Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007
CÓPIA OU COINCIDÊNCIA? MISTER LEE VERSUS KFC_PIRATARIA E CONTRAFACÇÃO
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Os chineses copiam tudo pois acreditam, segundo a tradição de Confúcio, que é o gesto de copiar que define e caracteriza o verdadeiro artista. Para a estética chinesa aquilo que é belo não é o objecto artístico mas antes o gesto do artista no acto de produzir uma cópia. A reprodução ou repetição até ao infinito transforma o gesto em algo eterno e acredita-se que a verdadeira humildade se encontra no artista que copia, pois este denuncia um esforço pela aprendizagem constante.

O italiano Federico Rampini conta a sua visita à cidade de Dafen, célebre em toda a China como a “cidade dos pintores”: “No pós guerra e até aos anos 70, os “piratas” por excelência eram os italianos, no campo da moda (quando os estilistas eram franceses), e os japoneses em relação à tecnologia. Nas feiras industriais no Ocidente havia avisos que proibiam as delegações japonesas de levarem consigo máquinas fotográficas, porque eles fotografavam para copiarem os produtos americanos, britânicos e alemães. Daquela época ficou uma herança: a liderança mundial do Japão na óptica de precisão, recordação de um tempo em que, para eles, a máquina fotográfica era uma arma estratégica. Em muitos outros sectores tecnológicos, o made in Japan é, actualmente, de tal modo avançado que nós já renunciámos a competir com eles. Sob este aspecto, os chineses são os japoneses de ontem. Têm a mesma obstinação no estudo do que é mais avançado em relação a eles, a mesma ânsia de emulação. A pirataria é ilegal, mas revela também uma grande vontade de aprendizagem.

Parece uma metáfora para toda a China, esta estranha cidade de Dafen, com os seus 2700 pintores que se afadigam na cadeia de montagem, alugando os seus pincéis ao serviço dos nossos desejos. Chen, fechado no seu quartinho a fazer Giocondas há anos por poucas centenas de euros, confessa com orgulho: “Na universidade estudei precisamente o século XVI italiano.” Quando lhe pergunto se lhe agradaria um dia ver a verdadeira Mona Lisa no Louvre, o seu rosto ilumina-se com um sorriso e diz: “Naturalmente, esse é o desejo de todos os pintores”” (Rampini, 2007). Em Dafen os pintores pintam dia e noite em 145 “fábricas de arte”.

Em matéria de inspirações e não tanto de emulações nas cidades chinesas há de tudo: Mister Lee ou uma sombra asiática do Mister KFC (Coronel Harland Sanders)? Lojas Bossini, sapatilhas e malas de todos os feitios e marcas na contrafacção. Uma ida ao Silk Market de Beijing torna-se uma tortura ao fim de poucos minutos, todas as bancas regateiam os seus produtos e ninguém larga o ocidental. Quem me ter ido mascarada pois assim não passei do rés-do-chão quando o edifício tem por volta de cinco pisos de material da candonga. Segundo o “Lonely Planet” este mercado antigamente era mesmo nas barbas da embaixada americana em Pequim, hehehe.


7 comentários:
De rafgouv a 11 de Setembro de 2007 às 10:11
:cool:
Post muitissimo interessante mas que me suscita algumas interrogações:

- sem desmentir a importância da arte da cópia na cultura chinesa, poderemos afirmar que se trata de uma caracteristica que lhe é própria? a tradição escolástica ocidental baseava-se também numa pedagogia da "cópia"...
- a "cópia" e a "reprodução" (conceitos bem diversos) é também a base da pop arte e não é certamente por acaso que o exemplo que mostras tem aparentemente mais que ver com alguns trabalhos de Warhol do que com a tradição da "iluminura" ou da caligrafia chinesas...
- parece-me um pouco abusiva a ligação entre a cópia industrial que é motivada por considerações económicas e encorajada pelo governo (é politicamente legítimo que um regime colectivista suspeite da lógica tipicamente capitalista do "copyright"), e a tradição pedagógica da reprodução (que, insisto, é conceito bem diferente de "cópia") e da repetição que constituem os alicerces dos minimalismos zen (Japão) ou confucianista (China)...


De mouseland a 11 de Setembro de 2007 às 12:21
:mrgreen::mrgreen::mrgreen:

Vou transcrever umas considerações do Rampini para te responder pois não me apetece nada entrar em considerações sobre a diferença entre cópia e reprodução (a imitação e a emulação versus simulação, hehehe). Por exemplo, ao contrários dos pintores hiper-realistas, os chineses não usam a projecção por slide para decalcarem as obras. Neste sentido não há reprodução e a cópia acrescenta algo ao original, a forma como o artista que copia interpreta o original. Atenção que essa tradição escolástica ocidental há muito que abandonou o ensino das belas artes. Mas penso que o teu comment está confuso quando depois volta a chamar reprodução à tradição chinesa. Quanto à repetição Zen também me parece outra coisa pois a repetição nem sempre implica imitação no sentido da reprodução de algo mas pode remeter-nos para a cópia como produção de um novo gesto. Repara que o Mister Lee só é inspirado pelo KFC. A repetição é a repetição do gesto e não da imagem no sentido de uma reprodução.

