Segunda-feira, 9 de Abril de 2007
300_PARADOXOS DA CULTURA DIGITAL NA ARTE DA CATÁSTROFE

300 de
Zack Snider deixou-me boquiaberta pela tecnicidade envolvida. Tecnicidade no sentido de interconectividade entre a identidade do filme e a competência tecnológica aí demonstrada. Os gostos, aptidões e propensões em relação à tecnologia tornam-se parte da identidade particular do filme (Dovey & Kennedy, 2006: 64). Este aspecto é particularmente interessante quando o realizador além de coqueluche de filmes comerciais publicitários e vídeos musicais teve formação clássica na área da pintura e do design. O filme, segundo o artigo “A arte da guerra” de Lev Grossman (
Time), publicado na revista
Visão, remete-nos para a batalha das Termópilas (“portas quentes”) que teve lugar há 25 séculos num desfiladeiro no norte da Grécia. Os 300 espartanos e mais um punhado de seis mil e setecentos mal treinados homens gregos lutaram contra mais de 250 mil persas sob o comando do rei Xerxes. O combate desigual e sem qualquer hipótese de sucesso é retratado a partir da banda desenhada de Frank Miller que se terá inspirado no filme
300 Espartanos de Rudolph Maré. Miller é também autor de uma novela gráfica que deu recentemente azo a um outro filme,
Sin City, de
Robert Rodriguez.
O filme de
Zack Snider foi integralmente construído num armazém de Montreal através de técnicas de simulação digital e apenas os actores e uma cena exterior que envolve cavalos a galope foram rodadas de forma tradicional. As filmagens demoraram uns míseros sessenta dias enquanto que a pós-produção demorou um ano inteiro e envolveu um número alargado de empresas de efeitos especiais. O filme mergulha-nos de corpo inteiro na era dos modelos sem representação estática e ainda é mais curioso que explore de forma tão evidente o paradoxo existente numa tecnologia (a digital) baseada na produção de imagens sem referente no “mundo real” e ao mesmo tempo tão preocupada com a questão do realismo óptico (Dovey & Kennedy, 2006: 53). Ao contrário do cinema e da fotografia, a simulação digital permite a superação do referente analógico pelo modelo digital, mas como a fotografia e o cinema, para se legitimar a cultura da simulação digital tem que se apresentar como mais um
upgrade tecnológico cujo fito é potenciar a sensação de imersão provocada pelo realismo. Neste filme, Snider oferece uma outra via para este paradoxo e a preocupação é claramente com a desmontagem da cultura da imagem digital como fotorealista. A consistência do filme reside precisamente no conjunto de contrastes recombinatórios que nos transportam para o cerne da pintura histórica, para ambientes inspirados pelo sublime romântico, para pranchas de banda desenhada, coreografias de guerra, monstros e criaturas deformadas pela corrupção e pela traição.




O cinema torna-se pintura e escultura e filmar passa a ser um acto performativo aberto à inserção de cenários desenhados à posteriori. Neste contexto: “
300 não é um filme sobre uma batalha. É um filme sobre uma novela gráfica sobre um filme sobre uma batalha” (Grossman, 2007) onde o sangue é tratado como tinta.
300 é um filme que evoca a estratégia de
Théodore Géricault no quadro
A Jangada da Medusa (1818-19) tão deliciosamente desmontada no livro de
Julian Barthes,
A História do Mundo em Dez Capítulos e Meio (1989), ou seja, Snider optou por representar corpos musculados e perfeitos e assim transformar a catástrofe ou o espectáculo do horrendo, sempre gore, numa forma de arte. Como os náufragos da Medusa, que certamente beberam e comeram os seus próprios dejectos, os guerreiros de
300 foram representados como se tivessem saído de um ginásio, corpos musculados e saudáveis às portas da morte. Não fosse uma função da arte transformar a catástrofe em reflexão sobre si mesma… ali o que parece estar em causa é expressar a heroicidade daqueles guerreiros não como eles existiram mas como poderiam ter existido. No cinema, como no jogo da arte.
De rafgouv a 10 de Abril de 2007 às 18:16
Caros mouse e nzagalo,
se bem se lembram tivemos há vários meses uma discussão sobre o "maneirismo" cinematográfico. "300" é quanto a mim um dos melhores exemplos desse maneirismo... que aqui se mede pela exaltação plástica (aliás a referência a Géricault é nesse sentido eloquente).
Para mim tal não chega para fazer um bom filme mas apenas um filme digno de interesse (o seu kitsch - ou não repararam? - poderá rivalizar com a obra de Ed Wood). "300" é uma espécie de carnaval que oscila plasticamente entre o criptogay e o criptohomófobo (confesso que vi nele mais influências de porno do que de Bosch ou Géricault, mas cada qual suas referências) para grande prazer dos meus músculos zigomáticos que se fartaram de trabalhar. Mas só os zigomáticos pois para que o erotismo tivesse feito efeito deveria ter havido litros de esperma para contrabalançar tanto sangue (por outro lado: a consistência tipo puré do sangue não será tb uma referência "recombinatória" a outros fluidos??)...
Adorei também as réplicas da raínha (se alguns o comparam Snyder com Bosch, não hesitemos em considerar que "Freedom is not free!" é uma tirada digna de Shakespeare). E fiquei também impressionado com a qualidade parte documental com a reconstituição histórica sobre o piercing!... E eu que não sabia que o piercing vem da Pérsia!
Como alguém referiu - penso que no NY Times - "300" é o melhor pagode desde pelo menos "Team America".
Na sala em que vi o filme a ambiência era de comédia total. Custa-me a acreditar que em Portugal o público se deixe tanto impressionar...
Alguns não hesitam em chamar-lhe "fascista" o que contribui ainda mais para a anedota mas confesso que a forma com que aqui parecem levá-lo a sério ("sublime romântico"??? queriam!! o "maneirismo" é, também na pintura, o último suspiro do romantismo) também contribui um bocado.
:mrgreen::mrgreen::mrgreen:
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