Quarta-feira, 13 de Junho de 2007
“DEXTER”, SERIAL-CARRASCO_por rafgouv
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DEXTER, a série de televisão que o canal americano Showtime começou a difundir em 2006 é um objecto particularmente siderante pela sua aparente amoralidade. Grande parte dos episódios da 1ª época da série [1] foram realizados por Michael Cuesta [2], um dos realizadores mais regulares de Six Feet Under para o HBO, e o seu protagonista não é outro que Michael C. Hall, o David da mesma série. DEXTER tem em comum com a série de Alan Ball uma certeira morbidez e uma estrutura centrada no núcleo familiar mas o seu elevado poder subversivo remete sobretudo para as duas primeiras épocas de outra série do Showtime, Nip/Tuck, que infelizmente, enredada numa teia soap, está cada vez mais longe de cumprir as suas promessas iniciais. 

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DA ARTE DE PROJECTAR O SANGUE

Dexter é um médico legista da polícia de Miami na qual trabalha também, como detective, a sua inseparável irmã Debra [3]. A especialidade de Dexter é a interpretação crítica das projecções de hemoglobina nas diversas cenas de crime. Quando a série começa, um novo assassino – o Ice Truck Killer – começa a espalhar os seus objectos artisticos pela cidade. O Ice Truck Killer tem a particularidade de não abandonar os corpos seccionados das suas vítimas sem antes os ter cuidadosamente sangrado até à última gota. Talento face ao qual o “herói” da série não pode deixar de se estarrecer. 

Ao mesmo tempo que faz o seu “coming out” letal, o Ice Truck Killer inicia um autêntico jogo de pistas com Dexter, semeando referências ao passado do protagonista e da sua família. É que Dexter tem um segredo, desvendado, fiquem descansados, desde o primeiro episódio: adoptado durante a infância por um polícia (o pai de Debra), o “herói” sentiu desde a tenra infância profundas pulsões assassinas. Foi graças à educação do seu pai que Dexter foi canalizando essas pulsões para, de acordo com a tradição dos super-anti-heróis justiceiros da cultura pop americana, servir a comunidade. Aquilo que distingue Dexter dos outros serial-killers é a forma conscienciosa como selecciona as suas vítimas mas de forma alguma o tratamento que lhes reserva.

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DA MORTE COMO PULSÃO BENIGNA

O enorme fascínio exercido pela série reside na relação de atracção/repulsão que se instala entre o protagonista e o espectador e na forma como os seus autores dinamitam as referências morais a que nos vamos querendo agarrar. Assim, os autores exploram com uma falta de complexos tão surpreendente quanto perturbante, e com uma amoralidade largamente superior à do protagonista [4], as entranhas do subconsciente esquizofrénico do homem moderno: predação acompanhada de falta de desejo sexual, relativismo dos laços de sangue, miséria afectiva, obsessão lúdica... Para ser o perfeito avatar televisivo do Patrick Bateman de Brett Easton Ellis [5], só falta a Dexter a obsessão consumista (mas Dexter, ao contrário de Bateman, é uma personagem “simpática”).  

Aceitar que a pulsão mortifera seja tratada – e canalizada – como qualquer outra pulsão, sexual, social ou psicológica, não é para mim uma operação moral fácil. No entanto, a série DEXTER tem o mérito de colocar estas questões frontalmente, tarefa por excelência moralista. Por outro lado, a série (pelo menos na sua 1ª época) evolui numa corda bamba de ambiguidade sem nunca resvalar completamente (pelo menos até agora) para o relativismo “psicologista” (todas as pulsões são aceitáveis se bem canalizadas) nem para o fascismo latente (exaltar a justiça individual e a pena de morte lenta e penosa). 

PS: FREE PARIS HILTON!!!

[1] A segunda época deverá ir para o ar nos Estados Unidos a partir de Setembro, se as vozes mais escandalizadas não comprometerem até lá a sua passagem.
[2] Cuesta é também um realizador de cinema audacioso, autor de L.I.E. e de Twelve and Holding  que são, a par de Mysterious Skin de Greg Araki, dois dos melhores filmes recentes sobre a pedófilia e a sexualidade adolescente.
[3] A fabulosa Jennifer Carpenter, razão suficiente para ver The Exorcism of Emily Rose, mix interessante (e para muitos ultra-reaccionário) de filme de terror e de filme de processo, de Scott Derrickson.
[4] Algumas vozes mais radicais criticam a submissão da série ao “topos” do justiceiro mas podemos também considerar que sem recorrer a tal cliché a série resvalaria para o “snuff” nauseabundo.
[5] in American Psycho


De RIC a 1 de Junho de 2009 às 14:24
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