Ela se expandirá na rede... o post na mouselândia que foca
Ayaan Hirsi Ali, já foi visto/lido por muito ´boa gente`em pesquisas sobre feminismo e ciberfeminismo.:twisted::twisted::twisted:

Obrigada,
bjs e abrçs


De mouse a 24 de Outubro de 2006 às 02:01
:mrgreen:Olá Cris, :smile::cool:

Este post no minimo facilita a viagem por entre as obras e deu-me imenso gozo fazer pois obrigou-me a ler as excelentes sinopses sobre as peças da Ana Martínez-Collado. Além disso acabei por viajar de facto no percurso/mapa proposto pelas obras. Um marco na breve "vida" do movimento ciberfeminista. Repara nas semelhanças entre a imagem gráfica do evento e o meu Jizo... hehehehe. :lol:

Acho que se optou por mostrar a coesão do projecto/movimento ciberfeminista em vez de mostrar obras surpreendentes. Conceptualmente essa escolha resulta muito bem, parece-me. Obrigado por me teres alertado para o evento!

xxx mouse


De fada*do*lar a 24 de Outubro de 2006 às 02:24
Ui! Tenho que voltar rapidamente e ler este post com muita atenção.
Agora vim só para te deixar e enorme beijinho, cheio de saudades!
(obrigada pelas fotos das holidays – são de cortar a respiração).
Muito, muito em breve vou regressar ao saudável e activo convívio virtual e "chat"al... e contar-te a história da minha vida em versão condensada...

See you soon!
Chuac, chuac!

Ah! em relação à varinha... pois... nem sei que te diga!
Pêlo de unicórnio disseste tu? Ou penas de Fénix? Isso soa-me a algo Harry Potter...
Acho que para a fada será mais apropriado umas quantas pérolazitas ou mesmo linhas de bordar... :lol:
Hurry up please! Que os poderes da minha varinha vão-me ser CRUCIAIS esta semana!!!!


De mouseland a 24 de Outubro de 2006 às 15:13
Olá Fada*do*lar,

Finalmente voltaste à mouselândia depois de um desaparecimento prolongado. Ainda bem que está tudo bem e que recebeste umas fotos de viagem minhas. Ando a hesitar criar uma zona subordinada apenas a viagens aqui na mouselândia mas senão nunca mais paro de editar posts e mais posts :smile::lol:.

Bem quanto à varinha vou ver o que consigo fazer para esta semana pois o senhor está à espera das minhas indicações há já algum tempo... logo te direi.

beijinhos e volta para a "luta" ciber, hehehe.:wink:


De cris a 24 de Outubro de 2006 às 16:21
:roll:

Sim, fui de imediato sensível à mesma linha de grafismo entre o Evento e o teu Jizo,hehehehe!... :lol: (primeiro que Tu... hahaha...)
:oops::mrgreen:
cris


De mouseland a 27 de Outubro de 2006 às 03:07
Cris, :cool::wink::lol:

Mais um link que não sei se conheces: "A Report on Cyberfeminism Sadie Plant relative to VNS Matrix"
By: Alex Galloway

xxx mouse

http://switch.sjsu.edu/web/v4n1/alex.html


De cris a 28 de Outubro de 2006 às 00:16
Olá Patrícia, Obrigada!

Sim conheço. Quando escrevi aquele texto sobre Ciberfeminismo, A. Galloway foi excelente, e ajudou-me imenso na perspectiva histórica, e muito útil, porque já tinha lido S. Plant.

Quando referias obras de Galloway, ficava sempre na dúvida se era aquele que conhecera através da minha pesquisa... um excelente ciberfeminista.
Um beijinho Grande para Ti...
Estou de saída de lisboa... voltarei em breve e então visitarei a Mouselândia, um espaço dinâmico e de aprendizagem constante


De mouseland a 28 de Outubro de 2006 às 03:43
Olá Cris, :mrgreen:

Esse mesmo! ciberfeminista de gema, hehehehe. :razz:

http://cultureandcommunication.org/galloway/

Alexander R. Galloway is assistant professor in the Department of Culture and Communication at New York University. Galloway previously worked for six years at Rhizome.org. He is a founding member of the software collective RSG, and maker of the data surveillance engine Carnivore. The New York Times recently described his work as "conceptually sharp, visually compelling and completely attuned to the political moment." Galloway is the author of Protocol: How Control Exists After Decentralization (MIT Press, 2004). His second book, Gaming: Essays on Algorithmic Culture, was published this year by the University of Minnesota Press.

http://cultureandcommunication.org/galloway/bio.html

xxx mouse


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