São várias perguntas que podem não ter respostas que se encaixem num fluxo linear. Por facilidade de exposição talvez o melhor seja optar por uma visão mais ou menos cronológica. As primeiras saídas datam de a.I. (antes da Internet) e articularam de forma muito concreta uma vontade profissional – a de produzir conteúdos audiovisuais, como então se chamavam – com um objectivo mais cívico e abrangente: o de criar fluxos de produção entre criadores independentes europeus. É o início (final dos anos oitenta) do sonho de uma Europa cultural e criativa, capaz de assimilar várias línguas, os países mais periféricos, e os pequenos actores do mercado. Nesses tempos falava-se muitos de regiões e até de cidades; nesse sentido era mais Europa que hoje, em que há um poder altamente centralizado e burocratizado (Bruxelas) e em que, apesar de não viajarmos com passaporte, se voltou às pequenas lógicas nacionais e a transversalidade é uma qualidade que sobrevive exclusivamente nas grandes companhias multinacionais do capitalismo tardio. Entre Edimburgo (Small Countries, Small Televisions), Madrid (com quem desenvolvemos o Projecto Ibérica) e Paris (onde fomos às compras) nasceu a Latina-Europa, empresa que produziu, entre outros, o magazine cultural “Lusitânia Expresso” e o programa de música “Pop-Off”. Porque introduzimos as imagens computacionais na programação regular de TV (antes apenas usada em publicidade devido aos seus elevados custos) comecei, no início da década de noventa, a deslocar-me regularmente ao festival Imagina (Mónaco). Foi lá que descobri palavras novas: cyberpunk, cyberspace, crypto-anarchy, etc., não todas de uma única vez mas ao longo dos anos. O David Chaum falava de dinheiro digital, o Pierre Levy de inteligência colectiva, o Phillipe Quéau de virtualidade, a Patti Maes de agentes inteligentes, tudo isto um pouco antes da Europa acordar para a Internet e para o Ciberespaço.
Voltando aos amigos do Mónaco, o Timothy May enviou-me o manifesto da BlackNet e uma mensagem encriptada em PGP; a Patti Maes ofereceu-me o primeiro número da Wired; e conheci o Coast (João Pedro Silva) que me introduziu ao PortugalVirtual, provavelmente a maior comunidade virtual em Portugal (passe o absoluto pleonasmo).
Enquadrando esta parte da história na pergunta, suponho que a minha paixão pela organização de um certo tipo de eventos tem o seu quê de fortuito. Agradava-me imenso a quantidade de informação e discussão que encontrava aqui e ali quando me deslocava ao estrangeiro. Sentia que replicar essas experiências em Lisboa, mais que um desafio, era um dever cívico; mas nunca o teria feito sem o incentivo e apoio de muita gente e algumas organizações. Com a Maria do Rosário e o Blitz fiz a “Convenção Zero”, que juntou actividades mais de entretenimento (um torneio de Magic, the Gathering; uma bateria de consolas Playstation; um ciclo de cinema de ficção-científica, p.e.) com conferências de Derrick de Kerckhove, Olu Oguibe, Leo Ferreira e um “showcase” da ILM-Industrial Light and Magic com a Ellen Poon. No ano seguinte trouxemos o espectáculo de Chico McMurtrie and Amorphic Robot Works, “Robótica Tribal”, desde S. Francisco. Ainda em 97, para além do primeiro encontro entre dr Bakali e Mouse (toda uma história para contar a seu tempo), o “Art+Tech=Multimedia” reuniu o Frank Boyd (que na altura dirigia o Artec-Arts Technology Centre em Londres), Andrea Steifl (um dos mais talentosos designers que conheci), Michael Coulson (da RealWorld) e Andrew Mayhew (o autor de “Ceremony of Innocence” na Gulbenkian para um workshop sobre multimédia. E a “Convenção 1.0”, em 1998 e já com a malta do Terràvista, juntou cerca de cinquenta miúdos entre os 12 e os 16 anos, vindos de todo o país, à volta de computadores para durante uma semana construírem os seus próprios websites sob a vigilância afectuosa de John Perry Barlow. Exactamente ao mesmo tempo mas noutra parte da cidade (na FIL) tinha conseguido colocar na lista de convidados do Multimédia XXI (hoje Congresso das Comunicações) o Derrick de Kerckhove e o Roy Ascott. Com a Expo98 a acontecer, os bares deixaram de ter hora para fechar. Do meu ponto de vista, Lisboa estava efervescente, lol.
