Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2006
MARIE ANTOINETTE_AUTISMO E FALTA DE INTIMIDADE
marie_antoinette.jpg
Não posso deixar de escrever uma breve nota sobre o filme de Sofia Coppola, Marie Antoinette, pois gostei bastante mais do que estava à espera. A banda sonora, mistura ou melting-pot de música clássica da época com coisas mais contemporâneas (New Order, The Cure, Bow Wow Wow, etc.) é soberba. Uma vez mais Sofia Coppola filma uma mulher perdida em confronto com o seu ambiente onde a falta de intimidade acentua o lado “estrangeiro” e deslocado da personagem. O filme apresenta uma atmosfera composta por sumptuosos ambientes de época (Château de Versailles no seu esplendor) pontuados por sensuais roupas, gastronomia e cenografia de luxo. Estes adereços, escolhidos para realçar a solidão e o autismo da protagonista produzem um efeito de espectáculo visual sensorial. Há tanto de oriental no filme que a cena de variedades asiáticas que surge (numa das festas de Marie Antoinette) me fez pensar como no oriente a estética está presente em todos os elementos da experiência humana. Sofia Coppola mostra bem um certo movimento de orientalização do mundo ao filmar Marie Antoinette. Neste contexto, a realizadora confronta o lado hedonista da heroína com a experiência do lugar a partir de uma sensibilidade contemporânea. Assim, ao “egocentrismo” ocidental dá lugar um “lococentrismo” oriental próprio do japonês. Enquanto que o “egocentrismo” põe a tónica no indivíduo enquanto unidade, no lococentrismo, o valor mais importante é o lugar, a experiência do lugar (cf. Maffesoli). Mais do que reflectir sobre as circunstâncias que levaram dois adolescentes sem qualquer preparação a reinar um país como França o filme parece convidar-nos a viver aquela época em todo o seu vazio. E como a analogia com a actualidade é possível…
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10 comentários:
De rafgouv a 6 de Dezembro de 2006 às 13:35
Também eu gostei muitissimo (um dos melhores do ano que acaba - e talvez até dos últimos anos?) deste filme de Sofia Coppola. Não posso no entanto deixar de exprimir algumas divergências de leitura:

- aquilo que mostra o filme nada tem de oriental mas antes de "orientalista". O orientalismo é uma forma de "etnocentrismo" amplamente apreciada nas cortes europeias do século XVIII. O que o filme mostra é apenas aquilo a que é usual chamarmos "luxo asiático" e que corresponde exclusivamente a uma aparência oriental...

- curiosamente, o filme anterior de Sofia C. desenrolava-se no Japão mas mostrava precisamente a impermeabilidade de duas personagens ocidentais à cultura japonesa em relação à qual se mantinham perfeitamente autistas (e nesse sentido - sob o tema do autismo - Marie Antoinette prolonga tanto Lost In Translation como The Virgin Suicides). Falar a propósito desse filme (como de Marie Antoinette) de influência japonesa ou oriental é um pouco (para utilizar uma comparação irónica que, espero, não chocará) como dizer que o filme evidencia uma forte influência turistica, hoteleira ou rodoviária uma vez que se desenrola sobretudo em territórios impessoais como hoteis, aeroportos ou auto-estradas...

- Falar a propósito do século XVIII de época de "vazio" é muito surpreendente. O século XVIII foi o século do iluminismo, das revoluções burguesas, da independência da América, da democracia... O que o filme mostra implicitamente, quanto a mim, é como essas revoluções acabaram por dar origem a uma sociedade de luxo e de afasia extremamente parecida com aquela que destruiram. Nesse sentido a escolha muito discutível de não mostrar a guilhotina pode talvez ser explicada: de alguma maneira Marie Antoinette continua viva na forma como o ocidente (e também, provavelmente, o oriente) procura no luxo, no narcisismo, na "arte de viver", substitutos para o desejo.

- o filme oferece em amplas bandejas piscadelas de olho para a época que vivemos (talvez aliás uma das reservas que lhe podemos fazer seja de nos enfiar pelos olhos dentro, de insistir demasiado em tais anacronismos, apesar da sua pertinência: a banda sonora kubrickiana ou o famoso plano do Converse All Star são disso exemplo): a oscilação entre festas fabulosas e cocooning, a "organic food", o contraste entre a afasia do jovem rei (extraordinário Jason Schwartzman) e o liberalismo sexual exibicionista da geração do seu pai (incrível Asia Argento em Pompadour), a falta de privacidade (a corte testemunha da desfloração real), a solidão, a melancolia, etc., etc., etc.

O que o filme não mostra - e o que na minha opinião o torna extremamente angustiante pour pouco que queiramos prolongar o paralelo com a época contemporânea - é a multidão dos "sans culottes", os esfomeados, os oprimidos que levarão o casal real ao cadafalso. Implicitamente Sofia Coppola parece dizer-nos (e aqui felizmente sem demasiada insistência) que os VIPs (nós todos priviligiados?) da nossa época são os sucessores de Marie Antoinette. Nesse caso os seus (nossos) vingadores encontram-se provavelmente no hemisfério Sul e talvez já se tenham começado a manifestar. Ou vocês não os ouvem???


