Sábado, 19 de Maio de 2007
ZODIAC (David Fincher, 2007), RETROASTROLOGIA_por rafgouv
zodiac0.jpg

Existia nas tertúlias cinéfilas contemporâneas uma barreira – cultural, geracional, estética, filosófica? – entre aqueles que consideravam que David Fincher era um génio visionário praticamente comparável a Orson Welles e os outros que, abatidos pelo virtuoso frenesim hi-tech do autor de Fight Club, clamavam que o seu talento não era senão exibicionismo condimentado com imensa esperteza saloia.

É se calhar escusado dizer que pertenço ao primeiro grupo. Nunca esquecer a poderosíssima deflagração profética de Fight Club, filme oráculo, codex cinemático milenarista, salutarmente crepuscular. Nunca esquecer a chuva de Se7en, em New Orleans. Nunca esquecer aquela asa de cafeteira que a câmara atravessa em Panic Room, fenomenal invenção formal (e virtual). Nunca esquecer a androginia totalitária de Alien 3...

Mas talvez não mereça a pena continuar a insistir sobre a monumental evidência da mestria de Fincher pois é muito provável que Zodiac ponha toda a gente de acordo. Desta vez, Fincher escolheu uma narração bem menos acelerada, ao sabor do ritmo do inquérito que acompanha e que decorre durante um período de 20 anos, com inúmeros impasses e progressões por vezes quase aleatórias.

Zodiac é a adaptação dos livros autobiográficos [1] de Robert Graysmith [2] sobre o célebre caso Zodiac, um serial killer que aterrorizou São Francisco durante uma década. Aparentemente sóbrio e até, para os menos pacientes, um pouco convencional, Zodiac é mais uma demonstração potente da capacidade de Fincher para redistribuir totalmente os dados e reinventar os códigos mais rígidos do cinema de Hollywood.

VIRTUOSISMO INTACTO

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A sequência de abertura de Zodiac, prova de imediato que o virtuosismo de Fincher permanece intacto. No entanto, além dessa abertura magistral, “fireworks” que é ao mesmo tempo eco e prenúncio do final de Fight Club, Zodiac é avaro das irrupções de inventividade formal que tanto contribuíram para a exultação dos seus admiradores como para a desorientação (e o desinteresse) dos seus detractores.

Durante a primeira parte do filme, o realizador dedica-se a uma demonstração extremamente minuciosa da forma como a democratização da tecnologia ultrapassa largamente a capacidade de adaptação das estruturas administrativas encarregues do inquérito. A circulação automóvel, a televisão, o cinema, o jornalismo sensacionalista ou a democratização da droga [3] oferecem ao criminoso um terreno lúdico de eleição no qual os protagonistas se vão deixar enredar até ao desencorajamento ou à obsessão. O filme adopta em seguida a arritmia da progressão de um inquérito à deriva e é nesse tratamento de uma temporalidade ritmicamente incerta, feita de impasses, recuos e recomeços, que Fincher exibe o seu exímio controlo. Para figurar a passagem do tempo, o realizador utiliza uma impressionante panóplia de efeitos, realçando o carácter errático da partida.

Simultaneamente, Zodiac distancia-se da tradição de filmes de serial killer como Dirty Harry, directamente inspirado pelo caso [4], ou os mais recentes avatares de Silence of the Lambs ou Se7en [5]. Aqui não há profilers, a psicologia do criminoso está longe de ser o motor da acção e jamais somos levados a pensar que estamos perante uma superior inteligência diabólica. De uma certa maneira, o mistério que Zodiac ambiciona revelar é ainda maior: como foi possível o imenso fracasso da investigação [6]?

JANGADA DE PEDRA

zodiac.jpg

Convém no entanto assinalar que Zodiac se distingue da torrente de ficções denunciadoras com que Hollywood se vai pretensamente atacando ao real. Aqui não há conspiração alguma e se bem que as personagens sejam múltiplas e diversas, cada uma delas segue o seu próprio fio da meada, sem a facilidade dos efeitos corais.

