Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007
CIBERMEMÓRIAS EM ENTREVISTA_2
_Como articulas a tua experiência profissional que se move em variadas áreas de intervenção (jornalismo, produção de eventos, gestor de conteúdos ou professor) com os teus interesses mais pessoais (arte, jogos, música)? Consideras que todos fazem parte do teu curriculum pessoal e que se fazem e refazem em simultâneo? Que são extensões de ti próprio? Suponho que a contaminação – como agora se usa – entre os vários interesses e actividades não é especial; é uma consequência do nosso tempo, que produz trajectos profissionais em contínua reinvenção, por um lado e pelo menos nas áreas em que a criação e a tecnologia andam cruzadas; e por outro em multiplicidade, dado as cada vez mais amplas ramificações e cruzamentos que essas mesmas actividades produzem (“rizomáticas”, como tu gostas). Marshall McLhuan tinha toda a razão quando dizia que já não faz sentido falar de profissões ou empregos. Não há qualquer altura do dia em que eu possa dizer “agora vou deixar o trabalho e divertir-me” porque não existe uma fractura entre as duas coisas. Neste aspecto tenho sido um felizardo, porque vivo bem em insegurança, trabalho bem em missões de risco e, talvez por isso, penso que colaborei em alguns projectos que de certo modo deixaram a sua marca. Num tom mais pessoal, diria que foi o alfabeto a despertar-me o primeiro fascínio. À hora do almoço o meu pai sentava-se no sofá e lia o Notícias (de Lourenço Marques) e eu achei que aquele exercício tornar-me-ia mais “esperto”. Aprendi as primeiras letras pela repetição, no processo algures descrito pelo Lévy-Strauss. A seguir veio o cinema, com sessões ao ar livre sexta à noite (na escola em frente a minha casa), sábado à noite (na paróquia da Munhuana) e domingo à tarde em sessão dupla no S. Gabriel da Matola ou num cinema chique da cidade. Crescendo num país sem televisão, sem ruído desnecessário, a imagem em movimento possuía uma magia inigualável e ver menos de três filmes por semana era-me insuportável. Vem esta confissão em razão de explicar que não devemos subestimar os primeiros impulsos da infância. Escrever e realizar são necessariamente consequências dessas paixões pelos livros e pelos filmes e a sorte que tive foi a de uma família generosa e atenta que me satisfez tais curiosidades. E uma cidade, em tudo magnífica, que nem a repressão metropolitana era capaz de vergar. Independentemente do material que me estimula, diria que a curiosidade mais tarde ou mais cedo se pode materializar em processos. Aprender a ler e aprender a ver foi fundamental para arriscar a fazer. Respeito sempre a teoria e a aprendizagem académica mas há um lado auto-didáctico que acaba por determinar um certo experimentalismo e gosto pelo risco. Em mim, a asneira convive confortável porque os processos são mais importantes que os resultados. Neste sentido fiz ou faço talvez demasiadas coisas. No entanto há uma matriz comum de curiosidade, de exploração (e não de invenção) que é o que me faz realmente feliz.
_ “O trabalho de Eisenstein é um produto claro da dinâmica em jogo entre arte, tecnologia e vida durante o período avant-garde soviético (de 1915 a 1932). Eisenstein representou um novo tipo de artista media com treino em matemática, engenharia e arte e foi alguns anos, durante a sua juventude, designer e encenador para o realizador russo avant–garde Vsevolod Meyerhold (1874-1940). (…) Eisenstein sentia que uma nova sociedade pedia uma nova visão; que a forma como as pessoas viam as coisas tinha que ser alterada; que não era suficiente colocar novo material em frente de velhos olhos” (Rush, 1999: 18). Como interpretas a necessidade contemporânea de artistas que sejam simultaneamente designers, engenheiros, escritores, investigadores?
Suponho que Duchamp ganhou a alcunha de “engenheiro” (“O Engenheiro do Tempo Perdido”) por uma razão, lol. Ele foi muito crítico da arte que chamou de “retiniana”, que se dirigia exclusivamente ao olhar superficial, ao bom gosto (uma coisa irresistivelmente burguesa). Se não é apenas retiniano, então esse olhar deve ser também analítico e racional, inteligente enfim. Na questão anterior podemos encontrar parte da resposta: hoje os processos são o mais das vezes mais interessantes que os resultados. Não quero com isto dizer que a música baseada em matemática é melhor que John Coltrane, não é, a inspiração e o virtuosismo ainda valem o que valem. Mas numa época em que a novidade e a invenção já não são substanciais – tal como disse MM,
“The method of our time is to use not a single but multiple models of exploration – the technique of suspended judgement is the discovery of the twentieth century as the technique of invention was the discovery of the nineteenth” – e deram lugar à exploração como epicentro do trabalho artístico, então a multiplicidade é necessária pois o que está em causa já não são apenas a imagem e a forma mas também os suportes, as técnicas, o próprio sistema de produção e a distribuição. Nada disto é impressionante. O que me impressiona é que as galerias, os museus e os críticos estejam ainda pejados de arte retiniana. E que haja tanto aprendiz de feiticeiro que se atreva a fazer Duchamp sem nunca ter percebido duas coisas: que Duchamp era um homem invulgarmente inteligente, ponto um, e que possuía um sentido de humor bem acima da média, ponto dois. Voltando a um exemplo de MM:
“If war can become a form of education, art ceases to be a form of self-expression in the electric age. Indeed it becomes a necessary kind of research and probing”. Eu estou-me nas tintas para a angústia pessoal do artista; quero é que ele me explique “o que aí vem” (o “ce qui arrive” do Virilio”). E para o fazer, ele precisará de fazer ligações, explorar, sondar áreas extensas do conhecimento. Que foi o que fez Eisenstein.
De
mouseland a 19 de Fevereiro de 2007 às 15:50
Ah outra coisa. Não foram os grandes artistas sempre também de alguma forma engenheiros e investigadores? Não por acaso as relações entre arte e engenharia são intricadas. Basta pensarmos em Leonardo da Vinci, Duchamp, Paul Klee, nos futuristas, entre tantos, para percebermos que o senso comum é por vezes demasiado rápido nas generalizações que produz sobre as diferentes cátedras. Em Portugal o preconceito é imenso nesta área, parece-me. Não está a técnica sempre presente numa engenharia do tempo perdido?
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