Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2006
THE DEPARTED_ENTRE INIMIGOS
thedeparted1.jpg 

Infiltrados e ratazanas é uma coisa que sempre me interessou pelo que tenho que fazer uma ressalva breve ao último filme de Martin Scorsese, Entre Inimigos. Gostei bastante dos diálogos, hilariantes e divertidos. O argumento sem ser surpreendente é interessante e o aparato de actores famosos só se justifica na excelente prestação de Leonardo DiCaprio (insuperável como em Catch Me If You Can). De resto, os canastrões do costume (Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Alec Baldwin, a quem se junta Martin Sheen com uma prestação balofa) só surpreendem porque estão todos juntos num enredo bem estruturado mas menos consistente onde não há diferença entre polícias e ladrões.
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10 comentários:
De André Carita a 14 de Dezembro de 2006 às 01:43
devo confessar que foi dos filmes de scorsese que menos me motivou!
salvam-se alguns diálogos e a prestação de DiCaprio (a nova "floribella" de Scorsese :cool: ) bem acima da média...

xxx :eek:

André Carita
http://pensarvideojogos.blogspot.com


De mouseland a 14 de Dezembro de 2006 às 13:35
Olá André, :mrgreen::mrgreen::cool:

É verdade, gostei dessa da "floribella" do scorsese :wink::lol:. E os banhos de sangue produzidos pelo Mister Costello? hehehehe.

xxx mouse


De mq a 14 de Dezembro de 2006 às 16:13
Olá mouse!
Concordo com a tua crítica na generalidade e, de facto, o miudo superou-se, sobretudo porque todo ele se identifica com solidão trágica e medo.
Mas devo dizer que o filme coloca e muito bem a ambiguidade identitária nascida da tragédia familiar, a violência explícita e a integridade moral. Confesso que a errância e a orfandade que estão na base da crise de identidade dos personagens me comoveu. Considero que Scorsese neste filme tocou magistralmente numa questão muito sensível que é não haver nada mais trágico na vida da pessoa humana do que esquecer a sua própria identidade...


De mouseland a 14 de Dezembro de 2006 às 18:45
hello Mq, :mrgreen::mrgreen::lol:

Concordo contigo. Por isso é que de facto a personagem do DiCaprio é tão comovente. Achei imensa piada à utilização profissional do historial familiar desta, ou seja, a forma como está talhada para aquele "serviço" porque tem antecedentes afectivos e sociais complicados. O mesmo aspecto de terror está também impresso no miúdo que desde pequeno é levado a considerar que não há distinções entre policias e ladrões (Matt Damon)... a forma como a formação da identidade é quase travesti e o papel da mentira criam no filme ambiguidades que também achei bastante interessantes.

xxx mouse


De rafgouv a 18 de Dezembro de 2006 às 10:30
Eu por mim fui ver The Departed com a esperança de uma calorosa reconciliação com Scorsese cujos últimos filmes (Gangs of New York e The Aviator) me tinham deixado bastante desiludido.
Na minha modesta opinião, desde que Marty meteu na cabeça de que se deve "renovar" (sair das rectas que conduzem de "Mean Streets" a "Casino" ou de "Taxi Driver" a "Bringing Out the Dead") os seus filmes não perdem talvez em virtuosidade mas perdem (quase) todo o interesse.

O facto de os seus 3 últimos (e mais fracos?) filmes serem protagonizados por Leo Di Caprio é a esse nível significativo. Não se trata de pôr em causa as qualidades de Di Caprio, como devemos reconhecer o que o cinema de Scorsese deveu a outro actor emblemático como De Niro. No entanto, estes 3 últimos filmes parecem-me evidenciar uma propensão à psicologia balofa e à performance dos actores que retira uma boa parte da subtileza do trabalho do realizador. Curiosamente, Marty serve-se de outro actor de origem italiana (Di Caprio) para se consagrar ao estudo de outras comunidades (em Gangs e The Departed, os irlandeses).

