Domingo, 21 de Janeiro de 2007
CIBERMEMÓRIAS EM ENTREVISTA_1
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_A tua experiência na Latina Europa (produtora que criaste em 1989), como produtor de conteúdos para a televisão, teve alguma repercussão nos universos tecnológicos quando produziste conteúdos sobre a cultura digital (Jornal Blitz e Exame Informática) e para sites na internet e CD-ROM (Forum on-line)?

Tal como muitas outras pessoas na actualidade tenho dificuldade em responder a questões como “o que fazes?” ou “qual a tua profissão?”, quando essas perguntas pretendem definir-nos um trajecto narrativo ou uma história de trabalho. No geral respondo como uma banalidade, “sou fuzileiro, vou onde há problemas”, o que até não deixa de ser verdadeiro. Mas quando penso seriamente na questão encontro sobretudo duas palavras que fazem sentido nesta razoavelmente longa caminhada: “imagem” e “ecrã”. Da televisão para o computador, dos websites aos jogos de computador, essas são as constantes. Habituei-me desde cedo a compreender os ecrãs como espaços bidimensionais, em tudo semelhantes a uma tela de pintura excepto no facto da luz não ser reflectida mas sim emitida (o que é deveras importante, mas é outra conversa). Julgo que na última fase da série “Lusitânia Expresso” esta “opção estética”, por assim dizer, era já bastante evidente e culmina no genérico que fiz para o programa do José Duarte, “Outras Músicas”: há uma dimensão intricada de planos, de sobreposições, de narrativas.

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Não pretendo com isto inventar uma teoria de autor para o meu trabalho, até porque sou intrinsecamente um produtor e não um artista. Não é essa abordagem que me interessa mas antes estabelecer a relação entre aquilo que considero ser o meu espaço de trabalho e expressão – o ecrã – e as linguagens e conteúdos capazes de o activar. Ao configurar a imagem (estou a falar estritamente da plasticidade, media passivos e interactivos ficam para mais tarde) não acho que tenha tratado de modo muito diferente o ecrã de televisão e o do computador, sendo que no primeiro o tempo da experiência e da narrativa é pré definido (pela montagem) e no segundo está dependente do leitor (pela navegação). A partir do Mosaic, e apesar da grande parte das coisas que fiz se basearem na escrita, já não concebi a Internet como uma enciclopédia mas sim como uma imagem ubíqua: interactiva, “navegável” e, de preferência, fora de controlo. A “imagem digital” reconfigura-se de modos impossíveis à imagem televisiva, possui uma plasticidade inesgotável. Como sou um péssimo desenhador e designer, perdi a autonomia que possuía em televisão. Aprendi os mínimos exigidos de software e passei a trabalhar com designers e programadores talentosos e competentes. Deste modo, retornando ao cerne da tua questão, penso que o controlo da tecnologia é vital para compreender “o que é?” e “o que fazer?” com os media, não pela manipulação directa de programas e técnicas mas sim pela compreensão dos processos. O controlo não é uma questão de competência técnica mas sim a inclusão de uma visão ou dimensão política e ética nos processos. O que eu descobri quando passei do mass media televisão para o media digital é que nós, produtores e artistas, acabávamos de ganhar uma responsabilidade imensa. É verdade que nunca existiram imagens inocentes, mas a imagem digital é a arma mais letal alguma vez inventada pelo homem. O digital é para a história das imagens, o mesmo que a fusão nuclear para o armamento. 


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