Segunda-feira, 26 de Março de 2007
TECNOROMANTISMO_A MATEMÁTICA DO SUBLIME_ANDRÉ SIER_STRUCT_5



André Sier expõe
Struct_5 na agência de arte Vera Cortês até dia 31 de Março.
Struct_5 é um dispositivo interactivo que capta o movimento do visitante e gera sons e imagens mediante os gestos deste. Grava e reproduz no próprio espaço dados provenientes da interacção no lugar e devolve-os sob a forma de espectros geométricos e sons guturais. A sensação é estranha e tive a impressão que estava dentro do filme
the ring (aka ringu). As combinações numéricas geram “cortinas” ou interfaces múltiplas consoante os passos do participante no espaço do cubículo e implicam de alguma forma a nossa capacidade de saber ou não manipular o dispositivo e gerar
outputs mais interessantes. Em alguns momentos senti-me envolvida por uma certa ideia de matemática do sublime. Matemática no sentido das combinações e algoritmos implícitos no dispositivo e sublime porque imersa num certo imaginário romântico próprio das narrativas digitais da actualidade.
Struct_5 evoca as considerações de Richard Coyne em
Tecnoromanticism, digital narrative, holism, and the romance of the real: “As narrativas digitais muitas vezes apresentam as competências por computador como artes misteriosas numa concepção romântica análoga às concepções de alquimia medieval e artes negras. Os programas e as redes de computadores são labirintos. Os sistemas de computadores envolvem a interconexão de componentes de software e hardware os quais são concebidos e manufacturados por outros e por isso são misteriosas “caixas negras” imprevisíveis e irracionais. (…) Os ingredientes do romantismo medieval estão lá: progressão labiríntica, hierarquias de lugar e
status, intervenções irracionais através das forças da magia, forças poderosas e irracionais e a aquisição de poder e vitórias através da magia apropriada de uma razão superior” (Coyne, 2001: 38).
De rafgouv a 26 de Março de 2007 às 16:07
Cá está um tema que me interessa bastante!
Algumas observações sobre a citação de Richard Coyne que contém inúmeros pontos litigiosos:
Não existe nenhum "romantismo medieval" mas antes um romantismo "medievalista"... por outro lado, os elementos referidos por Coyne são elementos de "décor" que nada têm que ver com a essência do romantismo e ainda menos com qualquer estética do "sublime" (o "sublime" qualifica a capacidade de elevação moral da tragédia, das suas personagens "bigger than life" e do público)...
É um facto que os labirintos e as marmorras são elementos fulcrais de alguma estética romântica (e sobretudo pré-romântica graças nomeadamente aos romances góticos de Mrs. Radcliffe ou de Matthew Gregory Lewis e posteriormente à obra de Percy e Mary Shelley ou de Lord Byron), principalmente britânica...
É certo também que nos romances românticos que acabo de citar o recurso ao "terror" (outro dos elementos da tragédia clássica) é uma das formas de suscitar o "sublime"...
O sublime não pode assim ser reduzido um décor ou a um "imaginário"... excepto se considerarmos simultaneamente (o que também não é falso) que o romantismo transformou esse "sublime" em nihilismo (solidão, aridez...) e assim lhe deu o golpe de misericórdia.
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