Por outro lado, os argumentos escolhidos são de tal forma óbvios e primários (isto sobretudo no caso de The Aviator e The Departed) que nos perguntamos se Scorsese de repente se arrependeu da complexidade barroca das suas obras-primas "familiares" (Mean Streets, Goodfellas, Casino...). O enorme sucesso de The Departed (o maior da sua carreira!) parece dar-lhe razão.

The Departed passa-se na comunidade irlandesa de Providence, perto de NY. Os irlandeses partilham com os italianos uma espécie de catolicismo "entranhado" (isto é, mesmo que não assumido) que é um dos temas favoritos de Scorsese. Esta é a primeira (e principal) surpresa do filme. A segunda surpresa reside na grande fidelidade com que Scorsese tratou o material de origem (Infernal Affairs de Wai Keung Lau e Siu Fai Mak - Hong Kong). A terceira e menos agradável é quanto a mim a forma como o argumento explica tudo aquilo que o original tratava de forma abstracta. Sobre temas análogos - a ambiguidade moral de polícias e ladrões - John Woo (Face Off) e Michael Mann (Heat) realizaram obras-primas de mise en scène abstracta enquanto Scorsese não pára de se contradizer oscilando entre um tom demasiado sério e piscadelas de olho desnecessárias para confirmar que afinal não é assim tão sério... Exemplo disso é a utilização da música que oscila entre a usual forma documental scorsesiana (o punk irlandês por exemplo) e uma utilização semântica que vem apoiar elementos já demasiado acentuados pela realização (a ópera para o bigger than life Nicholson, Confortably Numb dos Pink Floyd para Di Caprio)

O lado primário do filme está patente na forma como reduz tudo à tão católica problemática da paternidade (sem família, cada uma das personagens se entrega a um pai de substituição que lhe oferecerá referências morais descartáveis). Por outro lado, não é de todo verdade que "não há diferença entre polícias e ladrões". Esse poderia talvez ser o postulado de Mann, Woo ou do Infernal Affairs original. Aqui é patente a preferência de Scorsese pela personagem frágil de Di Caprio (o polícia). Matt Damon é-nos sempre mostrado como um usurpador e um traidor.

Por fim é difícil não fazer uma referência ao extremo pretenciosismo dos diálogos. Atingí um point of no return quando a psicóloga antes de tombar nos braços de Di Caprio lhe diz "Your vulnerability is freaking me out. Is it real?" Depois disto apenas alguns rasgos de génio me conseguiram evitar a zanga definitiva com o realizador de Raging Bull.


De mouseland a 18 de Dezembro de 2006 às 20:23
Hello Rafu :mrgreen:

Como temos opiniões algo díspares sobre o filme e como de forma contraditória e ambígua partilho (também) da tua opinião (antítese da minha) acho que poderíamos talvez proceder a uma síntese através de uma posição que tivesse em conta os dois aspectos (leituras) do filme. Psicologia (psiquiatria) em barda? Concordo mas achei delicioso (algo me fez recordar os Sopranos, imagina!). Pretensiosismo nos diálogos? Fartei-me de rir com esse mesmo pretensiosismo o que fez deles (para mim) momentos de uma ironia (quase) sublime. Achei esse momento em que a psiquiatra da polícia diz, antes de se atirar nos braços de DiCaprio, esse: “Your vulnerability is freaking me out. Is it real?” deliciosamente improvável e ao mesmo tempo tão sintomático de uma certa propensão feminina (lugar comum) pelos desprotegidos que apela ao mais básico instinto maternal. Li esse momento como uma queda à irresistível sedução do desprotegido por oposição à total imposição de uma relação segura (com o “quase impotente” e stressado Damon). Aliás a ideia da impotência sexual surge uma vez mais de forma abstracta na ausência de filhos de Costello. Uma outra situação deste género é a contradição entre o diagnóstico e o acto psiquiátrico: a personagem comporta-se como um toxicodependente e a psiquiatra corre atrás dele com a receita que antes lhe recusou isto depois de um momento algo enigmático em que a mesma fica incomodada pela forma como o paciente lhe pergunta se os pais dela eram alcoólicos (razão para a opção dela pela psiquiatria??). Na mesma linha estão os diálogos entre a psiquiatra e a personagem de Matt Damon sobre a verdade e a mentira que muito me fizeram lembrar as teorias sobre a mentira de David Livingstone Smith. Afinal a mentira é tão estruturante (biologicamente falando) ou mais do que a verdade. Da mesma forma que, para Costello, a fronteira é ténue entre o policia e o ladrão também a diferença entre a verdade e a mentira parece pouco fazer diferença num mundo em que todos usam e abusam desta. Enfim… poderia dizer muito mais ou outras coisas sobre o filme e seria sempre passível de contradição porque, para mim, o filme é pródigo em oferecer perspectivas recombinatórias de coisa nenhuma, hehehe.

