Quarta-feira, 7 de Março de 2007
REQUIEM A JEAN BAUDRILLARD
jeanbaudrillard.jpg

Morreu ontem Jean Baudrillard ou foi-se embora o seu simulacro? (Recentemente, em 2006, numa galeria de arte em Nova Iorque o filósofo afirmou que era um simulacro de si próprio). Partilho totalmente as afirmações de José Bragança de Miranda hoje no jornal Público e nutro uma certa desconfiança em relação às teorias sobre a hiper-realidade que advogam o desaparecimento da ilusão e por inerência da realidade. As teorias da simulação de Baudrillard acabam por ser mais teorias sobre a realidade do que propriamente sobre a simulação e tornaram a discussão à volta da simulação muito nebulosa. Susan Sontag chamou-lhe provinciano e cego em relação à situação da maioria das almas vivas do planeta em prol dos poucos que vivem em países ricos. As teorias do filósofo francês são impossíveis de sustentar porque o real se tornou um "monstro bipolar" e não uma imagem ou um espectáculo (como advogaram Baudrillard ou Debord). Andrew Darley, gabou-lhe a interpretação do pensamento de Marshall McLhuan e de Walter Benjamin em Requiem For the Media mas algumas das suas teorias sobre o facto da televisão assinalar o fim da ideia de representação, a expulsão do espaço do jogo e da ilusão são alucinantes e terminam no diagnóstico da inauguração de uma era da obscenidade. Baudrillard foi cómico e as suas ideias são totalmente paradoxais. Como afirma José Bragança de Miranda hoje no jornal Público, Baudrillard é importante na medida em que faz parte do “imaginário contemporâneo”. Imaginário este bem “patente no Matrix dos irmãos Wachowski e no eXistenZ de David Cronenberg”.


19 comentários:
De Carla Badillo a 7 de Março de 2007 às 21:01
De qualquer jeito, Baudrillard foi um dos pensadores mais importantes dos últimos tempos. Nao tem dúvida...sua morte e já uma REALIDADE.
Eu também escrevi algo sobre o sociólogo francês no meublog.

Um abraço desde a mitade do mundo: Quito-Equador!


De mouseland a 7 de Março de 2007 às 21:53
Olá Carla,

Gostei do teu blog e já antecipo uma ciberfeminista, hehehe ;-). Espero uma correspondência interessante entre Quito e Lisboa! Quanto ao Jean Baudrillard aconselho a leitura do livro "Olhando o Sofrimento dos outros" de Susan Sontag. Também gostei e fui muito influenciada pelo livro "Simulacros e Simulação" até que um dia o reli e fiquei pasmada quando ele diz que a ilusão já não é possível porque o real já não existe. Depois aquelas críticas ao centro Pompidou virado em Disneyland são um bocado reaccionárias... enfim, opiniões!

xxx mouse


De laca a 8 de Março de 2007 às 04:30
“Enquanto a representação tenta absorver a simulação interpretando-a como falsa representação, a simulação envolve todo o edifício da representação como simulacro”. (Baudrillard, 1991: 13)


ironia! ironia real ou ilusão?!
*****


De rafgouv a 8 de Março de 2007 às 14:32
É óbvio que confundir algumas breves análises de Baudrillard com "teses" como faz Bragança de Miranda é, para o parafrasear, altamente "problemático"...

Falar de artigos de 2 páginas ("La Guerre du Golfe n'aura pas lieu" e "La Guerre du Golfe n'a pas eu lieu") como se se tratassem de tratados ou teses é também de uma aflictiva ignorância! Baudrillard sempre assumiu o seu pensamento paradoxal e nunca quis cobrir o mundo de sentenças.

Digamos que a oposição pretensamente escandalizada com que alguns textos polémicos mas sobretudo assumidamente superficiais e diletantes (aqueles que já citei, entre outros) são tratados é exemplo da pobreza da filosofia contemporânea e, paradoxalmente, da importância que o pensamento de Baudrillard nela assumiu. Que Susan Sontag lhe tenha respondido à letra numa diatribe sensaborona (e pretensamente "sensível") indigna da sua inteligência é um daqueles mistérios...

Mas estou certo que a Susan e o Jean a esta hora já se reconciliaram.


De mouseland a 8 de Março de 2007 às 15:55
Olá Laca,

Obrigado!

