Terça-feira, 5 de Dezembro de 2006
TURISTA OU VIAJANTE_TURISMO OU DERIVA VIRTUAL?
turistaviajante.jpg

Um artigo de Marie Lechner, “Séjours virtuels tout inclus”, sobre as derivas nómadas virtuais refere-se a novas possibilidades de exploração turística nos jogos para múltiplos jogadores do tipo Second Life. Guiar o turista ocasional em ambientes lúdicos do tipo World of Warcraft, Eve Online, City of Heros, entre outros, é o programa destes operadores turísticos da actualidade. A ideia leva-me a tecer algumas considerações sobre alguns conceitos enunciados. Uma análise do “cursor” sugere que tal como o fetichismo cinemático foi substituído pelo travesti cibernético, o voyerismo cinematográfico é substituído por uma figura secular divina que intervém a partir do click do rato, numa grelha, que se estende interminavelmente, de produção textual. Este espírito simultaneamente racional e irracional é um turista [para nós um viajante], pois como este, está sempre a perseguir uma descoberta impossível, um terreno separado do dia-a-dia, participa de forma privilegiada como observador externo. O cursor como turista perpétuo avança numa terra que é sempre estrangeira (Cubitt, 1998; 91). A utilização da figura do turista aqui defendida por Sean Cubitt parece-nos pouco pertinente e preferimos adoptar a metáfora do viajante. O turista tem um itinerário definido pelo agente da viagem e o seu percurso nada tem de aleatório ou caótico, ao contrário do viajante, que se deixa levar pelo ambiente e pelas circunstâncias daquilo que o rodeia. Para nós estas investidas turísticas adoptam relações miméticas entre realidade e ficção e afastam os tabuleiros virtuais dos ambientes de sonho e de deriva situacionista que estes lugares deveriam promover. A metáfora do viajante é para nós mais pertinente na medida em que nos remete para uma Voyage au bout de la nuit.

turistaviajante1.jpg

Ambientes como Second Life não jogam apenas em terras virtuais lucros reais (como afirma Marcelo Bortoloti num artigo para a revista Veja sobre o sucesso monetário em Second Life) como também exploram e ampliam ideais propícios à corporação sinergética (palavra horrível). A corporação sinergética encoraja a brincadeira, o comportamento de jogo (playfulness) não apenas entre os criativos da publicidade e do mundo do software mas no role-playing, nos exercícios de simulação, no uso constante da mascarada no treino interpessoal e no controlo da qualidade, da indústria, dos bancos à saúde. Competição entre equipas de trabalho, abertura à discussão, horários de última hora apertados, tudo contribui para maximizar o grau de exploração dos trabalhadores e das suas capacidades. A multinacional sinergética funciona através de uma lógica game-play. A viragem do viajante ao turista é rápida e as narrativas de viagem abastecem-se de metáforas ligeiras e desincorporadas de forma a suavizar a brutalidade da viagem. O que nos vicia é o jogo for its own sake! Como afirma Michel Maffesoli: “O que se move escapa, por definição, à câmara sofisticada do “pan-óptico”. Desde então o ideal do poder é a imobilidade absoluta, da qual a morte é, com toda a segurança, o exemplo acabado” (Maffesoli, 2001; 25). A errância do nómada em perpétuo movimento onde o estático tem necessidade da simulação do movimento e onde: “há um empenho inicial para estabelecer um cerco em torno do errante, daquele que se desvia, do marginal, do estrangeiro, depois para domesticar, para estabelecer numa residência o homem sem condição de nobreza, assim privado de aventuras” (Maffesoli, 2001; 82).

