Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007
SIM!

Teve ontem início a campanha eleitoral para a despenalização do aborto. O dia foi marcado com um debate moderado por Fátima Campos Ferreira na RTP 1 que contou com a presença de dois painéis e diversos intervenientes. Alguns participantes defenderam o
SIM outros o
NÃO mas o que ficou absolutamente claro naquela noite, quanto a mim, é que existem dois tipos de portugueses distintos. Alguns, insistem em viver numa sociedade medieval (como assinalou
Lídia Jorge referindo-se a um comentário sobre o nosso país proferido pela irmã de
Simone Beauvoir nos anos quarenta). Outros, pretendem acompanhar a civilização europeia na preservação dos direitos humanos e não falam a partir de abstracções e retóricas gastas, em alguns casos desonestas e baseadas em jogos de linguagem (confundir livre arbítrio com libertinagem, por exemplo). Laurinda Alves, partidária do
NÃO, socorreu-se da dota ciência que tudo prova… não se sabe é o que é que prova dada a incapacidade de apresentar uma argumentação credível… Com rigor e determinação Maria José Alves introduziu a ideia que o feto só adquire um sistema nervoso central (consciência) depois das 10 semanas. Com uma inteligência fina, Vital Moreira, partidário do
SIM à despenalização do aborto, mostrou bem a hipocrisia vigente na postura dos seus oponentes (falam sobre a vida quando deviam falar sobre a ridícula lei actual propensa à morte de tantas mulheres). José Manuel Pureza, sociólogo, chamou a atenção para as falaciosas manhas da argumentação pela lei actual que nada pretende mudar e que é conivente com a morte quando pretensamente se diz pela vida. Vasco Rato, em sintonia com Maria José Alves (excelentes intervenções) chamou a atenção para o cerne da questão: a não-aceitação da capacidade de escolha das mulheres!
Fico absolutamente boquiaberta ao perceber como alguns assuntos são completos tabus na sociedade portuguesa e que a simples oportunidade de escolha (ser ou não ser mãe perante uma gravidez indesejada) é negada às mulheres. O problema é persistente e esteve ontem à noite presente nos abjectos discursos de alguns pouco informados partidários do
NÃO e tantos outros que acedem em dar a cara contra a civilização europeia. Uma vergonha desmascarada pelos discursos mais informados e tolerantes… Obrigada Maria José Alves, Vital Moreira e todos aqueles que, pelo
SIM, se empenharam em fazer valer uma visão esclarecida e rigorosa, sem contradições e incoerências.
Bom post e devo dizer que admirei ler a tua defesa pelo sim, embora a minha visão seja diferente e devo mesmo votar pelo não - razões adiante.
De resto não sobejam dúvidas que esta questão apela à consciência individual e talvez por isso, no cerne das convicções íntimas haja por vezes excesso de ânimo e falta de tolerância na troca de argumentos ( Jorge Sampaio, nos seus doutos comentários, referiu e bem a falta de tolerância que há nesta questão) que não é tão notória nas questões intrínsecamente políticas.
Eu não sou capaz de defender acérrimamente e sem reservas uma posição. Há um misto de fractura nos dois âmbitos de escolha, mas na dúvida sinto-me inclinado a votar não. Simplesmente por uma ideia de desresponsabilização que o sim potencia. Facilitar ou potenciar a escala abortiva nos hospitais devidamente capacitados é mais uma razão e um ímpeto onde falha a educação sexual, planeamento familiar e o desleixo.
- "Se isto correr para o torto há remédio!"
Aquela margem de dez semanas é pequena e estreita, mas vamos lá actuar. E depois: que tipo de aconselhamento será dado? Poderá uma mulher voltar à sala do hospital para repetir uma prática abortiva? Terão os hospitais recursos suficientes para acautelarem as estimativas abortivas? Tem-se sentido alguma falta de fundamentação.
E por último nem gosto de ver este referendo como partidário; direita pelo não, esquerda pelo sim. Sou de esquerda e votei no José Sócrates na última eleição legislativa, mas esta questão atalha à minha maneira de dar rumo às coisas. Seria uma alternativa votar sim, despenalizar a IVG e tornar tudo mais simples, rápido e fácil. Mas é no planeamento, na educação sexual, no rigor, na aprendizagem e na assumpção dos encargos, deveres e ónus que se deve enveredar.
Nos casos extremos, a actual lei já contempla a prática abortiva em hospital.
Que não seja isto um argumento para o não, nem é essa a minha intenção, mas é curioso que a mãe de Ludwig Van Beethoven tenha pensado em abortar aquele que foi um dos geniais compositores musicais do séc. XIX apesar da audição que lhe foi rapinada ainda enquanto jovem.
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