Na CyberConf 96 conheci o José Bragança de Miranda e o Olu Oguibe, com quem continuo a trabalhar. Também lá estavam Manuel de Landa, Andreas Broeckmann, John Perry Barlow, Sandy Stone e Marcos Novak, só para referir aqueles que acabei por trazer a Portugal. Seguiu-se Oslo em 97 e a última CyberConf, em 1998, em Budapeste, onde conheci o Tim Boykett da Time’s Up. A CyberConf tinha um grupo de seguidores muito fiel e era, indubitavelmente, o acontecimento mais selvagem da cibercultura. Em Budapeste realizou-se num matadouro desactivado, gigantesco, bem à escala da economia planeada comunista, não sem antes um padre Hare Krishna ter realizado uma cerimónia de purificação do lugar. Misturou-se transexualidade (que giro, o dicionário do Word não reconhece esta palavra) com drogas, com alienígenas (que supostamente teriam inventado a Internet para controlar as actividades dos humanos) e a Sandy chegou mesmo a interpretar uma espécie de karaoke lésbico, à falta de melhor descrição.
Em Amsterdão, o Doors of Perception estava mais ligado ao design mas discutia assuntos que me interessavam, tal como o tema “Play” em 1998. Boquiaberto, com o Frank Boyd a meu lado avidamente a tomar notas, assisti à primeira recitação de “An Incomplete Manifesto for Growth” pelo Bruce Mau. O Frank enviou-nos por email as 43 regras mas o Manifesto acabou publicado no mês seguinte na revista i-D. Como bem sabes, é um dos meus textos “filosóficos” preferidos. Entretanto, a conferência final foi do Toshio Iwai, que acabava de chegar de Lisboa, vindo da inauguração do CiberFestival no CCB. Foi, simplesmente, encantatório. Se bem me lembro, a minha única decepção foi a ausência do Danny Hillis. O festival seguinte teve por tema a leveza, “Lightness”, um dos temas também de “Six Memos for the Next Millenium”, de Italo Calvino, que acabara de ler. Ficou na memória a apresentação de “Slight, Sparse, Scant and Airy” pelo Bruce Sterling e uma escapadela ao V2 de Roterdão para uma performance do Atau Tanaka. Já o Milia sempre foi uma feira comercial, e o que lá me levou foi o pão para a boca. Mas foi em Cannes que conheci o Douglas Adams, à mesa com o John Perry Barlow, já com champanhe a sair-lhes pelas orelhas. Faziam uma dupla terrível. Só um universo cruel é capaz de nos privar do autor de The Hitchhicker’s Guide to the Galaxy. Cheguei a convidá-lo para vir a Lisboa, mas ele faleceu por essa altura.
Andei por alguns outros lados, desde o World Congress On Information Technology (Bilbau) ao Ars Electronica (Linz), dos Multimedia Labs aos workshops da Wired em Nova Iorque. Tentando terminar por ora com a questão que colocas da articulação entre o que vi lá fora e o que fiz, é óbvio que aprendi alguma coisa sobre como organizar eventos; como seleccionar o que deve ser discutido e com quem. A verdade é que na maior parte dos casos diverti-me imenso, conheci pessoas fantásticas, ouvi coisas assombrosas. Trazer essas coisas e essas pessoas para Portugal, promover ligações, foi um modo de prolongar amizades e partilhar essa riqueza adquirida.
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