turistaviajante2.jpg

O escapismo lúdico permite, para Maffesoli, o encontro do outro e, em consequência desse encontro, a construção intersubjectiva da realidade. De acordo com o autor: “uma realidade que, para ser ela mesma, comporta uma boa dose de irrealidade” (Maffesoli, 2001; 126). A insatisfação motora da errância favorece a variação, a acção de caminhar e procurar algo que não está presente, favorece o desapego e a vontade de arriscar. O risco e a vontade de prosseguir são princípios vitais para o nómada e para o jogador das redes de computadores. O conhecimento partilhado implica idas e vindas e expressa-se numa sucessão de presenças e ausências. Como Dom Quixote de La Mancha, os screenagers, enfrentam moinhos de vento mas vivem essa realidade como se fosse uma permanente aventura (Maffesoli, 2001; 126-33). Log in / password / username / log out /! Dream in: “Por um paradoxo apenas aparente, nos sonhos, a aventura parece se opor à vida real, quando na verdade a aventura exprime a totalidade da vida real, pois o sonho, na verdade, é uma contracção de todas as nossas experiências, de todas as nossas potencialidades” (Maffesoli, 2001; 139).


11 comentários:
De rafgouv a 6 de Dezembro de 2006 às 00:10
Um tema muito interessante :oops: mas quanto a mim uma perigosa confusão entre vários conceitos:

- "figura secular divina"??? o que é isso? como é que uma figura pode ser o mesmo tempo divina (eterna) e secular (temporal)?

- o turista é uma espécie (kind) de viajante entre outras e não se pode opôr a este; pode no entanto, como o viajante, opôr-se ao nómada...

- um conceito como "escapismo lúdico" é totalmente estrangeiro ao pensamento de Michel Maffesoli como aliás a citação dada logo a seguir ("uma realidade, que para ser ela mesma comporta uma boa dose de irrealidade") deixa bem claro; a arquitectura sempre serviu para, além da fucionalidade, criar paisagens irreais no seio da "realidade"...

- Puzzling que termines com outra citação de Maffesoli (Bravo!!! fico extremamente feliz de constatar que aparece por fim nestas páginas) que desmonta totalmente o "paradoxo" que pareces reafirmar quando o introduzes: os "screenagers" NÃO "VIVEM essa realidade COMO SE FOSSE uma permanente aventura" pois "na verdade a aventura exprime a totalidade da vida real, pois o sonho, na verdade é uma contracção de todas as nossas experiências (...)." Para Maffesoli, e aí reside uma das suas principais forças, os sonhos - e a ficção - não são de forma alguma quimeras como nos habituámos a identificar (seguindo a morna tradição aristotélica) os moinhos de vento combatidos por D. Quixote!!

Difícil de compreender se pretendes apoiar ou infirmar a visão extralúcida de Maf...

... mas é possível que como muitos de nós tenhas ficado um pouco encadeada com o brilho do diamante!


De mouseland a 6 de Dezembro de 2006 às 00:57
Hello Raf, :mrgreen::cool::lol:

Ora aí está que além de apontares a ambiguidade dos conceitos te encontras enleado numa dialéctica. Eu também aprecio estas figuras de estilo. A questão da divindade secular é bem ao estilo do Sean Cubbit e terá precisamente a ver com uma estética que privilegia discursos encantatórios e sublimes em paralelo com formulações antigas e mundanas. Tudo dentro de um contexto e que assim explica a ambiguidade dos espíritos simultaneamente racionais e irracionais, como se afirma mais à frente. Não há secular e divino mas ambos sendo que a expressão contém em si esse movimento para a contradição e junção de opostos.

Ninguém opôs turista e viajante apenas se afirmou que a metáfora do viajante servia melhor que a metáfora do turista para explicar a deriva situacionista. Quanto à oposição com o nómada (figura que prefiro e defendo mas que implica estender a discussão) é que estou em desacordo pois para mim o nómada é essencialmente um viajante e raramente um turista. O próprio Maffesoli se refere ao turismo potenciado pelo cursor onde os ambientes assépticos virtuais são formas seguras de viagem.

