Terça-feira, 10 de Abril de 2007
EM M. NIGHT SHYAMALAN ACREDITARÁS_por rafgouv
ladyinthewater.jpg

M. Night Shyamalan é um dos cineastas americanos contemporâneos cuja assinatura é mais facilmente reconhecível. Tal como Tim Burton, Shyamalan assume a herança do cinema de género para a partir das suas fundações edificar um universo, estético e semântico, pessoal inconfundível. Cada um dos seus cinco filmes que conhecemos na Europa [1] parte de um dos géneros, situações e personagens emblemáticos do cinema popular: o thriller fantástico (The Sixth Sense), o filme de super-herói (Unbreakable), a invasão de extraterrestres (Signs), o terror gótico (The Village) ou o conto maravilhoso (Lady in the Water). Ao contrário de Burton por exemplo que assume plenamente o carácter artificioso da ficção cinematográfica, a obra de Shyamalan caracteriza-se pelo tratamento literal que é dado a praticamente todos os elementos fantásticos ou maravilhosos em que se baseia: em The Sixth Sense os fantasmas são de carne e osso, os extraterrestres de Signs simples silhuetas, o colosso de The Village é um logro e a sereia de Lady in the Water tem duas pernas. Ao exibicionismo espectacular dos efeitos especiais e das encenações barrocas, o realizador de Unbreakable prefere uma modéstia aparente feita de tons crepusculares, onde os únicos personagens dignos de interesse são apenas humanos, confrontados, como todos os humanos, com o inexplicável.

thevillage.jpg

A TRILOGIA COMUNITÁRIA

Podemos falar dos três últimos filmes do autor de The Sixth Sense como de uma trilogia. Em cada um deles, Shyamalan desenha universos praticamente fechados – duas quintas (Signs e The Village) e um condomínio (Lady in the Water), todos eles na Pensilvânia – dentro dos quais se movem grupos de personagens (uma família, uma comunidade, uma vizinhança) extremamente bem definidos. Nestes filmes, não é tanto a personalidade ou a psicologia de cada um dos personagens que interessam o realizador mas os laços que se tecem, ou que esmorecem, entre eles e os que os rodeiam. A imagem da cadeia humana é assim um tema recorrente da trilogia: em Signs a família começa a renascer quando se liga fisicamente para captar a transmissão dos extraterrestres, os patriarcas de The Village estão unidos por um pacto secreto e os habitantes do condomínio de Lady in the Water vão progressivamente associar-se até formarem um muro humano.

signs.jpg

O facto de Shyamalan ser também o argumentista dos seus filmes contribui sem dúvida para explicar a qualidade da atenção dispensada aos personagens secundários. Outra das explicações estará provavelmente no cariz vincadamente religioso das suas ficções. Tanto  Signs como The Village se desenrolam efectivamente no seio de comunidades profundamente cristãs. No entanto, o problema da fé nunca é abordado à luz do discurso religioso ortodoxo. O que interessa Shyamalan não é a releitura dos mitos bíblicos [2] mas simplesmente a capacidade humana para crer. Assim, não é por voltar a acreditar em Deus que o pastor de Signs (Mel Gibson) salva os seus mas por acreditar in extremis no sentido oculto das últimas palavras da sua mulher, resultado, como ele próprio refere, de arbitrárias conexões sinápticas. Poderíamos dizer que The Village constitui inversamente uma crítica do carácter arbitrário e manipulador de algumas crenças mas tal é apenas parcialmente verdadeiro na medida em que o realizador nela assume a ambiguidade do seu papel demiúrgico (Shyamalan aparece no epílogo como um dos guardas do domínio): se o criador de ficções (o argumentista e realizador mas também os patriarcas da Vila) manipula é também ele quem dá sentido, quem organiza, quem estrutura a vida da comunidade. Uma vez assumida essa ambiguidade que no cinema de Shyamalan foi particularmente expressiva até The Village no recorrer constante àquilo a que podemos chamar de “piruetas finais” (uma reviravolta final revela um logro ao espectador), artifícios ficcionais que tendem a sacrificar a progressão dramática em benefício de uma anedótica surpresa, o realizador pôde esboçar Lady in the Water, autêntico conto teórico em que desenvolve de forma límpida e exemplar o seu sistema ficcional.

ladyinthewater1.jpg

LADY IN THE WATER, A ESPINHA DA SOCIEDADE

Não é sem dúvida por acaso que a protagonista de Lady in the Water (Bryce Dallas Howard) se chama Story. Criatura de um país mítico, sereia naufragada na piscina de um condomínio onde apenas a presença do superintendente Cleveland Heep (Paul Giamatti) assegura uma ligação entre os inquilinos [3], Story vem de alguma forma oferecer uma narrativa comum a um grupo de personagens heteróclitos.