Raf,

Não foi apenas a Susan Sontag foram inúmeros autores que recentemente têm questionado e problematizado as teses de Baudrillard. Como sabes estou a tratar o tema da simulação há quatro anos e posso inumerar um conjunto de autores entre muitos que têm questionado as inflamadas teorias de Baudrillard: Mark Poster, Richard Grusin, Andrew Darley para citar apenas alguns do vasto número de investigadores que o têm "descascado". Podes não estar de acordo mas as unanimidades em relação a cátedras de autores são bem mais acriticas do que estas leituras activas sobre alguns pensamentos que proferem. E o autor francês sempre se colocou "a jeito". Não dei ênfase a Sokal nas "Diatribes intelectuais" mas há coisas bastante mais poéticas e ficcionais do que sociológicas ou pretensamente aplicáveis em Jean Baudrillard, parece-me. De notar a caricata afirmação o ano passado em Nova Iorque onde se afirma simulacro de si próprio e onde se nota que o próprio já tem consciência do contrasenso.

xxx mouse


De rafgouv a 8 de Março de 2007 às 16:37
Aquilo a que chamas "teses" de Baudrillard não são "teses" são "polémicas" destinadas precisamente a criar debates e ser contestadas. A grande utilidade de Baudrillard foi, através do seu pensamento paradoxal (e por vezes contraditório), trazer a dialéctica à pós-modernidade. Nesse sentido, Baudrillard ensinou a filosofia a toda uma geração, mesmo que o tenha feito indirectamente através de avatares como o Matrix ou o Existenz e isso é mais do que suficiente para afirmar a sua importância.

A dialéctic


De rafgouv a 8 de Março de 2007 às 16:52
Aquilo a que chamas "teses" de Baudrillard não são "teses" são "polémicas" destinadas precisamente a criar debates e ser contestadas. A grande utilidade de Baudrillard foi, através do seu pensamento paradoxal (e por vezes contraditório), trazer a dialéctica à pós-modernidade. Nesse sentido, Baudrillard ensinou a filosofia a toda uma geração, mesmo que o tenha feito indirectamente através de avatares como o Matrix ou o Existenz e isso é mais do que suficiente para afirmar a sua importância.

Por outro lado, é inegável que os 2 artigos de Baudrillard sobre a 1a guerra do Golfo (que já mencionei) determinaram, apesar da sua modéstia, de forma espantosa a maneira como a 2a guerra do Golfo foi coberta pelos jornalistas. A maneira como esta guerra foi filmada e documentada desmentiu de forma gritante as previsões de Baudrillard mas podemos também perguntar-nos se esse desmentido teria ocorrido se o filósofo não tivesse feito a sua crítica...

Quanto à focalização na dialéctica dos simulacros que ocupa de maneira aberrantemente simplista quase todos os comentadores de Baudrillard:

- como a dialéctica hegeliana do senhor e do escravo é uma espécie de método pronto a pensar que dá aos ignorantes a impressão de serem mestres de filosofia e aos mestres de filosofia a impressão de que têm ainda algum sentido crítico... é prático para toda a gente mas é inegável que o seu autor não a tomava assim tão a sério.

Ler por exemplo a Susan Sontag criticar Baudrillard porque o seu pensamento apenas se aplica às sociedades ocidentais é aflitivo. Ou não terá a Sontag, que respeito profundamente, percebido que a pós-modernidade também só se aplica ao ocidente?


De bakali a 12 de Março de 2007 às 10:32
ena Raf

Essa d"a pós-modernidade também só se aplica ao ocidente" é boa. Tenho algumas dúvidas sobre a possibilidade de reconciliação. Os ares de Paris parecem estar a precisar de refrigeração, eheh.

abraço

bak


De mouseland a 12 de Março de 2007 às 22:53
Olá Bak,

Bem-vindo ao solo nacional :mrgreen:!

xxx mouse


De rafgouv a 15 de Março de 2007 às 10:12
:cool:
Olá Bak, é verdade que a velha europa - i'm not in paris - está a precisar de imensa refrigeração (e mesmo de reanimação).

Infelizmente não percebo a que "reconciliação" te referes (se é de Sontag/ Baudrillard, estou certo que já está feita)... quanto à afirmação sobre a pós-modernidade, utilizei-a com uma autêntica intenção pedagógica: é daqueles lugares comuns, frases feitas para animar cavaqueiras em blogs curiosos... É possível adaptá-la a diversissimas situações. Alguns exemplos:

- a modernidade também só se aplica ao ocidente
- os índios guaraná nunca ouviram falar de idade média
- se tivessem conhecido a idade clássica, os USA teriam muito mais classe
- etc., etc.

:lol: abração!


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