Quem aprecia sobretudo o virtuosismo arty do Lynch de Twin Peaks – Fire Walks With Me ou Lost Highway não deixará de ficar extremamente desapontado com INLAND EMPIRE. Neste novo Império [1], Lynch não abdica de forma alguma da pluridisciplinaridade que caracteriza a sua obra. INLAND EMPIRE é um filme mas também de algum modo uma instalação, um território arquitectónico labiríntico feito de circunvalações, corredores, subterrâneos. No entanto, em INLAND EMPIRE não há lugar para o glamour que de alguma maneira caracterizou também a sua obra de Wild at Heart a Mulholland Drive (expresso nomeadamente por referências constantes e emblemáticas ao cinema clássico de Hollywood, de The Wizard of Oz a Sunset Boulevard). Se bem que estes filmes (como de resto os seus referentes) fossem também desmistificações, podemos dizer que reafirmavam com pungência o poder mitológico da fábrica dos sonhos (os casais formados por Laura Dern e Nicolas Cage em Wild, por Patrícia Arquette e Bill Pullman em Lost ou por Rebecca Romijn-Stamos e Naomi Watts em Mulholland são reencarnações não estilizadas das estrelas do cinema clássico). Ora, se o cinema continua a ser um dos temas principais de INLAND EMPIRE (que aliás pode também ser visto como uma actualização ou um remake de Mulholland, nomeadamente pela reedição de um paradigmático beijo sáfico [2]), ao rodar uma boa parte do filme na Polónia (e em polaco), Lynch transfigura-se. Nalguns momentos, tive a nítida sensação de que o realizador de Dune se deixou possuir pelo Tarkovsky de Stalker. Ao investir, através de um túnel secreto, os antípodas do cinema de Hollywood, uma vez mais simbolizados [3] pela Europa de leste, o realizador desterra um terreno claro obscuro, feito de ruínas, feridas e humidade que não é menos um terreno de sonho. Diz Lynch a propósito da rodagem em DV: “É diferente. Alguns dirão que é feio. (...) Com uma imagem pobre [4] há muito mais espaço para sonharmos.”
Há algumas semanas, David Lynch, em mais um exemplo da sua extrema generosidade e do seu enorme sentido de humor, entrou em campanha. Com um amigo, uma vaca (“Sem queijo não haveria um INLAND EMPIRE...”) e um cartaz do filme foi para Hollywood Boulevard tentar convencer os membros da Academia de Artes e Ciências de Hollywood a nomearem Laura Dern para os Óscares. Sem resultado.
Confesso que não tenho palavras para escrever sobre Laura Dern. INLAND EMPIRE pertence-lhe tanto quanto a Lynch. Graças a ela, INLAND EMPIRE é um milagre, uma obra transcendente, um filme tão carnal quanto cerebral.
INLAND EMPIRE é um filme interminável [5] sobre um mundo crepuscular mas não desprovido de Graça. Não é uma obra-prima, é uma Obra Essencial como a canção de Nina Simone que o fecha – “Sinnerman”. Para todos nós!
[1] Ao mesmo tempo território cinematográfico e místico como a velha sala lisboeta do mesmo nome.[2] Não pretendo aqui desvendar os recantos deste filme-mundo.
[2] Não pretendo aqui desvendar os recantos deste filme-mundo
[3] Pode parecer paradoxal mas na verdade existem inúmeros pontos comuns entre INLAND EMPIRE e o interessantíssimo Borat que aqui tentei analisar há algumas semanas.
[4] E neste filme não é só a imagem mas também muitas vezes o que nela vemos que é pobre.
[5] Dura 3 horas mas durará toda a minha vida, ou seja, se tudo correr bem, eternamente.
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