O filme remete, embora formalmente tenha pouco a ver com qualquer uma delas, para duas obras fundamentais dos anos setenta: Night Moves de Arthur Penn e The Conversation de Francis Ford Coppola, curiosamente ambos protagonizados por Gene Hackman. Esses filmes, também eles feitos de digressões e de arritmias restituíam com enorme acuidade a indeterminação profunda da década de setenta, indeterminação que encontra no desenrolar do caso Zodiac um exemplo perfeito. Não é por acaso que os filmes citados se encontram entre os menos célebres dos seus autores, eles correspondem a uma visão dos anos setenta que foi quase totalmente apagada da memória cinematográfica. Ora, um dos méritos menores de Fincher não é certamente o de desmentir radicalmente a visão mítica da cidade de São Francisco nos anos setenta [7]: não há hippies por todas as esquinas, a banda sonora é bastante discreta e o verdadeiro tema do filme parece ser o desabrochar do individualismo e não o triunfo do comunitarismo.

Da mesma forma que não existe conspiração de alto nível para explicar o falhanço do inquérito, não existe idealismo algum da parte dos protagonistas ou das instituições que servem e que seguem motivações bem diversas: o desafio lúdico, o triunfo, o poder, o lucro económico... Zodiac serve também de potente desmistificação de um certo cinema contemporâneo (paranóico e/ou idealista) que reivindica raízes na década de setenta e que utiliza, por vezes com talento por vezes sem vergonha mas sempre com excelentes intenções, a magia de Hollywood para exaltar os subtis cordelinhos que unem os destinos humanos [8]. Empresa tão mais gratuita quanto esses cordelinhos, essas ligações, se começam tragicamente a atenuar e que não basta certamente a magia de Hollywood para os reatar.

THE FUTURE IS NOW

zodiac2.jpg

Se mergulharmos nos profundos paradoxos temporais que nos oferece Zodiac podemos perfeitamente considerar que o fourth of july 1969 inaugura um período que conhecerá a sua apoteose no nine eleven 2001 profetizado em Fight Club. A enorme melancolia do filme, a neurastenia que assola sucessivamente os seus protagonistas, têm aí sem dúvida a sua raiz. Porque na realidade sabemos todos que os inquéritos se tornaram mais eficazes e que a tecnologia lhes pode servir, mas sabemos também onde atracou o mundo que aqui derivava: no consumismo desenfreado, no narcisismo exacerbado, na substituição da afectividade pela estimulação sensorial e pela emotividade, na arena de Fight Club, o prequel de Zodiac.


Uma última palavra sobre a fabulosa sequência do projeccionista suspeito, piscadela de olho gótica ao Flicker de Theodore Roszak que em tempos Fincher pensou adaptar: nela podemos apreciar a sua imensa arte da digressão e da decepção, emblemas deste precioso filme, total e radicalmente a contra corrente. David Fincher prepara actualmente The Curious Case of Benjamin Button, adaptação de F. Scott Fitzgerald, de novo com Brad Pitt. A história de um homem que nasce com 80 anos e que “envelhece” ao contrário... Lógico!


[1] Zodiac e Zodiac Unmasked.
[2] Cartoonista do San Francisco Chronicle, jornal conhecido por albergar as famosas crónicas de Armistead Maupin que é de resto personagem de um dos episódios do filme.
[3] Sem falar do jogo vídeo cujo advento é evocado numa saborosa digressão.
[4] Filme citado em Zodiac. O assassino perseguido por Harry Callahan (personagem inspirado por David Toschi que é um dos protagonistas do filme de Fincher), no filme de Don Siegel chamava-se Scorpio.
[5] Fincher tinha jurado que não voltaria a fazer um filme de serial killer e por isso é compreensível que o tenha querido fazer radicalmente diferente.
[6] Não deixa de ser irónico por exemplo que Robert Graysmith tivesse o cognome de “retard”.
[7] A São Francisco das crónicas de Maupin, por exemplo.
[8] Estou a pensar em filmes como o enfadonho Syriana de Stephen Gaghan ou o medíocre Crash de Paul Haggis.


38 comentários:
De tipografia a 21 de Maio de 2007 às 19:52
mouse,
"parte uma perna" em Aveiro... vamos ter saúdades das tuas "divagações ciberargumentativas"...por aqui!

Raf e mq,
bom discurso! ...e, bons filmes.

ttttt


De rafgouv a 22 de Maio de 2007 às 08:42
MQ,
Obrigado pelos comentários e pelos elogios! Não te preocupes com os erros (embora aprove a tua sugestão de correcção prévia à edição dos comentários).

Estou tb de acordo com tudo o que dizes e aprecio particularmente a referência às dificuldades e à desorientação dos inquéritos sobre o terrorismo que tb tinha em mente (e que reforçam o laço com Fight Club). Tb penso que estes insucessos são provavelmente menos datados do que parecem...

