Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006
ADEUS SÃO PAULO
saopaulo1.jpg

Deixar uma cidade é sempre difícil mas depois de ter vivido três anos na ponte aérea Lisboa / São Paulo é mais fácil… algo me diz que vou finalmente assentar um bocado e deixar o instinto nómada e turbulento apaziguar-se… de qualquer forma ontem desmanchou-se a casa… dá dó ver as paredes e as divisões novamente vazias… há três anos (quase) compôs-se o arranjo e a mobília parecia acertada… hoje desmancha-se… amanhã hotel e na próxima segunda-feira embarque de regresso à cidade das luzes. Se a confusão no espaço aéreo brasileiro assim o permitir… quando chegar a Recife vou respirar e entrar no Oceano, espaço aéreo de ninguém… Faço as malas sempre com grande antecedência para a roupa ir comprimindo. Tenho muita prática em matéria de malas e de adaptação a novos lugares. Odeio partir mas dentro de um mês estou adaptada à nova situação. Por enquanto o coração está debilitado. Desde os cinco anos que me divido entre a casa da mãe e do pai. Assim é mais fácil. Vou ter saudades, já tenho saudades de São Paulo, cidade estranha que se entranha, essencialmente pela gastronomia (ah a gastronomia!) e pelos espaços e ambientes sempre originais e acolhedores dos restaurantes e bares. Depois, cidade tão agreste e difícil. Perceber algumas coisas é complicado e por vezes nem a língua nos aproxima. Em São Paulo senti-me quase tão estrangeira quanto em Tóquio… e fala-se português. 

Tantas coisas aconteceram nestes últimos quatro meses no Brasil: o comando da capital deixou um rasto de inquietação. O presidente (Lula da Silva) foi reeleito, depois de momentos inesquecíveis de constantes humilhações. O cenário das eleições e os 4 ou 5 debates eleitorais que visionei são testemunhos inolvidáveis. Um avião caiu e para além das 154 mortes que provocou colocou o país numa catástrofe de contradições relacionadas com a manutenção do espaço aéreo e afins (controlado por militares, imagine-se!). Uma dama da alta sociedade é acusada de homicídio pois pensa-se que matou o amante, ex. director na altura da morte, da extinta prisão de alta segurança Carandiru. Não sei se se confirma a acusação mas a notícia é grotesca. Um pai de família mata os filhos e suicida-se… e afinal alguns amigos confessam que já lhes apontaram armas à cabeça. São Paulo. Uma retórica da segurança. Depois há a livraria cultura e a Martins Fontes. Os ciclos intermináveis de cinema e as exposições new media… poucas lojas europeias, muitas americanas. Não se diz não pois tudo é possível mas raramente acontece e a ingenuidade impera. Para uma mulher europeia é difícil não perceber algumas estratégias encapotadas (de racismo, machismo e multiculturalismo) mas para uma mulher europeia há sempre algo que escapa: o cabelo à chapinha, o verniz nas unhas ou o telemóvel. Artilharia evidente dos golpes de sedução de quem tem que lutar pela vida. Não critico até deixei crescer as unhas e alisei o cabelo pois de estratégias de adaptação percebo alguma coisa. São Paulo. Nevoeiro constante, um atentado aos doentes de sinusite ou rinite alérgica. O espaço do Itaú, do Masp e da Bienal. Uns andam em contra mão no centro da cidade à noite, ninguém faz pisca e conduz-se que é uma maravilha em matéria de infracções. O Mercadão e a célebre sandes de mortadela com pão (400 gr.). O Jardim Zoológico com o excelente mini safari onde as avestruzes e os pavões nos vêm buscar comida à mão. Os animais parecem saudáveis e bem tratados. São Paulo. Pinturas de Daniel Melin com sonoridades CSS (Cansei de Ser Sexy). O bairro da liberdade e a 25 de Março, ruas apinhadas de pessoas e polícias com armas velhas, sem óleo para disparar. A TVA com uma programação aliciante. Ai… a comida japonesa e as pizzas (únicas). 

Não sei se algum dia vou voltar ao Brasil mas os últimos três anos a ele ficaram associados: Fernando Noronha, Salvador da Bahia, Rio de Janeiro, Nordeste (Fortaleza e arredores), Ilhabela… São Paulo. 


12 comentários:
De fada*do*lar a 23 de Novembro de 2006 às 22:22
Que belíssimo texto! :smile:
Ai, dói sempre a hora da partida...
Mas nada que a felicidade na hora do regresso, como sabes, não ajude a atenuar.
Novas boas aventuras aguardam-te!


De Tozé a 23 de Novembro de 2006 às 22:36
Gostei imenso deste teu texto.
A outra face que ainda não conhecia, mas que quero aprender. Mais solta, escrita escorreita, sentida, muito sentida. Quase que nos sentimos parte desse nó na garganta.
E o retrato, de artista. Pinceladas, certeiras, subjectivas quanto baste mas tão reais.
Fixe!
Volta bem, assenta e, depois, dá-nos mais alguns destes textos. O Blog agradece.


De Mimi a 23 de Novembro de 2006 às 23:08
Fiquei com um nó na garganta.. Não há nada que me faça estremecer mais do que despedidas :neutral: e despedidas de cidades então... Não sei se é por ser urbanista e ter uma ligação estranha com elas, ou porque outra coisa qualquer! Mas o teu texto é espantosamente cru e sentido. Adorei! (e já vou ficar nostálgica o resto da noite...)