Em Lady in the Water o que conta para Shyamalan não é fazer-nos acreditar na ficção partilhada pelos seus personagens nem sequer utilizar alegoricamente a mesma ficção mas, ainda mais explicitamente do que nos filmes precedentes, consagrar o carácter estruturante da própria ficção. Assim, os personagens serão definidos pela função narrativa que ocupam (escriba, intérprete, curandeiro, guardião [4]...) no âmbito da ficção que lhes é gradualmente revelada. Para M. Night Shyamalan, sem ficção não existe realidade social.

[1] Os seus dois primeiros filmes (Wide Awake e Praying with Anger) permanecem inéditos por estas terras.
[2] Ao contrário, entre muitos outros, de um Bryan Singer que não hesita em crucificar Superman...
[3] A forma como o realizador trata o aprofundamento dos laços entre os vizinhos é notável em todos os títulos.
[4] Segundo uma tipologia próxima da desenvolvida pelo crítico estruturalista Tzvetan Todorov em The Fantastic – A Structural Approach to a Literary Genre (Introduction à la Littérature fantastique, 1970).



De rafgouv a 12 de Abril de 2007 às 08:45
nelson,
deixa-me explicar: não é que não exista ligação entre Trier e Dreyer, é claro que existe (nem que seja por Trier se considerar de facto herdeiro de Dreyer). O que acontece é que eu não tenho coragem para mergulhar no trabalho de um cineasta de que gosto pouco - Trier - para tentar aprofundar esses laços. Prefiro outras companhias.

Há no entanto um laço evidente entre Trier e Shyamalan que é o gosto pela manipulação do espectador. A obra de Trier está construída em torno de diversos gimmicks de que o Dogma é o exemplo mais célebre (o último visivel na recente comédia The Direktor é uma técnica de enquadramento arbitrário, vocês apreciarão quando aí chegar). Como tentei dizer no texto as piruetas finais da maioria dos filmes de Shyamalan tendem também por vezes a transformá-los em anedotas (as anedotas também têm quase sempre uma "chute" uma linha final inesperada). Mas enquanto o Trier é um exibicionista de primeira, Shyamalan aposta (e nisso se aproxima de Dreyer) na literalidade (um milagre é um milagre e a ressurreição de Story pode perfeitamente ser comparada ao milagre de Ordet em que a palavra assume, como a narração no cinema de Shyamalan, toda a preponderância) e numa modéstia quase calvinista ou jansenista (tema da predestinação, da palavra revelada)...


Comentar:
De
Nome

Email

Url

Guardar Dados?



Email

Password



Comentário

Máximo de 4300 caracteres




.mais sobre mim
.pesquisar
 
.Março 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

31


.posts recentes

. EM SÃO PAULO, ENTRE OS RU...

. "THE LAST OF US", AMOR, L...

. QUE SORTE PODER VOLTAR A ...

. MEXICO DF UMA CIDADE ONDE...

. A MINHA SAGA COM O CANDY ...

. QUATRO FILMES A NÃO PERDE...

. PABLO ESCOBAR, O PATRÃO D...

. A MINHA FRUSTRAÇÃO COM O ...

. "THE WALKING DEAD" (GAME)...

. NUMA JANGADA DE POVOS IBÉ...

.arquivos

. Março 2014

. Dezembro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Maio 2012

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

.tags

. apostas

. arte e design

. artes e design

. cibercultura

. ciberfeminismo

. cibermemórias

. cinema

. colaborações

. divulgação

. enigmas

. entrevista

. exposições

. festas

. game art

. game art exposições

. gamers

. iconografias

. indústria de jogos

. interfaces

. jogos e violência

. livros sobre jogos

. mouse conf.

. mouse no obvious

. mouseland

. myspace

. pop_playlist_game

. portfólios

. script

. segredos

. séries tv

. teatro

. textos

. viagens

. viagens cinema

. todas as tags

.links
.participar

. participe neste blog

.MOUSELAND _ PATRÍCIA GOUVEIA
ARTES E JOGOS _ DIGITAIS E ANALÓGICOS
blogs SAPO
.subscrever feeds