... Quanto a Magnolia: porque é que acho, como tu, Magnolia belissimo e Crash horrível??? Simplesmente porque o realizador de Magnolia (Paul Thomas Anderson), "assume" o cinema - o vídeo clip, a chuva de sapos, a proximidade do fantástico, a musicalidade, a qualidade dos actores (a cena com Julianne Moore na farmácia é das mais comoventes dos últimos anos)... - enquanto Haggis limita-se a fazer uma demonstração ("vejam como o meu argumento é profundo e como as personagens se cruzam de forma inteligente") o que é totalmente contraditório com um qualquer "realismo" (todas as peripécias estão ao serviço da demonstração e das boas intenções, em vez de estarem ao serviço do "cinema"!!!). Além disso achei também que os actores em Crash eram péssimos... Mas isto é apenas uma opinião!!!

PS: E se souberes de um periódico à procura de crítico de cinema... :mrgreen:

tipografias,
obrigado! mas não queres dar também o teu ponto de vista?


De mouseland a 23 de Maio de 2007 às 13:35
:mrgreen::mrgreen::mrgreen::smile::razz::lol:

Olá a todos! Obrigado pelos comentários inspiradores. Estou a ver que isto andou muito animado por aqui. Continuem que eu ainda não consegui ir ver o filme.

xxx mouse


De mq a 23 de Maio de 2007 às 23:11
Raf
Para mim, Magnólia é um daqueles filmes que dificilmente se esquece, sobretudo porque me falou das escolhas que fazemos ao longo do horizonte temporal da nossa existência humana - da infância ao limiar da morte -, mostrou-me com uma nitidez quase cruel, e através de tantas histórias de vida, os meus vazios, as horas de redenção-perdão, o restabelecimento de laços ...
O final é arrebatador...A banda sonora sublime. Enfim, muitos já descreveram como este filme é extraordinário e eu não tenho muito jeito para isto.
Li que "as magnólias apresentam estruturas reprodutivas e anatómicas que são extremamente primitivas em relação a todas as outras flores"; será que o que temos aqui como pano de fundo são estruturas tão antigas quanto os fósseis gimnospérmicos? :roll:
Abr,
mq


De tipografia a 24 de Maio de 2007 às 01:20
Ai! Ai! Desculpem… mas vou “fugir com o rabo à seringa”. O exercício de reflexão e de escrita, para mim neste momento encontra-se em baixo… realmente gostava de contribuir, expondo o que senti perante estes dois filmes, duas obras-primas “magnólia” e “crash”…gostei de ambos, são bastante distintos, com intensas desordens, realidades frias, imagens singulares, intangíveis… mais? Fica para a próxima. Zodiac, também, ainda não vi.

:oops:


De Carecone a 24 de Maio de 2007 às 08:39
Ai, eu estive aqui, mas não li tudo neste exato instante, pois estou um tanto ALTO... volto depoi e leio! Só passei para dizer que assisti ao A Scanner Darkly e gostei! Beijos vários para ti!


De rafgouv a 24 de Maio de 2007 às 09:45
MQ,
O "jeito" do crítico de cinema resume-se, quanto a mim, a dar vontade de ver ou rever filmes... E graças a ti, estou cheio de vontade de reutilizar o meu DVD de Magnolia...
bjos,

tipografias,
Eu só gosto de analisar os filmes que me agradam e por isso as referências que faço aos que me desagradam são sempre lacónicas ou provocatórias... De tal forma que depois fico por vezes com remorsos... Pobrezinho do "Crash", se calhar é bem melhor do que o que viram os meus olhos... De qualquer forma, obrigado pela participação e se tiveres um tempinho, vai ver Zodiac!!!
xxx


De mouseland a 25 de Maio de 2007 às 00:14
Hello a todos, :mrgreen::smile::razz::wink:

É muito recompensador ver que o debate corre na minha ausência por isso é que já escrevi um post novo para que o espaço continue fluído!

xxx para todos, mouse


De tipografia a 26 de Maio de 2007 às 01:47
Estou mais virada para ir ver "Paranoid Park" de Gus Vant Sant ... ok! ok! claro, também não vou perder "Zodiac". satisfeitos???:mrgreen:


De mouseland a 26 de Maio de 2007 às 15:22
:mrgreen: Typo, :razz::smile::lol:

Eu é que estou a precisar de fazer uma sessão dupla! Não sabia que o Gus Vant Sant já estava nos cinemas, tanta coisa para ver!

xxx mouse


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