De p a 24 de Novembro de 2006 às 02:26
Dos meus 15 aos 18 anos andei cá e lá. 7 ou 8 vezes por ano.
Sei bem o que é estar sempre a partir.
Mas também é muito bom voltar.
No meu caso, vindo de Copenhaga, era mesmo MUITO BOM voltar a Lisboa.


De mouseland a 24 de Novembro de 2006 às 13:48
Hello Fada,
Esqueci-me de referir que a imagem do post seguinte não é ponto cruz mas pixels mesmo, um ecrã do famoso jogo de estratégia "Civilization", hehehe. Ai Fada e tu que era suposto teres vindo cá! Saberias melhor do que eu falo... foi pena.

Olá Tozé,
O texto foi rápido (escorreito, como dizes) e de facto saiu assim emotivo, tipo diário de impressões topográficas, acho que o efeito da mobilidade causa esta vontade de deitar cá para fora as angútias da partida. Fico contente que tenhas apreciado a prosa :cool:.

Mimi,
Confesso-te que a minha maior angústia é ver as pessoas partir e ficar no mesmo lugar mas largar assim um local também me trás algum desconforto logo apaziguado pela ideia do regresso e da possibilidade de rever os amigos. Ainda bem que te emocionou (o texto) é sinal que estásviva :grin:

Mister p,
Já percebi que temos algumas coincidências (leões e sportinguistas:razz:) mas agora descobri mais uma: conexão a essa cidade maravilhosa que é Copenhaga. Eu passei três meses em Copenhaga, lá fiz o meu primeiro estágio (publicidade). Literalmente adorei esse período. Foi em 1991. As circunstâncias eram particulares, tudo era novo e fomos dez pessoas na área do design e das artes descobrir o modo de funcionamento dos nórdicos, foi incrível! Conta-me a tua história nesse lugar :smile: adorava ouvir notícias de Copenhaga. Nunca mais lá voltei sempre tive medo de olhar para ela com outros olhos.

xxx mouse


De p a 24 de Novembro de 2006 às 21:32
É engraçada a coincidência. Mas eu estive lá há mais tempo, entre 82 e 85, sempre lá e cá com um interregno de 9 meses em Los Angeles. Vivia na Vesterbrogade e estudava na Teglgårdstræde. Nunca consegui aprender aquela lingua esquisita (semi tonal) e nem percisava pois estava numa unidade de traduções onde a lingua oficial era o inglês ou francês.
Nunca lá voltei mas assim que surgir a oportunidade gostava de revisitar.
Sabes que durante aqueles três anos nunca fui visitar a pequena sereia? (Com 15 anos estava interessado noutras sereias, hehehehe) Na verdade não precisei porque um dia, pouco depois de voltar de Portugal, onde tinha visto a notícia de que tinham cortado o braço à moçoila, vejo passar um camião com a Sereia em cima com um braçinho novinho em folha!
Acho que não precisas de ter medo de revisitar, ou muito me engano, ou vai ficando melhor. Os olhos e a Cidade.


De mouseland a 28 de Novembro de 2006 às 19:11
Hello Mister p, :mrgreen::mrgreen:

Também fiquei hospedada na Vesterbrogade, hehehe. Espinha dorsal a caminho do centro (estação) e das noitadas (krasnapolsky, não sei se está bem escrito...). Fui ver a sereia e o Louisiana, lindo! Não vi foi o parque Lego e o jardim do Tivoli pois estavam fechados no Inverno... de resto foi em cheio!

xxx mouse


De p a 28 de Novembro de 2006 às 22:55
Olá Mouse,

No meu tempo (expressão cota, hehehehhe) era o Daddy's que táva a dar. Se estiveste lá no Inverno, então mal viste o dia. Recomendo vivamente uma revisita urgente. No verão, anoitecia às 11 e meia e amanhecia às 4.(todos os dias, hehehehehheh). No Tivoli havia sempre fogo de artifício às 6ªs Feiras. Mas apesar de tudo e, como te tinha dito, o melhor era voltar a Lisboa. Viste o Sol hoje? Lá não há disto!


De Carpinteiro a 29 de Novembro de 2006 às 01:08
Mouse,

Boa viagem, seja ela um regresso ou nova exploração! Já passei por uma situação muito idêntica e também por isso gostei de ler o teu post.

A partida é uma perda mas é também sinónimo de novas descobertas e os momentos de melancolia vão sendo compensados pela adrenalina da mudança. Por outro lado, a nossa casa está dentro de nós - pelo menos até um determinado ponto!

Tudo de bom na nova morada! :wink:


XXX


De mouse a 30 de Novembro de 2006 às 17:19
Olá Mister p,
Pois é tenho que voltar a Copenhaga. Não conheci o Daddy's (penso) ou seria um que tinha areia da praia no chão? :mrgreen: também ia muito ao UMATIC disco, hehehe. Ai que saudades,:lol:. Quanto ao sol lisboeta nada igual, claro! Uma luz particular, única.

Miss Carpinteiro,
Obrigado. Conta essa experiência... please... fiquei curiosa e acho que é o lugar certo :mrgreen: Quanto à nova morada volto para a mesma nada de novo, tudo à medida, não há razão de queixa apenas o impulso da mobilidade.:cool:

xxx mouse


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