Quinta-feira, 2 de Agosto de 2007
“DEATHPROOF” – O CINEMA VINTAGE DE QUENTIN TARANTINO_por rafgouv


A visão de
DEATHPROOF, o mais recente filme de Quentin Tarantino, trouxe-me à memória a atitude deslumbrada do ex candidato à presidência da república portuguesa Mário Soares quando visitou uma fábrica de têxteis, especializada em
vintage blue jeans. Soares tinha-se espantado com a dedicação dos operários que submetiam as calças a insólitas lavagens com calhaus para que estas adquirissem as eróticas tonalidades e texturas de um uso prolongado. Tarantino por seu lado empenha-se em riscar a película, força os falsos
raccords, dessincroniza som e imagem, envelhece premeditadamente os fotogramas para que estes possam rivalizar com a inocência
trash dos seus antepassados analógicos. Para o realizador de
Kill Bill, os filmes são um pouco como os bons vinhos, ou como os jeans deslavados, quanto mais velhos, mais surrados ou mais transpirados, melhor se revelam sedutores [1], poderosos, libidinosos.
Quentin Tarantino é provavelmente tão conhecido como cinéfilo como realizador, e isto apesar de não ter propriamente obra escrita na área da crítica de cinema. A lenda do empregado de vídeo clube que se transforma, graças a um filme aparentemente modesto [2] e a um festival [3], em personalidade incontornável do cinema contemporâneo é talvez uma das únicas a poder rivalizar com os mitos de antigamente, e o triunfo de Tarantino é quase sempre apresentado como o resultado de uma cultura fílmica enciclopédica, adquirida graças a uma insaciável bulimia. A Tarantino, devemos os filmes que realiza mas devemos também em grande parte a vulgarização do cinema popular asiático, o reconhecimento de realizadores contemporâneos importantes como Tony Scott ou Robert Rodriguez [4], a redescoberta de filmes e vedetas da
black exploitation dos anos 70, bem como a popularização de uma miríade de cantigas e melodias irresistíveis mas tombadas no esquecimento. Cada um dos seus filmes é uma espécie de sótão onde podemos buscar e rebuscar as referências que nos conduzirão a inúmeros objectos de deleite [5].
DEATHPROOF, o filme que estreia agora na Europa, resulta da decomposição do projecto
GRINDHOUSE, uma parceria entre Tarantino e a sua alma gémea, R. Rodriguez.
GRINDHOUSE foi uma tentativa economicamente falhada de relançar as
double bill (sessões duplas) graças às quais as sucessivas gerações de
babyboomers (entre os anos 50 e 70) iam descobrindo as relíquias do cinema popular. O projecto reunia dois filmes de 90 minutos [6] intercalados com alguns minutos de
trailers de obras imaginárias, desenhos animados e outras curiosidades. Tudo isto com o tal tratamento
vintage destinado a dar à película a “patine” das antiguidades... Depois do fracasso da estreia de
GRINDHOUSE nos Estados Unidos, decidiu-se explorar individualmente cada um dos filmes para melhor os rentabilizar, receita que já tinha dado provas com
Kill Bill, que também tinha sido pensado inicialmente como um só filme. Além de extraído da obra bicéfala original,
DEATHPROOF foi ainda ampliado com cerca de 20 minutos suplementares que lhe conferem também curiosamente uma estrutura bicéfala.
Se à primeira vista estamos perante uma dupla homenagem a Russ Meyer (as fêmeas opulentas e castradoras) e a John Carpenter (presença mitológica de Kurt Russel, personificação automóvel e abstracção rodoviária),
DEATHPROOF acaba por resvalar numa auto celebração do fetichismo do autor de
Pulp Fiction.
Não é sem dúvida por acaso que a personagem de Russel se chama Stunt Mike, um duplo cinematográfico, e que o papel da heroína que o afrontará num virtuoso duelo final é desempenhado por Zoé Bell, a dupla (
stunt) de Uma Thurman em
Kill Bill, filme em que Tarantino pretendeu igualar o fetichismo demiúrgico de um Von Sternberg, fazendo de Thurman a “sua” Marlene. Sem querer revelar as subtilezas da intriga, podemos dizer que de uma certa forma,
DEATHPROOF é uma meta ficção sobre esse fracasso (Thurman não se deixou transformar em “boneca”, maleável aos caprichos do realizador), na qual o realizador assume de forma irónica ou patética (segundo os gostos) a impotência do seu estatuto de duplo (dos seus modelos “vintage” e, na minha opinião, dele próprio quando inspirado) e o estatuto puramente fetichista (a multiplicação de planos dos pés das protagonistas estão lá não só como ícones pop gratuitos equivalentes às mamas das heroínas de Russ Meyer, mas sobretudo para figurar a assunção de um fetichismo bem mais cerebral) do seu desejo, de mulheres ou de cinema.
É certo que
DEATHPROOF é um filme divertido e conta com alguns rasgos de inteligência e momentos de grande brilhantismo. Mas trata-se sobretudo de um exercício de narcisismo e de “self consciousness”, uma auto-homenagem disfarçada, à qual só posso torcer o nariz.
Rafgouv
[1] A escolha de Sidney Poitier para interpretar
Jungle Julia, sósia crível de Sónia Braga na época de
Gabriela, é a este título mais do que eloquente.
[2]
Reservoir Dogs[3] Cannes onde brilhou com
Reservoir Dogs e onde voltou para ganhar a Palma de Ouro com
Pulp Fiction, o seu segundo filme.
[4] Este último continua ainda, por muitos, incompreendido.
[5] Por exemplo, sem Tarantino eu provavelmente nunca teria descoberto o cinema “chambara” de Kenji Misumi.
[6]
Planet Terror de Robert Rodriguez e
Deathproof de Tarantino.
:evil::twisted::evil:
Achei o filme uma verdadeira seca. Quase patético o lado abonecado das raparigas.... E o adorável Kurt Russel do muito estimado John Carpenter com aquela cicatriz "fake" deixou-me gelada de indiferença... nem os diálogos conseguiram demover-me...
xxx mouse
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