xxx mouse


De rafgouv a 19 de Dezembro de 2006 às 10:02
Cada qual terá a sua opinião e não vale a pena entrar em polémicas. Permite-me apenas rejeitar a ideia de uma qualquer possível impotência sexual de Costello e a ideia de que o filme exprimiria uma espécie de relativismo moral.

Quanto a Costello:

- uma das primeiras cenas em que aparece - encontro com Damon puto - explicita bem que se trata de uma personagem com uma carga sexual forte. De alguma forma, nessa cena Costello engata paralelamente a empregada Carmen e o puto... Poucos actores exprimem de forma tão forte a sexualidade como Nicholson e a sua personagem demoníaca acumula as pulsões sem jamais as travar.

Quanto ao relativismo:

- ao contrário de ti penso que o filme de forma entranhadamente católica distingue claramente a verdade da mentira e o bem do mal... A personagem feminina simboliza - num filme de homens e de orfãos -a justiça e o reconhecimento da importância dos princípios morais.

bjinhos,


De mouseland a 21 de Dezembro de 2006 às 15:21
Hello Rafu, :mrgreen::mrgreen::mrgreen:

- eu diria que Costello tem acima de tudo carisma e poder e que é pelo medo que ele "trabalha" os miúdos (carmen e o damon puto);

- a personagem feminina envolve-se com o paciente e é infiel ao namorado... estou longe de projectar nela qualquer ideia justiceira ou moralidade católica... penso precisamente que é uma personagem ambígua e que carrega no ventre um filho que não se percebe bem de quem é (Damon ou DiCaprio?);

xxx mouse


De rafgouv a 22 de Dezembro de 2006 às 13:22
Obrigado pela resposta :grin: mas acho que aqui te estás a enredar :shock:

Quanto a Costello:
A sua sedução não tem nada a ver com o medo, antes pelo contrário (é oferecendo dinheiro, e indirectamente segurança, que seduz quem lhe interessa)! Não me vou também alargar em considerações, que me parecem neste caso abusivas, sobre a sexualidade e medo... No entanto, para falares de "impotência" a propósito de Costello falas do facto de ele não ter filhos... Como sabes que não tem filhos??? Sabes quando muito que não é casado (e que Damon/ Di Caprio não têm pai)...

Quanto à Vera Farmiga:
Ninguém falou de "justiceira"... Quanto à tal "moral católica" fico sempre surpreendido quando observo que apesar da "moral humanista" predominante ser muito mais "angélica" do que a "moral católica", é sempre esta última que é identificada com anjinhos e discursos moralistas. O que diz a moral católica??? Que somos todos pecadores! Que Jesus Cristo era pecador! Não é por isso absolutamente nada contraditório com essa tradição que o filme mostre pecadores. Segundo a moral católica - e isso distingue o catolicismo doutras formas do cristianismo - a pureza do bem não existe!!!

A personagem feminina é simplesmente a única a "descodificar" o perfil moral dos 2 protagonistas. Enquanto Di Caprio é capaz de se mostrar vulnerável e verdadeiro, Damon jamais "se revela" (nem aos outros nem a si mesmo o que chega para fazer dele uma personagem maléfica)...
De alguma forma o filme pega no tema católico por excelência que é a possibilidade de fazer o bem manipulando o mal...


De mouseland a 1 de Janeiro de 2007 às 21:31
:mrgreen::mrgreen::mrgreen:

Acho que temos mesmo pontos de vista diferentes e entretanto fomos conversando sobre eles.

xxx mouse


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