"Vista da cidade dos pintores, até a pirataria, a verdadeira, aparece a uma luz um pouco diferente. Muitos antes de Walter Benjamin ter escrito "A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica", muito antes até de Andy Warhol se dedicar à multiplicação das imagens célebres com a ironia da Pop Art, já há 2000 anos, na China, a tradição de Confúcio exaltava o gesto de copiar como uma homenagem simpática e devota para com o artista original. A história da Arte na China tem esta marca. Não é por acaso que a civilização mais antiga do mundo herdou assim um pouco do “antigo” no sentido em que hoje o entendemos” (Rampini, 2007: 203).

xxx mouse


De rafgouv a 11 de Setembro de 2007 às 13:22
:mrgreen: :mrgreen: ... se o Rampini diz...
É precisamente essa ideia singularmente redutora (para não utilizar outro adjectivo menos cortês) segundo a qual a reprodução e a cópia teriam sido introduzidas no ocidente por Benjamin ou Warhol que contesto... Daí a referência à tradição escolástica, e aos "copistas", que data também de há quase 2000 anos... Na realidade, toda a gente sabe que antes de Guttenberg (e possivelmente desde a pintura rupestre), a pedagogia passava forçosamente pela cópia... mas longe de mim contradizer o Rupini...

:roll: Não percebo em que é que a diferença entre "reprodução" e "cópia" tem que ver com a questão do decalque... Quanto a mim a reprodução difere da cópia pelo facto de, como dizes, consagrar um "novo gesto", enquanto a cópia (e daí o seu lado "industrial") se distingue pela sua indistinção em relação ao original. A "reprodução" é centrada no acto, no gesto, enquanto a cópia é forçosamente vista sob o ângulo do resultado... Excusa o exagero mas é um pouco a diferença potencial entre um ser humana naturalmente reproduzido e um clone.


De mouseland a 11 de Setembro de 2007 às 14:19
:shock: que confusão! Afinal estás a falar de copiar algo ou reproduzir algo? No sentido de Benjamin a reprodução é elaborada por via da fotografia, da semelhança indicial com o reproduzido, por exemplo. Existe um carácter indicial relacionado com a existência da realidade física na "coisa" que é capturado pelo olhar, gesto do artista. No caso das cópias escolásticas feitas desde sempre na cultura chinesa e na cultura das belas artes ocidentais sempre existiu um gesto de produção como re(produção), como símbolo ou, em alternativa, como ícone. Em Benjamin acho que não é o gesto que está em causa pois ele é reproduzido industrialmente, as obras de arte são reproduzidas friamente. Sem artista. Reprodução, tal como cópia em certo sentido, pode ser interpretado como verosimilhança ou, em oposição, como produção de algo novo mas temos que considerar que copiar algo é diferente de reproduzir algo e que reproduzir algo pode ter ou não alguma produção enquanto que copiar algo tem sempre algo de simbólico. Não sei se não estou a ser ainda mais confusa mas para mim esta distinção é clara. A repetição para Benjamin relaciona-se com o gesto como algo lúdico, por exemplo, quando uma criança manipula um brinquedo vezes sem conta.

Estas discussões parecem-me cada vez menos interessantes porque assentam a maioria das vezes em jogos de palavras (reprodução versus cópia) e antes que se chegue a alguma conclusão perde-se imenso tempo a discutir o sexo dos anjos.

xxx mouse


De mouseland a 11 de Setembro de 2007 às 14:26
:mrgreen::mrgreen:Ah e o decalque está mais próximo da reprodução do que da cópia a olho nu. No decalque, o artista reproduz uma grelha de pixels ou de quadrados e só o conjunto desses quadrados lhe dá a globalidade do todo. Ao copiar uma paisagem a olho nu o gesto é totalmente diferente e o que está implicado são técnicas muito distintas. Hiper-realismo versus impressionismo? Neste caso concreto da cidade de Dafen há um mix de ambas as estratégias uma vez que se pinta a partir de uma reprodução com o olhar de um pintor paisagista da escola impressionista, ou seja, impõe-se uma subjectividade à cópia e as proporções da Mona Lisa, por exemplo, ficam sujeitas a uma re(criação) simbólica (quase, teria que ver caso a caso). Uma nova inversão?

xxx mouse


De rafgouv a 11 de Setembro de 2007 às 14:59
:mrgreen:
Coloquei uma pergunta e obtive a resposta... do ponto de vista de Benjamin que não me parece ilustrar a ideia confuciana de "reprodução" mas enfim, tal como tu penso que tal não é muito relevante.

No 2° comment, já a ideia de "copiar uma paisagem a olho nu" me deixa todinho arrepiado... Pensei que era óbvio que as cópias e reproduções de que falava pressuponham a existência de uma criação "original"... :roll:

xxx


De mouseland a 11 de Setembro de 2007 às 15:08
:mrgreen::mrgreen::mrgreen: sim, original? Da Natureza? hehehe.

xxx mouse


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