Quanto à ideia do escapismo lúdico ser estrangeira a Maffesoli não me parece que possa concordar muito menos através da citação que enuncias pois nesse excerto o autor refere-se precisamente à dose de escapismo que a realidade comporta. Nem percebo como dizes o contrário. O resto parece-me confuso e apenas posso acrescentar algo em relação à pergunta que fazes, ou seja, se partilho a opinião de Maffesoli, penso que é evidente que sim. Parece-me o tom geral algo irónico para quem me fez ler o artigo em questão.

xxx mouse


De rafgouv a 6 de Dezembro de 2006 às 11:54
Vamos lá então explicar:

- continuo sem perceber bem essa do "divino secular" excepto se isso corresponder por exemplo a uma espécie de divinização do ateísmo... ou a um dogmatismo da ausência de Deus... mas confesso que não percebo népia do que diz Sean Cubbit, por isso não é de estranhar.

- exprimi mal a questão do nómada/ turista... o que pretendia dizer é que são ambos espécies (kinds) opostos de "viajantes". O nómada é aquele que sobrevive viajando enquanto o turista é aquele que viaja num contexto puramente lúdico - desligado da questão da sobrevivência (e cujas viagens podem OU NÃO ser enquadradas por agentes e cujos percursos podem OU NÃO ser pré-establecidos). Ora, os habitantes dos mundos virtuais tanto podem ser nómadas como turistas...

- quanto a Maffesoli mantenho o que disse e passo a explicar de forma rápida e sem dúvida demasiado sucinta e talvez um pouco caricatural. A originalidade de Maffesoli situa-se na sua recusa de conceitos como "escapismo". A definição comum de "escapismo" é a fuga à realidade (seja ela através de jogos, drogas ou tribos, elementos amplamente estudados por este corajoso sociólogo). Ora, o que Maffesoli diz é essa fuga à realidade é totalmente equívoca (tema também abordado - noutras vertentes - por um Peter Sloeterdijk) ou, por outras palavras, que os paraísos artificiais são REAIS... Assim, os "screenagers" não vivem "como se" mas vivem uma realidade na que terá as suas quimeras como A REALIDADE totalitária dos aristotélicos mas que oferece também desafios reais e riscos palpáveis.

Espero ter sido mais claro. xxx


De mouseland a 6 de Dezembro de 2006 às 13:26
Hello Rafu,

Quanto ao Sean Cubbit acho que é precisamente essa "espécie de divinização do ateísmo" que o autor refere mas não deixa de ter um pensamento bastante encriptado e circular que eu aprecio.

Achei piada à distinção entre o nómada como "aquele que sobrevive viajando enquanto o turista é aquele que viaja num contexto puramente lúdico". Quanto ao facto de um estar desligado da sobrevivência e outro não e dos habitantes dos mundos virtuais tanto poderem ser nómadas como turistas também concordo. O que eu distingui foi precisamente esses dois movimentos. No meu caso gosto de vaguear sem destino e sem roteiro nos mundos virtuais, algo aleatoriamente, mas estou a fazê-lo de forma segura e sem perigo. No artigo de Marie Lechner ela refere-se a operadores turísticos reais que exploram o lado voyer de meia dúzia de curiosos que não têm tempo para desenvolver a sua subjectividade e compram pacotes e visitas guiadas. Penso que é um movimento distinto.

Percebo o que dizes em relação à interpretação do conceito de escapismo em Maffesoli mas tu é que estás a reduzir e a afunilar o conceito a uma fuga à realidade (senso comum)... eu não considero nada disso (cf. Barry Atkins, por exemplo) e alinho bem com as considerações de Maffesoli. O escapismo e o seu aparato simulacral [como sabes não concordo com isto do aparato simulacral] substitui a civilização verdadeiramente racional, racionalista, que pensava poder eliminar uma certa “sede do infinito” (Maffesoli, 2001; 107). Por um lado, encontramos valores ruidosos, invasores, proclamados nos media pelos poderes económicos e políticos, valores abstractos e que não têm grande influência na dinâmica da vida real das tribos contemporâneas. Por outro lado, ressurgem valores enraizados, revivescências de arcaísmos tidos por ultrapassados, tribalismos exacerbados a que não podemos escapar. Dioniso, potência nómada e deus enraizado, viajante, figura possível da sociedade tribal que é, estruturalmente, fragmentada. Neste vaivém de histórias e personagens imperam simultaneamente a heterogeneidade e as múltiplas formas (Maffesoli, 2001; 109). Identidades múltiplas e contraditórias:

