Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007
LITERATURA ELECTRÓNICA. O QUE É? N. KATHERINE HAYLES
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O texto on-line “Electronic Literature: What is it?” (v1.0 de Janeiro de 2007) de N. Katherine Hayles (UCLA) faz um excelente enquadramento do conjunto de trabalhos que podem ser considerados dentro da literatura electrónica. O texto introduz três momentos chave na produção literária digital. Num primeiro momento, encontramos o período “clássico” definido pela ficção em hipertexto que tira essencialmente partido da estrutura das ligações e de software do tipo Storyspace (criado por Michael Joyce, Jay David Bolter e John B. Smith e licenciado por Mark Bernstein para a Eastgate Systems) ou do software HyperCard para Macintosh. Num segundo momento, a literatura electrónica adopta a imagem e o som e vai progressivamente abandonando os blocos de texto (lexias) para se impor como uma descoberta espacial e temporal no ecrã. A evolução do hardware e do software permite incursões textuais mais visuais e sonoras e impõe um agenciamento que tira partido de esquemas de navegação e metáforas de interface. N. Katherine Hayles considera que as formas de literatura digital da segunda geração são híbridas e que se mesclam facilmente com programas de mapeamento e de cartografia visual. A autora americana adopta a noção “ficção em rede / network fiction” de David Ciccoricco para definir uma ficção digital que usa a tecnologia hipertextual de forma a criar narrativas emergentes e recombinatórias. Por último, num terceiro momento encontramos, na classificação de Hayles, a ficção Interactiva (IF) que depende expressivamente dos elementos de jogo e da organização narrativa na construção do argumento interactivo.  

A composição destas obras literárias de “terceira geração” adopta intricadas relações entre jogabilidade (gameplay) e variadas componentes novelísticas sendo os conceitos de jogo e narrativa aqueles que melhor definem a experiência do “interactor” (inter + actor ou aquele que interage com a obra). Para Hayles: “A ficção interactiva expande o reportório da literatura através de uma variedade de técnicas que incluem apresentações visuais, gráficas, animações e modificações inteligentes dos dispositivos tradicionais”. 

Parece-me evidente que a classificação da autora em vários momentos de produção é bastante aberta e que se caracteriza por um olhar interessante sobre a diversidade de objectos que constituem as ficções interactivas contemporâneas não adoptando sistemas formais mais rígidos baseados, por exemplo, apenas nos canais de divulgação e localização ou em aspectos meramente tecnológicos. Neste contexto, N. Katherine Hayles agrupa os artefactos literários digitais em períodos que se relacionam com o hardware e o software, com a escrita do código numérico mas também com as estratégias gráficas e visuais adoptadas na construção das interfaces. Finalmente, com os conceitos inerentes a toda a cultura digital e à experiência de recepção estética incorporada. Assim, “porque a literatura electrónica é normalmente criada e performatizada no contexto da programação media em rede também é formatada pelo poder da cultura contemporânea, particularmente dos jogos de computador, filmes, animações, artes digitais, design gráfico e cultura visual electrónica. Neste sentido, a literatura electrónica é um “monstro de esperança [ou esperançoso monstro?]” (como os geneticistas chamam às mutações adaptativas) composto por partes tiradas de várias tradições que talvez nem se misturem muito bem. Híbridos por natureza (…) nos quais diferentes vocabulários, conhecimentos e expectativas se juntam para ver o que acontece a partir deste relacionamento”. Há mentes que tendem a não adormecer e N. Katherine Hayles é, sem dúvida, uma delas. Para mais informações visitem o site da Electronic Literature Organization. Obrigado Cris por me chamares a atenção para este texto!


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