De mouseland a 6 de Dezembro de 2006 às 14:33
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: Raf,

Boa contribuição e só posso dizer que concordo com a maioria senão totalidade do que dizes apenas que forças um bocado a questão do vazio que se resumia ao ambiente (lugar) Château de Versailles e que tu resumes a uma afirmação sobre a época tout court. Quando também se afirma que a realizadora filma apenas um lugar e a experiência deste... acho que é para dar um lado mais emotivo à estrutura do teu pensamento.

Fazes um bocado o mesmo em relação ao orientalismo e ao Lost in Translation pois dás saltos rápidos que se tornam confusos e que por vezes são recriações das minhas palavras a partir das tuas interpretações. Mas apontas, nos dois últimos parágrafos, ideias muito interessantes com as quais concordo inteiramente.

xxx mouse


De Carpinteiro a 6 de Dezembro de 2006 às 20:03
Mouse,

Fiquei com vontade de ver o filme.

Pelas imagens que já vi é fácil prever essa analogia entre as sociedades dos países desenvolvidos da contemporaneidade e as elites francesas da época retratada no filme: essa exploração da imagem, de tudo o que é superficial e ostentatório e a perda de contacto com espiritualidades ou valores e éticas mais profundos a que se alia.

E pensando em analogias os dois últimos parágrafos do rafgouv são de facto bem pertinentes. Vamos começando a ouvir...

Quanto a ver o filme, parece ser como comer bolo :razz:- apelando aos sentidos, já está na minha agenda!


bjs


De mouseland a 7 de Dezembro de 2006 às 00:22
Hello Miss Carpinteiro,

Ainda bem que demovemos mais uma possível vítima da síndrome Sofia Coppola, acho que vais gostar bastante da atmosfera e do ambiente. E de facto concordo que começamos a ouvir essa vozes...:roll:

xxx mouse


De rafgouv a 8 de Dezembro de 2006 às 13:35
Pensando bem há talvez um ponto em que Sofia C. exprime de facto algo de "orientalizante": o luxo - como a filosofia zen - afirma-se como refúgio - fortaleza, cocoon - contra as paixões humanas. A impossibilidade da paixão (e talvez até da sexualidade) no nosso tempo (visto que MA fala também - e sobretudo - da nossa época) é sem dúvida um dos temas decorrentes dos 3 filmes de Sofia.

Assim, no filme, Marie-Antoinette sofre não tanto da frustração sexual causada pela afasia do seu esposo mas sobretudo da maldicência que a não concretização nupcial provoca entre os cortesãos (e essa é sem dúvida alguma outra referência à pressão sexual dos círculos burgueses boémios - bobos - da actualidade onde ser virgem aos 18 anos é sem dúvida maior signo de vergonha que de orgulho).

Não é também por acaso que apesar de um parêntesis de sexo puramente lúdico, a rainha resiste à fogosidade do Conde Fersen, símbolo desse valor típico do século XVIII que era a "energia" (e que se opõe também ao "zen") e a quem Sofia, num arrojo historicamente aberrante mas poeticamente justificado, dá figurativamente os contornos de arauto do futuro, de prenúncio do imperial Napoleão. A energia de Fersen - como, adivinha-se, a dos revolucionários - opõe-se à passividade masoquista (zen?) da rainha que oferece literalmente a cabeça num plano sublime que por si só justifica a visão do filme. Essa passividade e esse masoquismo parecem-me igualmente reveladores do estado de espírito esquizofrénico do ocidente contemporâneo (ler a esse título o recente "La Tyrannie de la Pénitence" de Pascal Bruckner).

Vale a pena aqui realçar o facto de que se trata, nesse plano de auto-decapitação, repito, sublime, de afirmar a força trágica da personagem. Ora, de alguma forma é a própria tragédia que Sofia C. reinventa aqui na medida em que não são as paixões, mas a sua ausência que precipita o destino da rainha.

E já agora, Miss Carpinteiro, já foi ver? E que achou?


De mouseland a 10 de Dezembro de 2006 às 14:13
Hello Raf,

:mrgreen: Gostei das tuas considerações com as quais concordo na generalidade. Boa inspiração!

xxx mouse


De Bakali a 13 de Dezembro de 2006 às 20:46
Eu cá acho que vocês andam um "poucochinho" melodramáticos. Não desprezando o talento da Sofia, que sai ao pai, a tipas foleiras e manhosas como a Maria Antonieta tem-se mesmo é de cortar o "pescocinho". Assim é que ela fica bem... não como vítima trágica mas com o corpinho para um lado e a cabeleira (é postiço, não é?) para o outro. Vive la Republique :)


De mouseland a 13 de Dezembro de 2006 às 22:32
:mrgreen::mrgreen: hello bakali,

Estou a ver que és partidário da versão mais demoníaca da Marie Antonieta, hehehhehe.

xxx mouse


De rafgouv a 19 de Dezembro de 2006 às 17:03
Oi Bakali, melodramático penso que não (o melodrama e as suas penas comezinhas é o contrário da tragédia e dos seus monstros sagrados), apenas lírico se quiseres.
Quanto a essa de cortar pescocinhos de pessoas "foleiras e manhosas" e seguindo a leitura que faço do filme da Sofia, penso que na nightlife alfacinha os candidatos submissos e dedicados não faltarão.


De mouseland a 21 de Dezembro de 2006 às 15:10
:mrgreen: hello Rafu,

Vamos ver o que é que o bakali diz, hehehe.

xxx mouse


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