“A vida errante é uma vida de identidades múltiplas e às vezes contraditórias. Identidades plurais podendo conviver seja ao mesmo tempo seja, ao contrário, sucessivamente. (...) Fórmula forte que eu quereria aqui “sociologizar”: a errância – e as múltiplas identidades que suscita – é antes de tudo um sinal de vitalidade, é a expressão de uma verdadeira sabedoria do precário, dedicando-se a viver intensamente o presente através de suas alegrias e de suas penas. (...) Dom Quixote, o próprio tipo de identidade em movimento ou, para retomar uma das minhas análises, de identificações múltiplas" (Maffesoli, 2001; 118).

xxx mouse


De rafgouv a 6 de Dezembro de 2006 às 13:50
OK está percebido mas acho que é de má fé dizeres que sou eu que reduzo o significado de "escapismo" que é sem dúvida uma palavra ideologicamente forte (se algum autor a utiliza num sentido diferente ou mais alargado é preciso explicitar tal a não ser que para ti o "senso comum" seja equivalente às definições oferecidas pelos dicionários...) e pejorativa.

De resto, Maffesoli jamais utiliza tal termo cujos "valores reaccionários" contradiz radicalmente.


De rafgouv a 6 de Dezembro de 2006 às 13:58
Quanto ao D. Quixote: Maffesoli fala de "identificações múltiplas" e de "identidades múltiplas". Ora, para Maff, estas identidades são ontológicas e não investimentos transitórios ("fazer de conta" ou "como se")...
Espero uma vez mais ter sido claro.


De mouseland a 6 de Dezembro de 2006 às 14:06
:mrgreen:Raf,

Má fé?? Que exagero... além de que, desculpa-me que te diga, mas na tradução brasileira o livro de Maffesoli, "Sobre o Nomadismo", não prescinde da palavra escapismo a torto e a direito. Escapismo no sentido de uma fuga para a ficção e não como príncipio de uma teoria sobre a realidade ou um escape a esta o que afinal são coisas diferentes mas que estão associadas.

Acho que talvez não reduzes mas radicalizas demasiado os movimentos em opostos quando no fundo há como que um "entre mundos". Esta é pelo menos a minha opinião precisamente para contrariar leituras que tb considero reaccionários que reduzem o prazer imersivo ao ópio das massas, escape das agruras diárias.


De mouseland a 6 de Dezembro de 2006 às 14:13
:mrgreen: Raf,

Claro que as identidades são ontológicas mas não é por isso que o movimento "as if" ou fazer-de-conta-que, próprio da experiência e dos objectos transitórios, não é também um movimento ontológico pois surge muito antes das categorias ônticas e tem a ver com um ser-que-encontra-e-simula-coisas-pela-sua-condição-no-mundo-incorporado.

xxx mouse


De rafgouv a 6 de Dezembro de 2006 às 14:21
Haverá possivelmente um problema de tradução (embora tal me pareça um pouco estranho visto que o Maff tem uma das suas maiores "audiências" no Brasil e por isso deve ter bastante atenção a esses detalhes) pois é um termo que não existe em francês...

Quanto ao "entre 2 mundos" (equivalente à "identidade em movimento") estou totalmente de acordo e é algo que tenho repetido diversas vezes, inclusivamente nestas páginas.


De rafgouv a 6 de Dezembro de 2006 às 14:28
Ora, parece que vamos poder chegar a um acordo total:

- o que tenho contestado ampla e furiosamente não é o facto do "as if" não ser "também" UM movimento ontológico, mas a reivindicação segundo a qual se tratava DO UNICO MOVIMENTO ONTOLOGICO oferecido pela ficção e pelo jogo (vídeo ou não) em particular.


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